LEITURA - Palavras que matam
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de junho de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A literatura do escritor norte-americano Paul Auster é um lago povoado por grandes cardumes de acasos. Em suas águas, a existência é constantemente formulada e reformulada, desenhada e redesenhada. Correndo todos os riscos prováveis, a identidade individual caminha em busca de si mesma, com sede e com fome.
A cada novo romance, Paul Auster aprimora sua força narrativa. A cada história contada, insere elementos onde a identidade das personagens substitui a linearidade pelo impulso labiríntico. A cada narrativa, a complexidade de conteúdo ganha maior dimensão ao lado a clareza da linguagem.
Isso fica evidente em ''Noite do Oráculo'', novo livro de Auster que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras. Nele, o escritor trabalha com idéia de que as palavras oferecem perigo, que elas podem matar. Mais que isso, que as palavras podem fazer com que o futuro aconteça da maneira como as coisas foram escritas. Visivelmente um de seus melhores romances, o acúmulo das melhores características de sua literatura.
''Noite do Oráculo'' narra a história de um escritor chamado Sidney Orr. Abatido por uma inesperada doença, passa a viver entre a vida. Desenganado pelo médicos, restabelece sua saúde de maneira inesperada e retoma suas relações com a escrita. Para isso compra um caderno onde começa a anotar idéias para um novo romance.
Absorvido pela escrita, dá início à história de um personagem chamado Nick Bowen, um homem ajuizado, bem-sucedido e com um casamento estável. Um belo dia, andando na rua, é quase atingido por uma pedra que se desprende de um edifício. Diante da certeza de que poderia estar morto, decide imediatamente, num impulso do acaso, abandonar tudo e começar uma outra vida a partir do zero.
Enquanto escreve a história de Nick Bowen, Sidney Orr começa a perceber que algumas coisas narradas por ele, de maneira ficcional, passam a acontecer na realidade. Situações que envolvem principalmente sua esposa e seu melhor amigo, dando origem a uma série de dramas e tormentos. Perdendo o controle absoluto da narrativa, o escritor vislumbra a assustadora idéia de que aquilo que ele escreve pode transformar-se em realidade num futuro próximo.
Assim, ''Noite do Oráculo'' comporta duas história paralelas e ao mesmo tempo interligadas de maneira secreta. Uma seria a história de Sidney Orr narrada por Paul Auster, outra seria a de Nick Bowen narrada por Sidney Orr. Um verdadeiro labirinto narrativo construído com extrema acuidade e inteligência.
Em ''Noite do Oráculo'' uma nova imagem é colocada na parece da rica galeria de personagens criados por Auster. Ao lado do cineasta que realiza filmes para não serem assistidos por ninguém (presente em ''O Livro das Ilusões) e do sujeito que tira fotos diariamente de uma mesma esquina, no mesmo horário e ângulo (presente em ''Cortina se Fumaça''), agora aparece um motorista de táxi. Um homem que mantém uma gigantesca biblioteca com listas telefônicas de todas as cidades, de todos os países, de várias décadas. Seu objetivo é tentar perpetuar o nome das pessoas que habitaram o planeta.
Nascido em 1947, Paul Auster estará pela primeira vez no Brasil entre os dias 7 e 11 de julho participando da segunda edição do FLIP Festa Literária Internacional de Parati. Trata-se de autor que merece, com integridade, ser apreciado por um público maior de leitores. Suas histórias deixam claro que ao encararmos atos e sentimentos de maneira imediata, isolados de um contexto maior que pode levar até mesmo anos para se delinear , a vida pode tornar-se um tormento estéril. Melancolicamente estéril.
Serviço:
- Noite do Oráculo, de Paul Auster. Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 232 páginas, R$ 38,50.


