Quando o casamento deixa de ser um mar de rosas para se tornar um vale de espinhos, homem e mulher se transformam em gato e rato. O espaço antes ocupado pelo amor passa a ser invadido pela insatisfação e pelo ódio. Nesse processo, a deterioração da relação torna-se um show particular. Em alguns casos, um verdadeiro circo.
No romance ''Vida Conjugal'', Sergio Pitol coloca essa degradação no centro do picadeiro. O escritor mexicano narra a história de um casamento em deterioração com a ironia de quem se diverte vendo o circo pegar fogo. Uma história onde a falsidade veste as roupas da crueldade e transforma em hipocrisia tanto rosas como espinhos.
''Vida Conjugal'' narra a relação entre Jacqueline e Nicolás. Provindos de famílias humildes, se conhecem na faculdade e, impulsionados pela paixão, acabam se casando. Com a união, ambos abandonam os estudos. Jaqueline se torna uma dona de casa com aspirações intelectuais, Nicolas um empresário trambiqueiro do ramo turístico, ambos unidos pela ambição.
Em pouco tempo a relação vira uma meleca exemplar, mas nenhum dos dois leva em consideração a possibilidade de separação graças às vantagens escusas que cada um obtém da união. Cansada de ver o marido dormir com suas funcionárias, Jacqueline decide também pular cercas, muros, alambrados, janelas e tudo aquilo que aparecer pela frente.
Jacqueline descola uma coleção de amantes não apenas para o prazer sexual, mas pelo prazer da vingança. Com cada amante, cria um plano para assassinar o marido. Uma espécie de junção entre o útil e o agradável: além de ficar livre de Nicolás, colocar a mão em sua grana. O problema é que, embora planeje a morte do marido nos mínimos detalhes com a ajuda dos amantes, as tentativas sempre terminam em fracasso. Quem sempre leva a pior nessas tentativas não é Nicolas, mas Jacqueline. A velha história do tiro pela culatra, mesmo assim, ela nunca desiste de sua obsessão.
Aquilo que num primeiro momento aparece sob a forma de ódio e crueldade, no decorrer da narrativa converte-se em hilário. Sergio Pitol ironiza meio mundo, até mesmo as características das novelas mexicanas: ascensão social, infidelidade, ingenuidade, esperteza, sofrimento, inveja, riqueza, poder, ganância, falsidade, vingança e muito mais. Realiza uma espécie de paródia ao avesso das novelas mexicanas onde nada permanece em pé, nem lágrimas, nem risos.
Lançado pela editora Companhia das Letras, ''Vida Conjugal'' é o segundo romance de Sergio Pitol publicado no Brasil. O primeiro, ''O Desfile do Amor'', foi lançado pela editora Mandarim em 2000. Um dos principais nomes da literatura mexicana foi agraciado com os dois principais prêmios de língua espanhola. Recebeu o Juan Rulfo em 1999 e o Cervantes em 2005 pelo conjunto da obra.
Nascido em 1933, teve uma infância insólita. Perdeu a mãe, o pai e a irmã mais velha quando era pequeno. Criado pelas tias, permaneceu dos 6 aos 12 anos confinado numa cama abatido pela malária. Formado em Direito, seguiu a carreira diplomática residindo em vários países. Paralelamente às atividades de diplomata, se dedicou à literatura atuando tanto com escritor como tradutor. Sergio Pitol nunca se casou. Vive na companhia de cinco cachorros.
''Vida Conjugal'' é um romance que relembra a ideia de que não é apenas o amor que une as pessoas. O ódio também. Há aqueles casais que estão juntos porque se amam e aqueles casais que estão juntos porque se odeiam. O eterno paradoxo. Nesse sentido, Jacqueline é a protagonista exemplar, deseja ficar ao lado do marido para odiá-lo todo santo dia. A eterna vingança.

SERVIÇO
- Vida Conjugal
Autor - Sergio Pitol
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Bernardo Ajzenberg
Quanto - R$ 32 (pág. 110)

Fragmento:
''Era impossível ouvir o que conversavam. A maneira como ele se comportava e os gestos que fazia lembravam os de um pai chamando a atenção e tentando ao mesmo tempo acalmar uma garotinha caprichosa. Jacqueline mal respirava. Mal conseguia abrir um dos olhos; sua pálpebra, caída, trazia uma coloração arroxeada e sanguinolenta que levava a pensar que essa mulher não devia ter saído de casa nesse dia. Os lábios estavam horrivelmente inchados. Quase não retrucava as palavras do marido, limitando-se a erguer os ombros com desdém e a negar alguma coisa com movimentos pesados da cabeça. Comemoravam mais um aniversário de casamento.''
(Fragmento de ''Vida Conjugal'' de Sergio Pitol)

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