LEITURA - Os labirintos da dúvida
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de janeiro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Um sapato. Um pequeno prego. Um prego no interior do sapato. O pé de homem dentro do sapato. Um homem caminhando pelos corredores da própria mente, arrastando atrás de si uma cidade inteira. Uma cidade em estado de colapso, dividida em precisar escolher entre a liberdade e a idéia de liberdade.
Vários homens podem ter usado esse tipo de sapato, entre eles o escritor russo Fiódor M. Dostoiévski (1821 - 1881). Em suas obras clássicas como ''Crime e Castigo'' e ''Os Irmãos Karamázov'' isso pode ser vislumbrado como uma lua ascendendo ao ápice da noite. Mas um outro escritor, o sul-africano J. M. Coetzee, foi além.
Coetzee, fabricou um outro sapato para Dostoiévski e, de maneira deliberada, colocou um prego ponteagudo dentro. Claro que executou tal feito no campo da ficção, tempos atrás, bem antes de imaginar que seria agraciado com o prêmio Nobel de Literatura de 2003. Fez isso em ''O Mestre de Petersburgo'', romance escrito nos anos 80 que num primeiro momento parecer ser um vôo experimental, mas, em seguida, se revela uma narrativa consciente de sua natureza.
''O Mestre de Petersburgo'', que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, é um mergulho metafórico pelo universo literário de Dostoiévski. Coetzee o transforma no grande personagem do romance, retratando o processo e os tormentos mentais supostamente vivenciados pelo escritor russo a partir do suicídio de um filho.
Refugiado na França devido ao acúmulo de dívidas, Dostoiévski volta para a cidade de Petersburgo em 1869 para acompanhar o funeral de seu jovem filho adotivo que, sem motivos aparentes, se jogou de uma torre. O que seria um simples funeral torna-se um enorme labirinto em que o escritor se vê inserido. Descobre a possibilidade do filho não ter cometido suicídio, mas ter sido morto por pertencer a um movimento revolucionário clandestino.
Encabeçando esse movimento, está o anarquista Serguei Netchaiev, lendário personagem real que, com 22 anos de idade, apavorou a polícia russa com seus métodos radicais de ativismo político e social. Com isso, Coetzee constrói um embate de idéias entre Dostoiévski e Netchaeiv, com cada um defendendo com unhas e dentes seus princípios e suas maneiras de encarar as misérias e as virtudes humanas.
Relembrando a impressão que tinha do filho ao mesmo tempo que recebe novas informações de seu comportamento, Dostoiévski vai construindo uma imagem real do jovem. Uma imagem que não vislumbrava devido ao apego aos próprios interesses de sua mente. Para desenhar essa nova imagem, entra em jogo a viúva que hospedava em sua casa o rapaz e sua filha, uma menina mais esperta que a maioria das crianças. A elas se juntam amigos do filho, que o acompanhavam em suas ações radicais em nome da revolução.
Talvez ''O Mestre de Petersburgo'' não seja o grande romance de Coetzee, mas sem dúvida é um dos mais ousados em termos de estrutura. Apostando na conturbação mental das personagens - recurso semelhante utilizado em outras de suas obras - expõe um retrato do labirinto que o homem é capaz de construir à sua volta sem deixar uma porta de saída assinalada. As divagações do personagem, fruto de seus surtos epilépticos, acelera a atmosfera narrativa onde realidade e delírio comem no mesmo prato.
Mesmo tratando de discussões de temas sociais, Coetzee consegue dar um caráter abrangente à existência, mesmo que ela permaneça sufocada no úmido porão da mente. O amor, por exemplo, é tratado como uma teoria da incerteza. Amar alguém não seria estender um tapete vermelho em sacrifício. Seria não pensar em tapetes, nem qualquer tipo de decoração dissimulada. Tirar a atenção do prego do sapato para deslocá-la em direção ao que parece impossível e improvável. Sentimentos, como sapatos velhos, também devem ser jogados no lixo, da mesma maneira que jogamos coisas velhas e sem uso. O amor seria o ato de usá-los com os dedos da sinceridade. Mesmo que haja confusão e contradição entre cada um dos dedos das mãos.
Serviço:
- ''O Mestre de Petersburgo'' de J. M. Coetzee, Editora Companhia das Letras, tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves, 248 páginas, R$ 34,50.


