LEITURA - Pedaços de água nos olhos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Já foi a época em que os filhos se rebelavam contra os pais. Isso é coisa do passado. Estamos entrando na época em que são os pais que se rebelam contra os filhos. Uma libertação que abre as portas da velhice e deixa um recado borrado pela água.
Essa insinuação aparece em várias histórias de "Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva", novo livro da escritora gaúcha Cíntia Moscovich que está sendo lançado pela editora Record. O volume reúne nove contos que apresentam retratos de famílias em situações exemplares.
Em algum momento da maturidade, mães e pais iniciam um processo de libertação dos filhos. Um momento que coincide com o ápice do conceito de velhice. Aquele momento em que todas as fichas acomodadas nas nuvens despencam por terra, caem todas na forma de revelações.
O conto "Gatos Adoram Peixe, Mas Odeiam Molhar as Patas", traz a história de um filho adulto cansado de ser tratado como criança pela mãe viúva. Uma mãe protetora que enche o filhinho de beijinhos, abracinhos e comidinhas. Sufocado pela mãe, seu grande desejo é sair de baixo de suas asas e levar uma vida independente de homem adulto.
A ironia da narrativa reside no fato de que, enquanto o sujeito pensa em sua independência, a mãe age na direção de sua própria libertação. Do lado do filho, o ciúme da mãe ocupa o lugar de seu desejo de alforria. Quem realmente se liberta é a mãe.
O conto "Aos Sessenta e Quatro", narra a história de uma mulher que dedicou sua vida a fazer doces, cuidar dos filhos e suportar o marido deprimido. Na velhice, quando descobre uma doença fatal, decide caminhar no sentido da libertação da família, filhos e marido. Assim, joga tudo para cima em busca do pouco que lhe resta.
Em "O Brilho de Todas as Estrelas", Cíntia Moscovich apresenta a trajetória de um idoso que passa os dias na companhia da previsão do tempo e de um fiel vira-lata. Certo dia, numa manhã de inverno, encontra uma florada de alfazema no jardim. O aroma da flor abre caminho em sua memória. Lembranças de sua amada passam a aquecer a neblina e derreter o gelo do cotidiano. Essa revelação concede um novo sentido ao presente e o impulsiona em sua libertação do filho interesseiro.
Nascida em Porto Alegre, em 1958, Cíntia Moscovich é autora de três volumes de contos: "Reino das Cebolas" (L&PM, 1996) "Anotações Durante o Incêndio" (L&PM, 2000) e "Arquitetura do Arco-Íris" (Record, 2004). Também publicou dois romances: "Duas Iguais Manual de Amores e Equívocos Assemelhados" (L&PM, 1998) "Por Que Sou Gorda, Mamãe?" (Record, 2006).
Há uma aura de libertação nos contos de "Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva". As personagens invariavelmente atravessam situações onde ocorre um salto de percepção da vida ou do mundo. As situações podem ser banais, mas o efeito que elas podem impulsionar é capaz de alterar a conduta diante da vida.
No conto "Caminho Torto Para Uma Linha Reta", por exemplo, no processo de libertação a repulsa é lentamente substituída pelo amor. Narra a história de um casal que se vê impelido a abrigar uma cadela abandonada por alguns dias. Ao modificar o cotidiano da casa, a cadela deixa de ser motivo de ódio para ser fonte de paixão.
Com sutilezas, Cíntia Moscovich faz da transformação e da libertação elementos reveladores nas banalidades do cotidiano. A vida íntima resguardada de maneira privada surge como ninho ideal para o nascimento de momentos decisivos. Aquela determinada hora em que o impulso de qualquer um é tirar os pedaços de águas dos olhos e seguir em frente. Mesmo que seja para ficar imóvel, sentado numa cadeira na varanda, esperando a chuva diminuir para sair de casa.
"Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva" é uma discreta ode à simplicidade. Nada de frases de efeito, nada de cenas violentas, nada de luzes hipnóticas de televisão ou vitrines de shopping center. Apenas aquilo que acontece quando o pensamento aceita sentir sob os pingos da chuva.
Serviço:
"Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva"
Autor Cíntia Moscovich
Editora Record
Páginas 144
Quanto R$ 29,90
Fragmento:
Na manhã do dia seguinte, Neide saiu do quarto com o rosto inchado. Devagar, como ofuscada pela claridade do dia, seguiu até a cozinha. Abriu o caderninho de endereços e, dando de mão no telefone, fez um número. Do outro lado da linha, um dos filhos disse um alô pastoso e sonolento. Ela pensou que os filhos se parecem com os pais e foi direto ao ponto:
- Vou me separar do seu pai.
João Pedro inquietou-se, àquela hora da manhã um telefonema daqueles, não entendia o que estava acontecendo, ela e o pai haviam discutido?
- Você sabe que seu pai não discute. Levem João Carlos para Goiânia.
O rapaz tentou dissuadir a mãe, uma vida inteira juntos, o que o pai faria na granja?, ela fizesse o favor, àquela hora da manhã não se tomavam decisões importantes. A mãe cortou o assunto:
- Não posso agendar uma hora do dia para tomar decisões. Você e João Paulo são responsáveis por ele.
O rapaz se desesperava, tanta coisa acontecendo, era uma mulher casada e deveria cuidar do marido, eles nem sabiam cuidar do pai. Neide se irritou:
- Garanto que cuidar do pai de vocês é o mesmo que lidar com titica de galinha.
E bateu o telefone.
(Fragmento do conto "Aos Sessenta e Quatro" que integra "Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva", de Cíntia Moscovich)


