Basta colocar a paixão e a tragédia próximas uma da outra. Basta uma breve troca de olhares. Basta uma veloz sinapse do coração. Em pouco tempo paixão e tragédia estarão se abraçando, enroscando braços e pernas.
Em seu novo romance, ''Neptuno'', que chega esta semana às livrarias lançado pela editora Record, a escritora gaúcha Leticia Wierzchowski promove a aproximação entre paixão e a tragédia para retratar a destruição. Aquele tipo de contato que dá origem a uma explosão que não apenas aniquila os amantes, mas também desestrutura tudo à sua volta.
A obra narra a história do jovem M. que, ao passar as férias escolares numa pequena cidade litorânea chamada Neptuno, conhece June, uma garota linda, sedutora e misteriosa. Ele, com 19 anos de idade. Ela, com 15. Apesar da diferença de idade, June tem pós-graduação em paixão e perversidade. M., por outro lado, ainda está do jardim da infância em matéria de paixão e sedução. Esse encontro dá origem ao ''milagre primordial'', o amor.
O narrador de ''Neptuno'' é um advogado, amigo do pai de M., que recebe a incumbência de defender o jovem da acusação de assassinato. A história, a morte de June é montada a partir do depoimento de M. e informações caçadas entre testemunhas. O advogado se contagia completamente com o caso por um motivo correlato: ele próprio se recupera de uma paixão de destruiu seu casamento e o distanciou do filho.
Apesar do ''milagre primordial'' experimentado pelos dois jovens amantes, há uma diferença marcante entre eles. O milagre no coração de M. é único. Já no coração de June a história é outra. Ela precisa de vários milagres sucessivamente, conquistar novos e descartar antigos na velocidade de semanas.
Como a partir de um verso do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 - 1986) - ''Só é nosso o que morreu, só é nosso o que perdemos'' -, o jovem cai nas afiadas garras do ciúme. Da pureza do sentimento cai de cabeça no desatino, se atira de braços nos impulsos da loucura com um punhal nas mãos.
Nascida em 1972, em Porto Alegre, Leticia Wierzchowski sempre se destacou por suas histórias narradas a partir do ponto de vista feminino dos acontecimentos. Embora tenha publicado dez romances, sua obra mais conhecida continua sendo ''A Casa das Sete Mulheres'', transformada em minissérie de televisão.
Em ''Neptuno'', Leticia inverte a preferência por esse ponto de vista. A visão da história é apresentada a partir da ótica masculina, seja na figura do narrador (o advogado) ou na figura do enlouquecido pela paixão (o jovem M.). Embora a lógica seja essa, o resultado percorre outro caminho: a grande personagem do romance é June, a precoce mulher fatal.
June é um retrato refeito de Lolita - personagem criado pelo escritor russo Vladimir Nabokov (1899 - 1977). Uma adolescente que entra no universo da sexualidade e da sedução como um furacão. Não um furacão desordenado, mas friamente regido por escolhas egoístas e definida por jogos amorosos. A imagem criada pelo narrador é a de uma sereia, uma pescadora de homens incautos. Uma mulher que possui um oco dentro de si que nunca poderá ser preenchido. A Lolita caçadora, não a Lolita a ser caçada.
A tragédia é que June cruza com um homem que ainda não tem maturidade para ler os jogos amorosos, muito menos os jogos alimentados com as pimentas de perversidade. Um homem que cai no canto da primeira sereia como um patinho. Sem conseguir estabelecer, no jogo, o discernimento entre realidade e fantasia, o sujeito amarra aos próprios pés uma enorme pedra e se joga jogar no mar.
Em ''Neptuno'', Leticia Wierzchowski reforça uma ideia recorrente na literatura contemporânea: a paixão compulsiva não apenas devora os amantes, mas desestrutura tudo a sua volta. O mundo não existe entre os abduzidos pela paixão. O ''eu'' e o ''outro'' tornam-se uma única coisa. E o resto do mundo simplesmente deixa de existir. A bomba do milagre primordial confunde a noção do bem e do mal numa festa de cegos em noite sem lua.
Todo aquele que tiver por perto, as testemunhas, sentirá na carne os estilhados da explosão. A beleza em sua face destrutiva. É só colocar a paixão e a tragédia próximas uma da outra. Basta uma breve troca de olhares. Basta o canto da sereia. Basta estar vivo. Basta estar com sede e próximo do mar.

Serviço:
- ''Neptuno''
Autor - Leticia Wierzchowski
Editora - Record
Páginas - 178
Quanto - R$ 32,90

Fragmento:
Quando M. saiu do mar algum tempo mais tarde. June não estava mais na areia. Tinha ido embora sem dizer adeus, tão inesperadamente como aparecera. Ah! A bela menina travessa! Mas o brilho dos seus olhos, o fogo de sua pele, tudo isso tinha ficado com M. como uma espécie de marca. Ou como um aviso.
Sozinho, ele recolheu seus poucos pertences e abandonou a praia. Algumas crianças brincavam por ali naquela algazarra típica. M. cruzou pelas crianças sem interesse e seguiu em passos lentos rumo ao caminho que levava à saída. Jurava para si mesmo que, na volta, sequer ergueria os olhos para a casa esquisita onde June vivia.
Mas, duas quadras adiante, ele quebrou a promessa. Nós, homens, somos especialistas em quebrar promessas, grandes ou pequenas, isso é um fato. Assim, na frente da ridícula, M. ergueu os olhos. Eu diria que estava até mesmo afoito, que seu coração acelerava-se um pouco. Ele vasculhou a fachada e espiou cada janela; encontrou persianas cerradas, como as pálpebras de uma inocente criança que dorme.
(Fragmento de ''Neptuno'' de Leticia Wierzchowski)

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