LEITURA - Paixão aos 70
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Quando a paixão caminha pelas ruas em busca de corações incautos, geralmente prefere os corpos jovens. Invade mentes e corpos, provoca incêndios, tumultos e explosões. Bagunça toda a redondeza.
O que aconteceria se, por acaso, a paixão resolvesse não invadir corpos jovens, mas corpos idosos? Haveria incêndios? Tumultos? Explosões? Bagunça por toda parte?
Em seu novo romance, "Amor em Dois Tempos", a psicanalista e escritora carioca Livia Garcia-Roza procura responder essas perguntas. Retrata o nascimento de uma inesperada paixão na velhice, um assunto pouco usual dentro da literatura brasileira.
A narradora, Vívian, é uma mulher próxima dos 70 anos que acaba de perder o marido, com quem foi casada ao longo de cinco décadas. Sua missão de viúva é levar as cinzas do marido para a cidade Salvador, terra natal do falecido.
Vívian segue para Salvador na companhia de Hilda, sua melhor amiga. Misturando luto e turismo, as duas passam os dias passeando pelos pontos turísticos da capital baiana procurando um lugar adequado para depositar as cinzas do finado.
Num dos passeios cruzam com Laurinho, amigo de infância que Vívian não vê há mais de 50 anos. Na verdade os dois viveram algo mais do que uma amizade na infância, viveram juntos a primeira paixão platônica do início da adolescência. Nunca mais se viram, cada um seguiu um caminho diferente.
Assim, embora tudo aponte para o contrário (ela uma viúva fresca, ele um esposo próximo das bodas de ouro), a paixão invade seus corpos. A vida de ambos entra pela tempestade, provoca breves incêndios e pequenas explosões.
Paralelamente ao florescimento da paixão, Vívian ocupa seu tempo com outras duas coisas: ficar preocupada com o filho que vive fora do país e irritada com a melhor amiga, Hilda. Parte da narrativa se perde entre essa preocupação e essa irritação sem chegar a lugar nenhum. Não dá origem a nenhum sentido mais abrangente, morre em si mesmo.
"Amor em Dois Tempos" possui uma característica curiosa: grande parte do romance é formada por conversas telefônicas. Em quase todas as páginas há alguém telefonando, recebendo chamadas, telefones tocando, mensagem de voz chegando, etc., etc. O leitor pode ficar irritado com a quantidade de interferências telefônicas dentro da narrativa que não levam a lugar algum. E tudo indica que a intenção de Livia Garcia-Roza não foi reproduzir o mundo atual do império dos celulares.
Em meio ao tumulto da paixão, os amantes se deparam com uma questão inerente à paixão: sexo. Vívian tem pressão alta e osteoporose. Laurinho tem problemas cardíacos. Na condição de saúde de ambos, o sexo pode representar um risco de vida. E para resolver o impasse, o humor entra como elemento apaziguador.
"Amor em Dois Tempos" traz a história de uma paixão aos 70 exclusivamente a partir da ótica feminina. Há boas doses de esperança, otimismo, mel e açúcar. Mas também há algumas pitadas de ousadia.
Autora de romances como "Solo Feminino", "Meu Marido" e "Milamor", Livia Garcia-Roza também publicou três volumes de contos, "Restou o Cão", "A Cara da Mãe" e "Era Outra Vez". Antes de dedicar à literatura, atuou como psicanalista ao longo de 30 anos.
Serviço:
"Amor em Dois Tempos"
Autor Livia Garcia-Roza
Editora Companhia das Letras
Páginas 200
Quanto R$ 39,50 e R$ 27,50 (e-book)
Fragmento:
No momento de nos despedirmos, senti que alguma coisa iria acontecer. E aconteceu. Na porta de casa, ao nos abraçamos, e Laurinho colar seu corpo ao meu, percebi sua respiração ficar pesada, sua expressão se modificar bruscamente. Jamais imaginei que ainda era capaz de deixar um homem naquele estado. Então, sem me dar conta, assumi um comportamento coquete, cheio de trejeitos de outrora. Ridícula, sem dúvida. "Coquete" é uma expressão antiga, como tantas que ainda uso, e designa uma mulher que gosta de despertar a admiração de um homem apenas pelo prazer de seduzir. Conrado e eu não tínhamos relação sexual havia muitos anos e nem tocávamos no assunto. A verdade é que o sexo foi banido de nossa vida e de nossas conversas. Caíra em exercícios findos, tornando-se um tabu. Como antigamente. Dura repressão imposta por Conrado, sobre o qual ele não aceitava dialogar. Concordei com essa morte. Até reencontrar Laurinho e o assunto renascer.
(Fragmento de "Amor em Dois Tempos", de Livia Garcia-Roza)


