LEITURA - Papel, caneta, envelope e selo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Você se lembra da última vez que escreveu uma carta de próprio punho e a colocou no correio? Você se lembra quando recebeu, pela última vez, uma carta pelas mãos do carteiro (não vale boleto bancário, mala direta, propaganda, folheto, cobrança e outras pragas)? Você se lembra de quando a molecada se divertia colecionando selos? Você se lembra de algo chamado arte postal?
Parece que essas lembranças estão ficando cada vez mais no passado. Com as novas formas virtuais de comunicação (e-mail, msn, facebook, twitter, skype, whatsapp, etc, etc.), tudo indica que papel, caneta, envelope, selo e carteiro não estão mais presentes da vida das pessoas do século 21.
Considerada por alguns como gênero literário, a troca de correspondência está entrando no território da saudade. Dois livros que acabam de chegar às livrarias apontam nessa direção: "Cartas Extraordinárias", lançado pela editora Companhia das Letras, e "Cartas da Humanidade", lançado pela Geração Editorial. Ambos são compilações de cartas de várias épocas escritas por personalidades das mais variadas áreas.
"Cartas da Humanidade", organizada pelo compositor mineiro Márcio Borges (integrante do Clube da Esquina e parceiro musical de figuras como Milton Nascimento e Lô Borges), procura apresentar um painel da civilização através das cartas. Seguindo sequência cronológica, começa com um texto do lendário Zaratustra escrito por volta do século 6 a.C. e termina com uma carta do documentarista Michel Moore ao presidente George W. Bush. Reúne 191 cartas.
Das cartas destinadas aos deuses gravadas nos sarcófagos dos faraós do Egito Antigo, passando por cartas de gregos e romanos, a compilação de Márcio Borges destaca a correspondência do cristianismo com seus santos, como a carta-testamento de São Francisco e cartas de amor como as trocadas entre frei Abelardo e freira Heloísa no século 10 d.C. Há também cartas de Américo Vespúcio, Dante Alighieri, José de Anchieta, Pero Vaz de Caminha, Galileu Galilei, Machado de Assis, Oscar Wilde, Fernando Pessoa, Franz Kafka, William Faulkner, Getúlio Vargas, Janio Quadros, Che Guevara, Juscelino Kubitschek, Nelson Mandela, Alberto Einstein, entre outros.
"Cartas Extraordinárias", organizado pelo pesquisador norte-americano Shaun Osher, traz 125 cartas acompanhadas de reproduções fac-similar dos originais. O livro é fruto de um projeto maior, o site www.lettersofnote.com criado por Shaun Osher que pode ser descrito como um museu on-line de cartas.
Traz a correspondência de personalidade como Charles Darwin, Scott Fitzgerald, Dostoiévski, Elvis Presley, Dorothy Parker, John Kennedy, Charles Dickens, Mick Jagger, Steve Martin, Emily Dickinson, Louis Armstrong, Nick Cave, Gandhi, Virginia Woolf, entre outros.
A especialidade da obra está na curiosidade das correspondências, coisas como a carta de um gerente de produto das sopas Campbell agradecendo a preferência do artista plástico Andy Warhol e se desculpando por não ter dinheiro para comprar uma de seus quadros. Ou a carta de Fidel Castro, então com 14 anos de idade, pedindo ao presidente dos Estados Unidos uma nota de 10 dólares que nunca viu na vida.
Representando as lendárias cartas ao Papai Noel, está a que uma garotinha enviou para um jornal de grande circulação afirmando que seus amiguinhos estavam dizendo que Papai Noel não existia. O jornal então, no dia seguinte, publicou uma reportagem confirmando a existência do bom velhinho.
A forma das cartas que envolvem papel, caneta, envelope, selo e carteiro podem estar entrando no território da saudade. Sinal dos tempos. Mas a humanidade de seus escritos, pelo que os dois livros indicam, permanecem.
Serviço:
"Cartas da Humanidade"
Compilação e tradução Márcio Borges
Editora Geração Editorial
Páginas 468
Quanto R$ 59
"Cartas Extraordinárias"
Organização - Shaun Osher
Tradução Hildegard Fiest
Editora Companhia das Letras
Páginas 368
Quanto R$ 99,90


