Na boleia do caminhão, pai e filho. No rádio o pai caça desesperadamente alguma canção dos Beatles. Ao seu lado o garoto insiste num rosário de perguntas: deseja saber se realmente todo mundo faz. Se o Pelé faz. Se o Papa faz. Se o Bruce Lee faz.
Ele precisa saber se o Roberto Carlos faz, se o general presidente do Brasil faz, se as mulheres bonitas do cinema fazem, se o padre de "O Exorcista" faz, se o doutor Smith de "Perdido no Espaço" faz, se a Madre Tereza de Calcutá faz, etc.
O pai, a cada pergunta, é categórico em responder que sim, todos fazem exatamente aquilo que eles carregam na parte de trás do caminhão limpa fossa: merda.
Pai e filho são os personagens de "Big Jato", novo romance do escritor e jornalista cearense Xico Sá. Os dois passam os dias a bordo de um velho FNM limpando fossas de uma pequena cidade do Vale do Cariri no início da década de 70.
O pai se orgulha de ganhar a vida com aquilo que as pessoas torcem o nariz, de suar a camisa e chegar em casa no final do dia com a satisfação do dever cumprido. O garoto vive a contradição de admirar o orgulho do pai e ser humilhado pelos colegas de escola.
"Big Jato" segue a principal característica dos textos e crônicas de Xico Sá, o uso do bom humor através de uma visão tragicômica. A diferença é que o autor avança no aprimoramento da narrativa, deixa de lado os experimentalismos e lapida sua dicção particular.
Normalmente chamado de Velho do Big Jato, o pai é desenhado como um personagem pícaro que luta contra tudo e todos para viver um mundo que considera o único. A esposa o trata como um fedido, os filhos sentem vergonha, o irmão o considera um besta e assim por diante. Um dos filhos, o garoto narrador do livro, é o único que abre os olhos para tentar entendê-lo. Uma figura que trafega entre o animal e o humano sem demarcações definidas ao olhar social.
Algumas passagens de "Big Jato" são hilárias, como a que o garoto, na ausência do pai, precisa limpar uma fossa transbordante. Justamente a casa de seu primeiro e grande amor platônico, uma garota que torce o nariz toda vez que passa por ele. O tipo de situação que estava fadada ao absurdo, se transforma numa grande revelação.
Apesar da presença do humor e a figura do pícaro, a obra é uma história sobre o rito de passagem da infância para a juventude, com todas as implicações possíveis. E sobre o instante decisivo em que a juventude não cabe mais em família, aquele ponto em que o caminho próprio começa a mastigar os tornozelos e inquietar os pensamentos. Aquele instante em que o cair fora se revela como único caminho que faz sentido.
No para-choque do caminhão a frase é clássica: Dirigido por mim, guiado por Deus. O garoto percebe que não é um nem o outro que está escrito no para-choque. Está sentado do lado direito no banco. E o sol fritando os miolos.


Ouvia-se o escarro do velho de longe. Era um de seus modos de provar que estava vivo, de mostrar que se aproximava e principalmente de revelar que sua tolerância já havia sido gasta com a humanidade inteira naquele dia que mal começara. Como é difícil se ajustar dentro de um dia, o velho as vezes pensava. Entro ou não entro. O dia é uma roupa nova mal cortada. O horizonte tem zíper ou botões? As vestes eram maiores que o defunto. A camisa não cobre o braço, calça pega-marreco. Indumentária de quem vai fazer exame de fezes ou vai para um casamento. Todo orgulhoso da merda. O dia é tudo isso, jogava no ventilador o abençoado sopro do Criador, a aragem divina. Para entrar num dia, pensava e pensava, é preciso amolar os sonhos na mesma pedra azul que afina as lâminas das facas e das foices. O dia não é uma página. O dia não é sequer um diário. Quando a gente consegue enfiar a primeira perna dentro, ele já vai tarde. Um dia é para répteis calangos e camaleões. Para quem muda de cor. Talvez seja mais adequado mesmo para quem rasteja sem horizonte a vista. (Fragmento de "Big Jato", de Xico Sá)
Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Para-choque de avião
SERVIÇO - "Big Jato" Autor – Xico Sá Editora – Companhia das Letras Páginas – 184 Quanto – R$ 33
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