Carrego comigo um monte de traumas escolares. Um deles diz respeito às cores. Esse trauma teve início nos primeiros anos de escola, quando estava aprendendo a ler e escrever. Nessa época, começo dos anos 70, uma das atividades semanais em sala de aula era cantar o Hino Nacional e desenhar a bandeira do Brasil.
O problema era que, ao longo dos meses, os lápis e guaches das cores verde, amarelo e azul, simplesmente acabavam. As bandeiras desenhadas consumiam tudo. Quando finalmente chegava a hora de fazer qualquer desenho livremente, era necessário pintar árvore de vermelho, girafa de roxo, céu de marrom, sol de preto e assim por diante.
A bandeira do Brasil devorava meu verde, consumia meu amarelo e engolia meu azul. Era difícil entender o jogo das cores. Se desenhasse um jacaré vermelho num rio rosa sob um céu roxo, a professora achava lindo. Por outro lado, se pintasse a bandeira nacional com laranja, marrom e vinho, ela simplesmente dava uma bronca, rasgava o desenho e exigia que fosse refeito com as cores certas.
Na verdade havia muita coisa por trás episódios como esse, coisas que nenhuma criança da época era capaz de compreender. No início dos anos 70 o país vivia numa pesada ditadura militar e o civismo era um instrumento de controle social. A população assistia um grande desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, presenciava pessoas sendo torturadas e assassinadas pelos corredores do regime.
A história dessa época vem sendo resgata de maneira excepcional pelo jornalista Elio Gaspari. Dedicando-se nos últimos dezoito anos à aventura de apresentar a história da ditadura militar instalada do Brasil através de um golpe em 1964, Gaspari vem criando uma obra sem precedentes. O terceiro volume desse trabalho, ''A Ditadura Derrotada'', chegou às livrarias na semana passada, lançado pela Editora Companhia das Letras.
Dando continuidade aos dois volumes anteriores publicado ano passado, ''A Ditadura Envergonhada'' e ''A Ditadura Escancarada'', esse novo volume centra sua atenção na ascensão do general Ernesto Geisel ao poder, assumindo a presidência da república em 1974 - sucedendo o general Emilio Garrastazú Medici. Além de toda a bibliografia existente, a grande fonte de pesquisa de Gaspari veio de arquivos pessoais de figuras chaves nos episódios, além de diários, documentos e depoimentos diretos dos protagonistas. Essas informações, provindas de dentro do sistema da política, oferecem um painel sem precedentes dos acontecimentos e interesses que os permearam. Algo praticamente inexistente em outras obras do gênero.
''A Ditadura Derrotada'' revela como a dupla Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva comandou a política brasileira num jogo interno onde os possíveis adversários eram calculadamente colocados de escanteio. O ''sacerdote e o feiticeiro'', na definição de Gaspari, formavam um exército de dois homens que detinham o poder político nas mãos, embora divergissem em alguns aspectos de condução do país.
Elio Gaspari retrata com detalhes como Geisel foi eleito presidente da república com um único voto. Medici, ao escolher pessoalmente o ''alemão'' (apelido de Geisel no meio militar) como seu sucessor, organizou uma intrincada manobra para que o congresso efetivasse seu nome numa eleição indireta e evidentemente forjada. Ele representava uma restrita geração de militares que mantinham uma estreita relação com a política ao longo das décadas.
Um dos detalhes de ''A Ditadura Derrotada'' está em demonstrar que Geisel e Golbery embora acreditassem que a repressão, com toda sua violência, era um mal necessário, também tinham a percepção de que algum tipo de abertura era inevitável. Além disso, o ápice do milagre econômico começava a apontar sua decadência, com a recessão mostrando seus primeiros dentes, exigindo novas ações - assunto a ser abordado quarto volume da série.
A obra de Elio Gaspari deixa evidente que o leitor que desejar conhecer com clareza a história da ditadura militar brasileira, com seus porões escuros e suas salas reservadas dos bastidores, precisa percorrer os três volumes publicados até agora. E esperar os dois que completam a obra, previstos para serem lançados no próximo ano.

Serviço:
''A Ditadura Derrotada - O Sacerdote e o Feiticeiro'' de Elio Gaspari, Editora Companhia das Letras, 542 páginas, R$ 49,50.

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