LEITURA - Os mágicos da fome
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de março de 2013
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha2 
Miséria e aventura. Duas coisas que nem sempre se abraçam e dormem juntas aguardando o próximo sol. Nem sempre, mas quando conseguem adormecer unidas, podem render histórias exemplares.
"Trash", romance do escritor inglês Andy Mulligan traz uma dessas histórias onde miséria e aventura atravessam vários sóis. Tendo conquistado milhares de leitores nos 25 países onde já foi publicado, o livro está sendo lançado no Brasil pela editora Cosac Naify. Chega às livrarias a partir da próxima semana.
Pautado pela simplicidade narrativa, "Trash" traz a aventura vivida por três garotos, entre 11 e 13 anos de idade, moradores de um lixão. Orfãos, vivem numa cidade improvisada dentro do próprio lixão. Para sobreviverem, trabalham desde pequenos como garimpeiros do lixo, reunindo materiais recicláveis.
Andy Mulligan não situa o local em nenhuma cidade ou país específico, nomeia apenas como Behala, "a cidade do lixão". A imagem é a mesma de Jardim Gramacho (em Duque de Caxias, Rio de Janeiro) registrada do documentário "Lixo Extraordinário" de autoria do artista plástico Vik Muniz. Ou a mesma de qualquer outro desconcertante aterro sanitário em países da América Latina, África ou Ásia.
O fato é que, um belo dia, revirando o lixo, os garotos Raphael, Gardo e Rato encontram uma bolsa. Dento da bolsa, um punhado de dinheiro, um documento e uma chave. Só a presença do pacote de dinheiro, diante de seus olhos, representa uma possibilidade de mudança, de fim da miséria. Mas a chave e o documento representam mais: um segredo a ser desvelado, uma aventura a ser vivida, um tesouro a ser tocado.
O fato ganha maiores proporções quando, no dia seguinte, a polícia aparece no lixão perguntando se alguém entrou alguma bolsa que, por engano foi parar no lixo. As proporções aumentam quando a polícia oferece uma recompensa e coloca todos os garimpeiros do lugar para encontrar o objeto.
Os garotos, mesmo sob as mais adversas situações, até sob tortura, não abrem o bico. Querem eles próprios desvendar os fatos. Assim entram de cabeça numa aventura labiríntica que envolve elementos que nunca haviam entrado em contato: a corrupção política e o sonho de justiça.
"Trash" é narrado por vários personagens. Além dos três garotos, vários personagens se revezam para oferecer uma parte do relato da história. Mas a visão dos adultos não determina nada, não importa muito. O romance é a vida, e a miséria, na visão juvenil com tudo que ela representa. Incluindo a santa inocência.
O romance de Andy Mulligan, pelo ar juvenil, pode remeter às tradicionais aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn criadas por Mark Twain. Mas numa abordagem contemporânea, onde família e moral adulta ficam de fora. O otimismo bate de frente com a violência do mundo real. E de frente com a miséria.
Entender que Judiciário não significa exatamente justiça faz parte do processo. E diante da impotência de interferência no mundo adulto, Raphael, Gardo e Rato, quando conseguem resolver o mistério e encontrar uma fortuna em dinheiro vivo, não agem como adultos. Agem como lúcidos do absurdo. Mágicos da fome.
Nascido em 1962, Andy Mulligan fez um punhado de coisas antes de se dedicar à literatura. Abandonou a carreira de diretor de teatro para correr o mundo como professor. Atuando em entidades não governamentais, deu aulas em países como Índia, Filipinas, Vietnã e Brasil. Publicou seu livro de estreia em 2009, "Ribblestrop", primeiro volume de uma trilogia voltada ao leitor juvenil.
"Trash" está sendo transformado em filme por Stephen Daldry, diretor de "Billy Elliot", "As Horas" e "O Leitor". As filmagens, ou pelo menos parte delas, devem ocorrer no Brasil durante o segundo semestre de 2013. E as locações não devem ser as praias de Copacabana.
Serviço:
"Trash"
Autor Andy Mulligan
Editora Cosac Naify
Tradução Antônio Xerxenesky
Páginas 224
Quanto R$ 37,00
Fragmento:
As pessoas me falam: "Nunca se sabe o que você pode encontrar mexendo no lixo! Hoje pode ser muito bem meu dia de sorte". Eu respondo: "Camarada, acho que sei muito bem o que vou encontrar". E sei o que todo mundo encontra, pois sei o que nós achamos no lixo durante todo esse tempo em que tenho trabalhado aqui, ou seja, onze anos. É esta única palavra: barro, que nada mais é sem querer ofender do que dejetos humanos. Não quero incomodar ninguém, não estou aqui para isso. Mas há muitas coisas difíceis de encontrar na nossa querida cidade, e uma das coisas que pouquíssimas pessoas têm por aqui são privadas e água corrente. Então, quando alguém sente vontade, fazem em qualquer lugar. A maior parte delas mora dentro de caixas, e as caixas ficam empilhadas na vertical. Ou seja, quando você precisa ir ao banheiro, faz as necessidades num pedaço de papel, enrola e põe no lixo. As sacolas de lixo chegam juntas. Por todos os cantos da cidade, as sacolas de lixo são colocadas em carrinhos, e passam dos carrinhos para os caminhões você ficaria chocado de ver a quantidade de lixo que essa cidade produz. Pilhas e pilhar, e tudo vem parar aqui com a gente. Os caminhões não param nunca, e nós também não. Sempre rastejando e fuçando.
(Fragmento de "Trash" de Andy Mulligan)


