LEITURA - Os labirintos do poder
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de agosto de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A verdade é algo inacessível. Ela exige daquele que a busca uma disposição incomensurável, a dedicação de um servo a dois passos da loucura. O voluntário que empreende tal aventura, mesmo aceitando a morte do juízo, não alcançará a verdade. No mundo em que vivemos ela é inacessível. Apesar de todos os esforços, simplesmente não pode ser alcançada.
Inacessível é a verdade. Essa parecer ser a síntese de ''O Castelo'', romance do escritor tcheco Franz Kafka (1883 - 1924) que está sendo relançado pela Companhia das Letras em edição pocket com a confiável tradução de Modesto Carone. Ao lado de ''O Processo'' (1914) e ''A Metamorfose'' (1912), ''O Castelo'' (1922) integra o sólido tripé do chamado ''universo kafkiano'', que se tornou referência literária nos quatro cantos do mundo. O próprio termo ''kafkiano'' hoje é uma palavra existente em dicionários de diferentes línguas.
Em ''O Castelo'', Kafka apresenta um enredo aparentemente simples com repercussão obsessiva. Um agrimensor chamado ''K'' chega numa aldeia governada por um castelo. Contratado pelo castelo para realizar trabalhos de agrimensura na região, o personagem se vê imerso em algo que não consegue entender.
O castelo é inacessível para K. Sua única forma de contato é realizada através de raros funcionários do castelo. Os habitantes da aldeia são os únicos que podem oferecer alguma informação, todas vagas e banhadas de medo e dissimulação.
Apesar de contratado como agrimensor, recebe a comunicação que o castelo não necessita dos serviços de agrimensor. Sua presença na aldeia torna-se inexplicável, então se empenha numa busca desesperada no sentido de entender o que está acontecendo, em saber a verdade sobre a situação em que está vivendo.
''O Castelo'', em toda sua extensão, pode ser descrito como uma interminável e labiríntica busca. Nada poder ser compreendido, nada pode ser explicado, nada se aproxima da verdade. Kafka sugere que o beco sem saída do homem contemporâneo está muito além do céu ou inferno.
Na interminável procura de K. em compreender, com todos os esforços, a situação em que está inserido, Kafka demonstra como o entendimento é uma utopia a qual as pessoas se agarram, como um procedimento de sobrevivência. O entendimento, como construção mental para explicar os motivos que as mantêm vivas. Ou, pelo menos, o motivo que as mantém ocupadas enquanto aguardam a morte do poder.
Foram raros os textos que Kafka publicou em vida. Quase a totalidade de sua obra foi publicada postumamente, chegaram aos leitores graças a uma promessa não cumprida. Quando foi internado com tuberculose no sanatório de Kierling, na Áustria, o escritor colocou nas mãos do melhor amigo, Max Brod, seu último pedido: dar um fim em tudo que havia escrito. Max jurou que, se ele viesse a morrer no sanatório, queimaria todos seus manuscritos. Pouco tempo depois Kafka faleceu. O amigo não cumpriu a promessa, pelo contrário, violou a palavra dada e publicou todos os textos.
Assim como ''O Processo'', ''O Castelo'' pode ser encarado como um romance sem fim. A diferença entre ambos está no fato de que ''O Castelo'' realmente não possui um fim. Termina literalmente no meio de uma frase, afinal, inacessível é a verdade.
Era tarde da noite quando K. chegou. A aldeia jazia na neve profunda. Da encosta não se via nada, névoa e escuridão a cercavam, nem mesmo o clarão mais fraco indicava o grande castelo. K. permaneceu longo tempo sobre a ponte de madeira que levava da estrada à aldeia e ergueu o olhar para o aparente vazio.
Depois caminhou à procura de um lugar para passar a noite; no albergue as pessoas ainda estavam acordadas, o dono não tinha quartos para alugar mas, extremamente surpreso e perturbado com o hóspede retardatário, propôs deixá-lo dormir sobre um saco de palha na sala e K. concordou. Alguns camponeses ainda estavam sentados tomando cerveja mas ele não queria conversar com ninguém, pegou pessoalmente o saco de palha no sótão e deitou-se perto da estufa.
(Fragmento de O Castelo de Franz Kafka)
SERVIÇO
- O Castelo
Autor - Franz Kafka
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Modesto Carone
Páginas - 368
Quanto - R$ 23,50


