LEITURA - Ossos de uma tragédia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
No Coração do Mar", filme do cineasta Ron Howard que entrou em exibição nacional dias atrás, tem deixado muita gente impressionada. Narra a história de caçadores de baleia do inicio do século 19 que sofrem um naufrágio no meio do oceano Pacífico. As origens e as consequências do naufrágio não possuem nada de aventura. Tudo se resume a uma tragédia de revirar o estômago.
Mais impressionante que o filme, é o livro do escritor historiador norte-americano Nathaniel Philbrick no qual ele foi baseado. Publicado no Brasil quinze anos atrás pela CompanhiaA das Letras, "No Coração do Mar" acaba de ser reeditado pela editora. A obra não possui uma gota de ficção, está toda fundamentada nos fatos reais registrados em diários e documentos do naufrágio.
O episódio, ocorrido em 1820, deu origem a um amplo leque de relatos folhetinescos na época e serviu de inspiração para o escritor norte-americano Herman Melville (1819 1891) criar o clássico "Moby Dick".
Nos dias de hoje, "Moby Dick" é considerado um dos pilares da formação do romance na literatura norte-americana, mas quando publicado originalmente em 1851, amargou um fracasso semelhante ao dos náufragos abatidos pela grande baleia branca.
O mérito do livro de Nathaniel Philbrick não está em apenas narrar os acontecimentos em detalhes do ataque da baleia e a dolorosa jornada dos náufragos que culminou em canibalismo. Está em apresentar as técnicas da caça de baleia e os elementos da economia do óleo de baleia. Vale assinalar que o óleo de baleia representava, no século 19, o que o petróleo representou no século 20. Retirava-se das baleias (especialmente as cachalotes), apenas a gordura, que era derretida e convertida em óleo. Todo o resto do corpo do mamífero era abandonado para apodrecer no mar.
Os grandes responsáveis pelo domínio da indústria do óleo de baleia eram os quakers que habitavam a ilha de Nantucket, situada no litoral norte do Atlântico dos Estados Unidos. Os quakers, tanto no campo religioso quanto na conduta social, eram o grupo mais pacifista da América. Eram fiéis praticantes da não-violência. Praticantes de uma vida austera, sem nenhuma forma de ostentação material, foram os primeiros a defenderem o fim da escravidão dos negros. E curiosamente eram os mais determinados e eficientes matadores de baleias do século 19.
Em "No Coração do Mar", Nathaniel Philbrick narra toda a trajetória do navio baleeiro Essex, que parte do porto de Nantucket, desce todo o Atlântico, contorna a América do Sul e segue pelo Pacífico. Um tipo de viagem que levava de dois a três anos. Os navios só retornavam a Nantucket quanto estivessem com os porões abarrotados de óleo de baleia.
Transformar uma baleia em barris de óleo em alto mar não era uma tarefa fácil. Os marinheiros tinham a missão de conseguir arpoar a baleia a poucos metros de distância em pequenos barcos a remo em mar aberto. Após arpoá-las, tinham que matá-la na porrada. Em seguida era necessário arrastar o corpo do bicho até próximo do navio, onde as camadas de gordura eram fatiadas e transportadas ao convés, onde era derretida em panelas gigantes e armazenada em barris. Um trabalho selvagem, pesado e perigoso realizado por homens entre 14 e 24 anos.
Quando estava no meio do Pacífico, o navio Essex foi abatido por uma baleia raivosa que se rebela contra a matança. O bicho literalmente afunda o navio com cabeçadas e faz com que toda a tripulação se abrigue em pequenos barcos, onde permanece à deriva ao longo de três meses sem água nem comida. Para sobreviver, precisam fazer de tudo, até comerem uns aos outros numa constrangedora prática de canibalismo.
O relato histórico de Nathaniel Philbrick, não fica restrito aos episódios em si, mas segue a história dos sobreviventes, que nunca mais tiveram a oportunidade de viverem a vida como antes. O trauma físico-psicológico, bem como a reação das pessoas diante dos fatos, alterou tudo. Os sobreviventes se alimentaram dos companheiros mais fracos.
"No Coração do Mar" se revela uma obra sobre a capacidade de resistência do ser humano diante das piores dificuldades. Mas também é um relato histórico sobre como o trabalho e a economia pode levar os homens a imbecilidades inacreditáveis sob a falácia do empreendedorismo.
A eficiência dos caçadores de baleia do século 19 foi tão empreendedora que quase culminou na quase extinção dos cachalotes. E na extinção de várias espécies de tartarugas gigantes das ilhas da região de Galápagos. Isso porque todo baleeiro que passava pela região colocava a bordo centenas de tartarugas para alimentar a tripulação. As tartarugas, nos navios, sobreviviam por quase um ano sem beber nem comer para fornecer carne fresca aos marinheiros.
"No Coração do Mar" comporta múltiplas leituras. Relato de aventura é a mais equivocada. Relato de uma tragédia é mais a apropriada. Talvez, o principal elemento está em vislumbrar como a economia faz os homens fingirem aquilo que não são, mas aquilo que parece necessário.

Serviço:
"No Coração do Mar"
Autor Nathaniel Philbrick
Editora Companhia das Letras
Tradução Rubens Figueiredo
Páginas 374
Quanto R$ 59,90
Sob o olhar atento do capitão, o timoneiro conduziu o navio o mais próximo possível da embarcação perdida. Muito embora o impulso do navio os tenha feito passar ligeiro pelo bote, os poucos segundos em que o baleeiro assomou acima do bote abandonado apresentavam uma imagem que permaneceria na memória da tripulação pelo resto de suas vidas.
Primeiro, viram ossos ossos humanos espalhados pelas bancadas e pelo chão, como se a baleeira fosse a toca, em alto mar, de alguma fera devoradora de homens. Em seguida viram os dois homens. Estavam encolhidos nas extremidades opostas do barco, a pele coberta de chagas, os olhos salientes nas cavidades de seus rostos descarnados, a barba convertida em uma pasta pelo sol e pelo sangue. Chupavam o tutano dos ossos dos companheiros de bordo mortos.
Em vez de cumprimentar seus salvadores com sorrisos de alívio, os sobreviventes delirantes demais para falar, em virtude da sede e da fome se mostravam desorientados e até assustados. Precavidos, agarravam os ossos lascados e roídos com um ardor desesperado, quase selvagem, recusando-se a abrir mão deles, como dois cães famintos no fundo de um fosso de uma armadilha.
Mais tarde, depois que os sobreviventes receberam água e comida e por fim abandonaram os ossos , um deles encontrou forças para contar a história. Era o relato feito dos piores pesadelos de um baleeiro: estar em um bote, distante da terra, sem nada para comer ou beber e talvez, o pior de tudo à mercê de uma baleia com a astúcia e o espírito vingativo de um ser humano.


