Em algumas situações a literatura tem o ímpeto de esticar os braços e tocar coisas ao redor. Quando executa esse gesto, também atinge todas as pessoas próximas, homens e mulheres que estiverem ao alcance de seus dedos. As maiores consequências são invisíveis, se abrigam no interior de cada pessoa até o belo dia em que ganham sentido revelando a nudez do destino.
Assim pode ser descrita a sutil idéia que passeia pelas páginas de ''A História do Amor'', romance da escritora norte-americana Nicole Krauss lançado pela Editora Companhia das Letras. Uma idéia que, ao revelar a possível imagem do destino nu, faz da melancolia um sentido visível apenas dentro de um livro, de uma narrativa.
Em ''A História do Amor'' Nicole Krauss trabalha uma trama repleta de conexões, uma arquitetura narrativa próxima daquela desenvolvida por Paul Auster em suas histórias. Conexões que fazem do passado uma espécie de órgão vital do presente. Um órgão que traz em seu interior marcas de enfermidades que não mais acalentam o desejo de um possível unguento.
O romance é composto por várias vozes. Duas se destacam, a de Leo, um velho aposentado que aguarda a hora da morte, e Alma, uma adolescente que procura entender o mundo adulto que está próxima de fazer parte. Vivendo numa grande cidade americana, suas existências estão intimamente ligadas através de um obscuro livro intitulado ''A História do Amor''.
A história de Leo começa com sua infância judaica na Polônia. No início da adolescência, ele se apaixona por uma garota chamada Alma e ambos juram amor eterno. Quando os nazistas invadem o país durante a Segunda Guerra, ela imigra para os Estados Unidos e Leo se refugia numa floresta. Nesse período escreve um livro dedicado à amada, cuja personagem principal se chama Alma. Com receio de perder o manuscrito, entrega-o a um amigo que está deixando a Polônia.
Anos depois Leo consegue pisar na América para tentar encontrar novamente a amada. Trabalhando como chaveiro, consegue finalmente encontrá-la. Um encontro traumático, pois Alma está cassada e com dois filhos. Isolando-se do mundo, passa a escrever um livro para não ser publicado.
Enquanto isso o amigo fixa residência no Chile e, para seduzir sua futura esposa, como demonstração de amor, escreve um romance em sua homenagem. Publica o livro com o título de ''A História do Amor''. Na realidade não se trata de um romance de sua autoria, mas uma tradução realizada para o espanhol do manuscrito escrito por Leo.
O livro acaba tendo uma única e pequena tiragem, mas acaba sendo encontrado por um jovem israelense num sebo de Buenos Aires. O rapaz se apaixona pelo livro. Quando se casa, coloca na primeira filha o nome de Alma, personagem principal de ''A História do Amor''. Alma, nesse caso, é a adolescente que, através da leitura do livro, tenta saber um pouco sobre o pai falecido.
Ao longo desse enredo central, várias personagens aparecem para ampliar a história e estabelecer novas conexões. Algo que confere um caráter interessante à narrativa de Nicole Krauss. Isso se torna mais visível quando a escritora, nas últimas páginas do romance, uni as pontes existenciais entre Leo, o velho, e Alma, a garota.
Com 32 anos de idade, Nicole Krauss vem sendo cultuada como uma das vozes de destaque da nova geração de ficcionistas norte-americano. O já começou a abraçar suas histórias. O próprio ''A História do Amor'' está sendo filmado pelo diretor Afonso Cuarón, com estréia prevista para o próximo ano. Nicole estará no Brasil em julho, participando como convidada do FLIP (Festa Literária Internacional de Parati) de 2006.
A literatura de Nicole Krauss, mesmo que ainda em formação, flerta com a idéia de que viver uma história não significa ler seu sentido. Somente quando essa história é devidamente narrada é que ela ganha uma leitura, recebe um sentido. No caso de ''A História do Amor'', a literatura é apontada como um instrumento de leitura vagando pelas órbitas dos olhos de seus personagens. Onde a ficção ocupa o menor espaço que a realidade é capaz de ceder, o espaço das palavras.
Serviço:
- Livro ''A História do Amor'' de Nicole Krauss. Editora Companhia das Letras, tradução de Paulo Schiller, 318 páginas, R$ 45,00.

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