Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Paixão estranha com amor esquisito
| Foto: João Marcondes/ Divulgação
Marcelo Mirisola: autor de 16 livros, entre romances e volumes de contos, é um dos escritores mais provocativos da literatura brasileira contemporânea
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Abismo é abismo. Basta um único dos pés no ar e adeus. A gravidade se encarrega de concluir o próximo passo. Em seu novo romance, "A Vida Não Tem Cura", o escritor Marcelo Mirisola demonstra como a queda pode ser infinita. Pode levar anos e anos sem que o corpo chegue ao final do abismo.
A obra traz uma idílica história de amor adolescente que se transforma num trágico amor sadomasoquista. Flores e espinhos. Beijos e porradas. Simultaneamente, desenha um retrato demolidor de uma geração que, no auge do sonho, cai do cavalo. Uma geração definida como "uma Shangri-lá metida dentro de um biodigestor às avessas, onde entramos cheios de gás, sonhos e rock’n’roll e saímos uns merdas, vivendo de bicos e curtindo sertanejo-tecno-brega."
Guilherme, o narrador de "A Vida Não Tem Cura", conhece a amada Natasha ouvindo as canções de Renato Russo. Juntos, tomam o primeiro porre, fazem sexo pela primeira vez, fumam o primeiro baseado, assistem ao primeiro show da Legião Cover. Fazem juras de amor eterno em volta de fogueiras cantando Legião Urbana noite adentro.
Embalados por "Eduardo e Mônica", o casal aposta em não viver como os próprios pais. Aposta em não cometer os mesmo erros, nem viver os mesmos fracassos. Tudo lindo e maravilhoso como uma canção, mas a aposta não dura muito tempo.
Natasha fica grávida e nasce a pequena Clarinha. Os dois se casam e vão morar num puxadinho na casa da mãe de Guilherme. Ele começa a dar aulas particulares de matemática, ela começa a atuar na contabilidade de uma grande empresa. Em pouco tempo estão vivendo como seus próprios pais e rezando de joelhos pelo "santificado deus da geladeira cheia".
Colocando Marquês de Sade e Nelson Rodrigues no mesmo sofá, Marcelo Mirisola ironiza a geração de 1990. O narrador, Guilherme, em queda livre pelo abismo, resume a questão da seguinte maneira: "Éramos órfãos da calamidade que foram os anos 90. Eu e ela. Um casal de adolescentes esgotados que descobrira um mundo muito mais esgotado e talvez até mais decadente que nosso casamento. O mesmo esgotamento que se abateu em todos nossos amigos e amigas, antes mesmo de nos tornarmos adultos e repetirmos exatamente todos os erros de nossos pais somados aos nossos próprios erros, e fracassos."
Guilherme e Natasha formam o típico casal sadomasoquista. Ele no papel de capacho. Ela limpando sistematicamente os pés no capacho. Uma relação de dominação e humilhação que começa no cotidiano e se prolonga para a sexualidade – e que também se inicia na sexualidade que se prolonga para o cotidiano.
Nesse jogo entre dominado e dominador, Guilherme cai no abismo. A sucessão de quedas que ele experimenta está próxima do hilário. O cara torna-se gordo e alcoólatra. Sofre um deliberado acidente de carro e passa a viver de muletas. Perde a mãe e a casa. É abandonado pela mulher e pela filha. Passa a viver numa casa de prostituição homossexual e por aí afora. E finalmente termina dando depoimentos em cultos de igrejas que pregam a cura gay.
Mesmo transformado num trapo, o sujeito morre de amores por Natasha. Para ele, a jura de amor eterno não pode ser apagada. Para ela, a borracha é a melhor das invenções. Nessa relação pautada por amor de ódio, a paixão torna-se um sol que, mesmo equivocado, todos preferem se agarrar a ele.
Marcelo Mirisola nasceu em 1966, em São Paulo. Autor de 16 livros, entre romances e volumes de contos, é um dos escritores mais provocativos da literatura brasileira contemporânea. Em "A Vida Não Tem Cura", mantém a unidade de sua literatura ao desestruturar princípios ideológicos do senso comum e tratar com sarcasmo a sexualidade considerada pós-moderninha.
"A Vida Não Tem Cura" narra uma história de paixão estranha com amor esquisito. Uma farsa em processo de compreensão. Os ideais dos jovens podem ser uma farsa ainda não compreendida. Assim como os ideais dos adultos podem ser uma farsa devidamente assimilada.

Serviço:
A Vida Não Tem Cura
Autor – Marcelo Mirisola
Editora - 34
Páginas – 88
Quanto – R$ 35

No começo eu fazia qualquer coisa, mesmo a contragosto, para servir aos fetiches de Natasha. Depois passei a gostar. Mas aí, em vez de Natasha desfrutar da situação que ela mesmo criara, usava aquilo contra mim – contra nosso casamento. Na lógica de Natasha, talvez, eu não devesse cair em suas armadilhas. Eu me entregava, sim. Porque a amava. Ela devia avaliar a entrega, o emprenho e o meu amor como testemunhos de minha fraqueza moral. Claro que eu curtia as maluquices dela, mas também havia aquela história (pelo menos eu acreditava nisso) de não repetir os erros de nossos pais. Para mim era uma postura política. Eu faria qualquer coisa para não ser violento. Até mesmo deixar Luigi ser violento comigo – quando ela assim exigia. Porque talvez Luigi tenha sido o cara mais amável e carinhoso que conheci em toda a minha vida. Natasha acabou com ele. (Fragmento de "A Vida Não Tem Cura", de Marcelo Mirisola)
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