A literatura brasileira possui alguns autores singulares que não se encaixam em nenhum padrão usual. O paulista Nuno Ramos é um deles. Mais conhecido pelo seu trabalho como artista plástico, reconhecido como um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, sua produção literária ainda pouco propagada é uma eterna experimentação conceitual.
Seu novo livro, "Sermões", que acaba de ser lançado pela editora Iluminuras, é mais uma experimentação, uma das principais características de sua literatura. Coloca numa mesma cumbuca, poesia, narrativa poética e prosa poética. Desenvolve uma linguagem que parece uma confluência de seus dois livros anteriores, o volume de contos "Ó", (prêmio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano - 2009), e o volume de poesia "Junco" (prêmio Portugal Telecom Melhor Livro de Poesia – 2011).
"Sermões" é formado por um longo poema narrativo com inserções de prosa poética. Há um enredo totalmente fragmentário que acompanha as divisões da obra ao longo das páginas. O vago e ínfimo enredo não é regido por ordem temporal ou espacial, mas pelas divagações do narrador que procura entender que ele é a partir do próprio ato narrativo.
Na primeira divisão, um professor acadêmico de filosofia fisga uma mulher mais nova em Ouro Preto. O casal faz sexo sob uma cúpula que possui no chão um clássico tapete árabe com estampa de tigres caçando ovelhas e outros animais. Os dois transam sobre o tapete e a estampa se confunde com os corpos no ato sexual. Obscenidades e divagações deslocam o narrador pelo tempo e pelo espaço.
Nas seções seguintes o narrador passa por reminiscências do falecimento da mãe, depois expõe sua estadia num apartamento no centro da cidade de São Paulo, em seguida percorre uma praia do litoral paulista, fazendo sermões em cima de um banco (algo como um banquinho e um sermão). Essa se revela a parte mais frágil do livro, o autor apresenta um conceito e não o desenvolve enquanto texto.
Na sequência, o narrador se isola numa igreja barroca de Ouro Preto. A única coisa que ele consegue pensar com clareza, dentro do lugar, é no órgão sexual feminino. Sua grande epifania é fazer sexo com a igreja em si, transar com o prédio arquitetônico. A seção posterior é uma viagem sobre a morte a partir de dois filmes, "Stalker", de Andrei Tarkóvski, e "A Palavra", de Carl Dreyer.
Na última parte o narrador, numa aula de ioga, encontra uma espécie de síntese do teor sexual que permeia toda a narrativa. A professora de ioga se revela hermafrodita, capaz de fazer sexo consigo mesma, sem as mãos. Capaz de obter satisfação e gozo sem a necessidade de outro corpo, sem precisar da comunhão com outra pessoa.
Nascido em 1960, na cidade de São Paulo, Nuno Ramos estudou filosofia antes de começar a carreira de artista plástico. Com obras expostas em vários países, suas criações são pautadas pela arte conceitual, algumas delas assumem a forma de instalações. Uma de suas obras mais polêmica, a escultura-instalação "Bandeira Branca", exposta na Bienal de São Paulo de 2010, provocou a ira dos defensores dos direitos dos animais por fazer uso de urubus vivos.
"Sermões" se revela uma cumbuca onde tudo cabe. Basta estabelecer argumentos conceituais. Nada mais contemporâneo. Saindo de qualquer padrão narrativo usual, Nuno Ramos faz de cada livro uma experiência da palavra enquanto instrumento de linguagem. E declara que o leitor ideal de sua literatura deve ser um "leitor chato".
Com "Sermões", o sétimo livro do escritor, a impressão que surge é a de que os prêmios literários acabaram superfaturando a literatura criada pelo artista plástico Nuno Ramos. Um vento em várias direções, diferentes formas e intensidades variáveis.

SERVIÇO
"Sermões"
Autor – Nuno Ramos
Editora – Iluminuras
Páginas – 216
Quanto – R$ 48


Nós deixamos amor (foi amor, e há muito tempo) entrar e com ele quase filhos, quase meias e calcinhas na gaveta, quase contas de luz. E sabe o quê? Éramos tão fortes, construtores de lares, arquitetos poderosos erguendo cidades novas, conjuntos habitacionais e rodoanéis, desde nosso colchão até o piso empoeirado do planalto. A pele azul florescente, não feridos, poupados pelo raio e pela sorte, tão completamente ilesos que os antigos xamãs nos deixaram seguir. Dirigíamos filmes para grande público, mudávamos a taxa de desemprego com nossas glândulas mamárias, lançávamos por antenas poderosas mensagens em televisões clandestinas, rádios piratas moravam em nossas amídalas. Trepávamos enquanto isso e ríamos, ela ria, ria de mim o tempo todo, migalhas de sanduíche espalhada no lençol. Um misto de vaca, shopping, bola, cuspe; feita de areia, canção, corda mi do cavaquinho; anã e juíza; uma alínea, um discurso; a constituição brasileira e um pastel de feira: a mãe de vocês era tudo isso. (Fragmento de "Sermões", de Nuno Ramos)
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