O que aconteceria no Brasil se, por acaso, o presidente Getúlio Vargas tivesse apoiado a Alemanha de Adolf Hitler e não os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial?
Essa suposição ficcional, que até poderia ter ocorrido devido as inclinações delirantes de Vargas, está na trama do novo romance do escritor paranaense Miguel Sanches Neto, "A Segunda Pátria".
Lançada pela editora Intrínseca, a obra traz uma história de amor inter-racial impossível num Brasil nazista. Ambientado na região Sul do País no final da década de 1930 e começo da década de 1940, o enredo apresenta imigrantes alemães fundando uma extensão da Alemanha nazista em solo brasileiro com o aval do Estado Novo.
Nesse contexto, a população entra de cabeça no nacionalismo germânico, no culto dos valores nazistas e na ideia de pureza de raça. O próprio Hitler desembarca em Porto Alegre para fechar acordos com Getúlio Vargas. Na versão tropical da eugenia não são os judeus que são dizimados em campos de concentração. São os negros, os mestiços e os indígenas.
No seio desse contexto histórico ficcional, dois personagens principais de "A Segunda Pátria" representam a alma da narrativa. De um lado aparece Ventura, um jovem negro educado pelo patrão alemão de seus pais humildes. Frequentando escolas germânicas, torna-se um engenheiro que deseja ser tipicamente alemão, mesmo sendo um brasileiro de pele negra.
De outro lado aparece Hertha, uma linda jovem filha de imigrantes alemães adepta do Terceiro Reich. Uma moça que chega até visitar a Alemanha como integrante da juventude nazista. Dotada de uma sensualidade acentuada, faz de seu corpo um instrumento de relacionamento com o mundo. E mesmo sendo educada no meio nazista, não consegue fechar os olhos diante das atrocidades e preconceitos.
Esse é o grande jogo desenvolvido por Miguel Sanches Neto. De um lado um brasileiro negro desejando ser alemão. De outro uma alemã desejando ser brasileira. O amor que nasce entre os dois possui toda contradição, todo o improvável, de uma paixão. Um amor que oferece a dimensão da intolerância e suas consequências.
"A Segunda Pátria" possui todas as condições de se tornar o romance mais popular do autor, aquele capaz de atingir um público mais abrangente. O encaminhamento narrativo, a construção das personagens, a percepção sentimental e o enfoque humanitário concedem ao romance uma atmosfera cinematográfica acessível a todo e qualquer leitor.

AMOR COM HITLER
A personagem Hertha se sobressai na narrativa por acumular o caráter dramático da existência. Em um dos episódios, por exemplo, ela é escolhida para dormir com Hitler na estadia do ditador no Brasil. Hertha representa a melhor representação da beleza ariana florescida em solo brasileiro. Em outras palavras, ironicamente, a melhor espécime de vagabunda nazista brasileira de raça pura.
Aquilo que seria uma honra para outras arianas, para Hertha se transforma em um inferno interior. Após cumprir sua função com esmero, começa a ser atormentada com a ideia de que toda atrocidade provocada pelos nazistas é decorrência de sua noite de amor com Hitler. O fato de ter concedido prazer a Hitler, teria contribuído para todas as atrocidades subsequentes. Essa angustia vira sua vida ao avesso.
"A Segunda Pátria" parte de referências históricas para compor uma história de simbólico amor impossível. E, no caso, através de dois personagens secundários de todo o processo histórico representado. Dois atores que se descobrem vítimas não apenas de suas próprias escolhas, mas também vítimas das escolhas coletivas de um contexto histórico assustador.

SERVIÇO
"A Segunda Pátria"
Autor – Miguel Sanches Neto
Editora – Intrínseca
Páginas – 320
Quanto – R$ 34,90

Olhando o desfile, extasiado com o movimento sincrônico dos partidários, o bebê deixou de chorar. Ventura ficou estático na esquina. Se retornasse, seria perseguido ou levaria um tiro. Só se afasta quem está fazendo algo errado. Restava esperar que o pelotão passasse. Contemplou com atenção, uma atenção exagerada, os soldados. E viu que vários deles o olhavam com ódio. Nunca antes sentira que sua figura despertasse tamanha repulsa, embora sempre incomodasse as pessoas por seu porte atlético, pelas suas roupas de qualidade e pela fluência de ideias no melhor alemão. Como um negro pode ter essa postura? Agora o ódio era mais profundo, ia além do despeito pessoal. Era um ódio contra seu filho mestiço. Ao intuir isso, resolveu fazer uma saudação amistosa. Ergueu o braço direito, deixando o filho no braço esquerdo, e disse "Heil Hitler". E o efeito foi o inverso do que imaginava. Não conseguiu desarmar os olhares severos nem obteve o menor sinal de cumprimento. A tropa passou em silêncio, como se ele não existisse. Ventura fixou os olhos nos soldados recebendo com altivez aquele desprezo silencioso. Quase no final do desfile, ele ainda imóvel na esquina, um jovem saiu subitamente da formação, aproximando-se de Ventura, e lhe cuspiu na cara, para logo em seguida gritar: - Suma daqui, negro nojento. Tal como se aproximara, o soldado se distanciou. Ventura não esboçou qualquer reação. O cuspe encatarrado, com forte cheiro de cerveja, tinha atingido o rosto do bebê, que continuava quieto, hipnotizado. (Fragmento de "A Segunda Pátria" de Miguel Sanches Neto)
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