Doença é informação. Pelo menos um tipo de informação que dá origem a uma compreensão impossível de ser percebida em estado saudável. As doenças podem abrir portas que não seriam abertas em outras situações. ''Há um estado saudável que não nos permite compreender tudo.''
Partindo desse argumento, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas em seu novo romance, ''O Mal de Montano'', defende a tese de que a literatura só atinge sua plenitude quando se transforma em doença. Lançado pela Editora Cosac Naify, a obra traz uma das principais características da narrativa de Vila-Matas: a mistura do gênero ficção com o gênero ensaio.
''O Mal de Montano'' é narrado ironicamente por um sujeito abatido pela ''doença da literatura'', uma pesada obsessão pelo universo literário. Todos seus gestos e pensamentos cotidianos são associados a alguma referência literária, obras ou escritores. Nomeada de ''Mal de Montano'', a enfermidade faz com que o doente deixe de fazer uma distinção clara entre ficção e realidade.
No início de sua enfermidade, o narrador, como todo doente, parte em busca da cura. A tentativa consiste em tirar férias, não ler nenhum livro e não preencher nenhuma página com palavras. Nesse processo, percebe que a doença não é algo mal, mas algo bom. A literatura seria uma ''doença'' que ofereceria uma compreensão das coisas que a ''saúde'' da realidade não consegue oferecer.
A estrutura utilizada por Vila-Matas em ''O Mal de Montano'' traz vários traços da literatura experimental. Na primeira parte do romance, aparece a narrativa do personagem principal contando a história de sua doença literária e perspectivas de cura. Na parte seguinte, ele revela que a parte anterior é apenas uma novela que criou numa tentativa de cura. Partindo de referências reais, constrói uma ficção onde, além de expor seus dramas, exemplifica o processo de criação de uma obra.
Ao revelar sua verdadeira identidade, começa escrever um diário pessoal onde procura investigar os escritores que mantiveram, em algum momento da vida, nas mais variadas épocas, um diário íntimo. Para o narrador, nesses diários seria possível encontrar o processo de transformações que esses autores sofrerem ao longo da vida e os sintomas de suas respectivas doenças literárias.
Após as investigações, o narrador se metamorfoseia em outro personagem. Assim, a cada parte de ''O Mal de Montano'', o personagem principal transforma sua narrativa e elementos de sua identidade. Vila-Matas espalha uma série de armadilhas entre realidade e imaginário, entre o ensaio e ficção. Armadilhas que assinalam um caminho narrativo ordenado pela restauração da ''literatura que adoece'' em lugar da enlouquecida ascensão mercantilista da ''literatura que cura''.
Nascido em Barcelona em 1948, Enrique Vila-Matas é um dos nomes de destaque da atual literatura espanhola. Nos últimos anos recebeu alguns dos principais prêmios literários europeus. No Brasil possui outros dois bons livros publicados, ''A Viagem Vertical'' e ''Bartleby e Companhia''. Sua literatura é, invariavelmente, pautada pela crença de que a arte da palavra é um reservatório de água no meio do deserto social contemporâneo.
''O Mal de Montano'' reforça a tese de que o homem, através da literatura, é capaz de inventar a si mesmo. E que a informação presente na doença da literatura não revela a imagem da vida, ou a imagem da morte. Simplesmente ilumina as marcas que a vida e a morte deixam nos homens.

Serviço:
- Livro ''O Mal de Montano'', de Enrique Vila-Matas. Editora Cosac Naify, tradução de Celso Mauro Paciornik, 328 páginas, R$ 49,00.

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