Existem livros para madames, livros para pescadores e livros para cozinheiros. Existem livros para professores, açougueiros, políticos e engenheiros. Para médicos, mecânicos e pipoqueiros. Livros para psicólogos, babacas e teólogos.
Também existem livros para os amantes dos livros. Um dos exemplos é ''A Memória Vegetal e Outros Escritos Sobre Bibliofilia'', obra do semiólogo, escritor e professor italiano Umberto Eco que chega esta semana nas livrarias.
Lançado pela editora Record, o volume é uma coletânea de artigos, ensaios e palestras do autor sobre o universo dos bibliófilos, os amantes e colecionadores de livros. Sujeitos que passam longe de qualquer idéia de IPads e Kindles. Aqueles tarados por obras raras, fissurados por volumes antigos e inimigos sanguinários de traças, brocas e cupins.
Dos 20 textos que integram ''A Memória Vegetal'', apenas quatro ou cinco estabelecem comunicação com os amantes comuns dos livros. O restante revela um universo extremamente restrito, onde colecionadores abonados pagam fortunas por obras raras que nunca serão lidas. Um universo onde o fetiche é o poderoso e inebriante lubrificante da engrenagem.
Umberto Eco é um bibliófilo selvagem e, aparentemente, de bom coração. Sua biblioteca particular de obras da Idade Média é formada por 30 mil volumes. Como colecionador, escreve para seus pares, para um seleto e restrito grupo. Como apaixonado pela literatura, escreve para aqueles que mesmo não fazendo parte de qualquer tipo de abonada confraria, simplesmente devotam amor pelos livros. Não tanto pela sua idade e aparência, mas por seu conteúdo.
''A Memória Vegetal'' é uma mistura dessas duas forças. De um lado os leitores interessados no objeto livro, em seus significados através dos séculos, no fetiche de ter nas mãos algo que ninguém possui. Um livro que não precisa ser lido para ser valorizado. Em alguns casos, o milionário valor está justamente em nunca o livro ter sido aberto.
De outro lado, os leitores interessados no conteúdo dos livros, naquilo que o texto é capaz de revelar para a mente e a alma humana. A palavra escrita como suporte da memória, como recorte de subjetividades e registro de experiências de outras leituras. Um meio de produzir interpretações variadas e novos pensamentos.
Uma das leituras evidentes de ''A Memória Vegetal'' é de que o mundo dos bibliófilos é parecido com o mundo das madames, dos pescadores, cozinheiros, professores, açougueiros, políticos, engenheiros, médicos, mecânicos, pipoqueiros, psicólogos, babacas e teólogos. Cada um com seu fetiche de estimação devidamente guardado na gaveta.
Serviço:
- A Memória Vegetal e Outros Escritos Sobre Bibliofilia
Autor - Umberto Eco
Editora - Record
Tradução - Joana Angélica D'Ávila
Quanto - R$ 39,90 (272 págs.)


Como educar-se para escolher? Por exemplo, perguntando-se se o livro que estamos prestes a tomar nas mãos é um daqueles que jogaríamos fora depois de tê-lo lido. Os senhores me dirão que, sem ter lido, não se pode saber. Mas se, depois de ler dois ou três livros, percebermos que não desejamos conservá-los, talvez devamos rever nossos critérios de escolha. Jogar fora um livro depois de lê-lo é como não desejar rever a pessoa com a qual acabamos de ter uma relação sexual. Se isso acontece, tratava-se de uma exigência física, não de amor. No entanto, é preciso conseguir instaurar relações de amor com os livros de nossa vida. Se o conseguimos, significa tratar-se de livros que se expunham a uma ampla interrogação, a tal ponto que a cada releitura nos revelam algo diferente. Trata-se de uma relação de amor, porque é de fato no estado de enamoramento que os apaixonados descobrem com alegria que cada vez é como se fosse a primeira. Quando se descobre que cada vez é como se fosse a segunda, está-se pronto para o divórcio ou, no caso do livro, para a lixeira.
(Fragmento de ''A Memória Vegetal'', de Umberto Eco)

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