leitura - Otimismo cauteloso
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de agosto de 2005
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
O destino pode ser uma velhinha andando pela rua de manhã, arrastando um carrinho de feira vazio, a caminho das compras. O destino também pode ser a mesma velhinha, arrastando o carrinho de feira cheio, voltando das compras.
As compras que recheiam o carrinho, podem ser justamente as histórias que o destino é capaz de contar. E só a velhinha é capaz de dizer porque optou por esse ou aquele legume, essa ou aquela verdura. Só ela é capaz de admitir que realizou escolhas completamente ao acaso, sem razões claras.
Em seu novo romance, Desvarios no Brooklyn, o escritor norte-americano Paul Auster resolveu vasculhar o carrinho de feira do destino e desembrulhar cada história. O carrinho escolhido foi de um personagem chamado Nathan Glass.
Aos 59 anos de idade, Nathan assiste sua vida dar uma reviravolta de um dia para outro. Ao mesmo tempo em que se aposenta como corretor de seguros, divorcia-se da mulher com quem foi casado durante décadas, retira um tumor cancerígeno do pulmão sem nunca ter colocado um cigarro na boca e, para completar, rompe as relações com a única filha.
Assumindo seu fracassado diante da vida, Nathan resolve morar solitariamente no lugar onde passou a infância, no bairro de Brooklyn, em Nova York. Para preencher o tempo, decide escrever um livro intitulado O Livro dos Desvarios Humanos. Nele seria reunido todos as situações engraçadas, idiotas e absurdas que viveu, presenciou ou ouvir falar.
Numa de suas andanças pelo bairro, encontra Tom, um sobrinho desaparecido há muito tempo. Na família, Tom era considerado o garoto que tinha mais chance de ter sucesso na vida, inteligente e aplicado. Mas, ao passar dos anos, acabou por desistir da carreira acadêmica por desencanto. Sem perspectiva, passou e trabalhar como motorista de táxi e, na seqüência, como balconista de uma loja de livros usados.
Desse encontro entre tio e sobrinho, entre um jovem e um velho, ambos atolados na ausência de perspectivas, conscientes do fracasso, surgem uma série de histórias que apenas o destino é capaz de narrar. Dezenas de personagens vão aparecendo, carregados de histórias verossímeis, inundadas de humanidade, vestidas de dores e alegrias, desejos e frustrações, amor e ódio.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, Desvario no Brooklyn apresenta uma série de histórias de homens e mulheres em continuidade, uma sobre as outras e, ao mesmo tempo, seqüenciais recurso que confere vitalidade à narrativa. Se por um lado Paul Auster não trabalha com uma estrutura intrincada, como aquela encontrada em alguns de seus livros anteriores, por outro, apresenta sua obra mais otimista.
Mesmo utilizando instrumentos do otimismo cauteloso, Auster desenha a vida comum com alguma possibilidade de partículas de plenitude. Coloca nas mãos de Nathan, justamente o personagem que abre mão de tudo, que assume seu fracasso, o papel de pólo aglutinador de outras pessoas igualmente marcadas por alguma falta de perspectiva. Pessoas que não desejam trocar o fracasso pelo sucesso, mas trocar o fracasso pela vida, a mais simples e verdadeira possível.
Entre as idéias apresentada por Auster, está a da construção do Hotel Existência. Um lugar utópico onde os moradores criam o local onde desejam viver, longe da atual sociedade sufocante. Um lugar onde as pessoas possam ser elas mesmas, com honestidade diante da vida. Um lugar utópico, aparentemente viável apenas na imaginação.
Paralelo a essa idéia, Desvarios no Brooklyn sugere, no decorrer de suas páginas, que esse lugar utópico está devidamente diluído ao longo da existência das pessoas. Em algum momento do dia, em algumas conversas, em leves toques, em pequenas ações e até mesmo em simples idiotices.


