LEITURA - Pais são apenas homens que tiveram filhos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de março de 2012
Marcos Losnak <br> <br> Especial para a Folha2 
Vamos imaginar que seu pai morreu. Devidamente enterrado ou cremado. Alguns dias depois, a figura aparece em forma de fantasma e diz que na verdade não morreu de causas naturais. Foi devidamente assassinado por seu tio, o irmão mais velho de seu pai. Você não acredita na história até seu tio se casar rapidamente com a viúva, sua mãe, e começar a mandar na casa como um déspota.
Resumidamente, essa é a história de ''Hamlet'', uma das clássicas peças escritas por William Shakespeare por volta de 1599. Mas tem mais, a parte mais interessante que dá sentido a tudo: o fantasma de seu pai exige de você vingança. Vingança de sangue. E entrega em suas mãos a missão de matar seu tio.
Agora imagine alguém vivendo essa situação com 11 anos de idade. E nos dias atuais. Foi exatamente isso que o escritor inglês Matt Haig fez em ''Sociedade dos Pais Mortos'', romance lançado pela editora Record. Tudo acompanhado de um despudorado humor negro.
O livro narra o drama de Hamlet do ponto de vista de Philip, um garoto de 11 anos de idade que acaba de voltar do enterro do pai, dono de um bar, que morreu num acidente de carro. No mesmo dia recebe a visita do fantasma do pai dizendo que não foi um mero acidente. O irmão mais velho, mecânico de automóveis, teria sabotado o carro para assassiná-lo. O objetivo do assassino seria casar-se com a viúva e tomar conta do boteco.
Segundo o pai, seu destino será vagar como fantasma pela terra enquanto o assassino não for morto. E essa missão cabe ao filho, um garoto de 11 anos de idade. De acordo o fantasma, há um clube de pais assassinados aguardando por vingança, por vendeta, uma organização intitulada Sociedade dos Pais Mortos. Um grupo de fantasmas que se reúne ao lado das lixeiras de lixo reciclável do estacionamento de um supermercado.
Perdido e confuso, a vida de Philip se torna um tormento entre salvar a alma do pai, e para isso cometer um assassinato, e seguir a vida comum de um garoto. O hilário, e ao mesmo tempo trágico, é que todos os planos propostos pelo fantasma para a morte do irmão são absurdos e bizarros, todos fadados ao fracasso. O menino segue as coordenadas do pai e só se dá mal. Ele entra numa enrascada após outra, tornando as coisas só difíceis para o seu lado.
Para se dedicar apenas à vingança, o pai fantasma coloca o filho nas situações mais vexatórias. Exige dele até mesmo que dê o fora em sua primeira namoradinha para se dedicar ao assassinato sem distrações. Tudo aquilo que Philip não faria por suas próprias ideias, passa a fazer pelas ideias do pai. Até mesmo quando finalmente ele consegue provocar um incêndio, quem morre não é o tio, apenas um funcionário da oficina mecânica que, por acaso, é o pai de sua namoradinha. Só atrapalhadas irônicas e trágicas, uma após outra.
A lendária frase de Hamlet ''ser ou não ser, eis a questão'', aparece no romance de Matt Haig numa situação hilária. O garoto está devidamente sentado na privada, com o papel higiênico nas mãos. Todo confuso e melado, Philip entra em contato com a filosofia.
Há duas surpresas em ''Sociedade dos Pais Mortos''. A primeira estaria em tratar a vingança como um jogo de interesses, não como um princípio moral. Os interesses do pai não levam em consideração os interesses do filho, nem seu direito de escolhas. A segunda estaria justamente na capacidade do filho conseguir realizar escolhas que não passam pelas escolhas de seu pai. O rompimento de um ciclo de imposições.
As máscaras sociais, na relação entre pai e filho, simplesmente despencam nessa abordagem. O pai fantasma exige do filho o oposto que sempre pregou. Exige vingança, sangue derramado. Pede que o filho mate em seu nome para conseguir sua liberdade e, ao mesmo tempo, não tem nenhum pudor em deixar para o filho como herança o peso de um crime e o tormento mental pelas consequências. O toque, apesar de todo humor e ironia, é claro: os pais não pensam muito na consequência que os filhos sofrem para satisfazer o desejo dos próprios pais. Vivos ou mortos. A vingança não cai sobre o inimigo, mas sobre a fidelidade amorosa do filho. As aparências enganam.
O garoto mata toda a charada numa frase perdida no meio do romance: ''Os pais são apenas homens que tiveram bebês''.
Serviço:
- Sociedade dos Pais Mortos
Autor - Matt Haig
Editora - Record
Tradução - Christian Schwartz
Páginas - 384
Quanto - R$ 43
Fragmento:
De manhã eu estava sentado na privada. Já tinha feito e me limpado mas não queria sair dali. Fiquei sentado olhando a poeira na luz formar um universo com estrelas e planetas e sóis dourados. Sentei olhando pro Espaço não sei por quanto tempo sem saber o que fazer e aí depois de uns minutos o Fantasma do meu pai atravessou a porta trancada. Ele olhou pra mim por um tempo e não disse nada. Depois de um tempinho ele falou Ser ou não ser, eis a questão, Philip.
Eu disse Como assim? E os passos pesados do Tio Alan passaram pela porta.
O Fantasma do Papai disse Você precisa acabar com isso, filho. Isso precisa acabar.
Eu falei Mas
Mas foi só o que eu falei porque ele apagou. Fiquei lá mais um pouco ainda sem dar descarga e sentindo o cheiro do meu cocô e pensando sobre o que o Fantasma do Papai tinha dito e o que ele queria que eu matasse o Tio Alan o quanto antes e nem esperasse até o aniversário dele.
(Fragmento de ''Sociedade dos Pais Mortos'' de Matt Haig)


