Alguns livros são capazes de marcar época. Como se representassem o tempo e o espaço num único ponto da memória de uma época. ''Morangos Mofados'', volume de contos do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu foi um desses livros. Representou novos ares na literatura brasileira. Quando lançado, em 1982, tornou-se uma representação perfeita das inquietações existenciais da primeira metade da década de 80. Fez, literalmente, a cabeça da moçada.
A obra colocou Caio Fernando Abreu (1948 - 1996) entre os grandes nomes de uma nova geração de escritores brasileiros que despontava com a redemocratização do País. Caio poderia ter apostado no sucesso, mas apostou na literatura. Após ''Morangos Mofados'' escreveu ''Triângulo das Águas'', lançado em 1983.
O livro, que reunia três novelas, receberia o prêmio Jabuti de 1984. Muitos leitores caíram de boca na obra esperando uma nova cesta de morangos apodrecidos. Mas não foi o que encontraram. Os textos percorriam um longo e subjetivo corredor intrincado por uma linguagem fragmentada e rebuscada. O peculiar desespero e o tom confessional estavam presentes, mas o fantasma de Clarice Lispector aparecia com maior determinação.
''Triângulo das Águas'' permaneceu um punhado de anos perdido no limbo. Totalmente fora de catálogo, até nos sebos tornou-se uma raridade. Antes de morrer devido às complicações dos vírus HIV em 1996, Caio Fernando Abreu preparou uma versão revisada da obra. Essa versão foi lançada recentemente pela a editora L&PM em formato pocket e pode ser encontrada em livrarias e bancas de jornais.
''Dodecaedro'', texto que abre o livro, é construído a partir de vários fragmentos. São nove vozes apresentando visões próprias de uma mesma situação. Ao longo da narrativa o leitor percebe que nem tudo é o que parece ser. O próprio texto se apresenta como criação de um dos personagens. Trata-se de uma narrativa conceitual onde a narrativa possui a capacidade de gerar realidade ao invés do real impulsionar o ato narrativo.
''O Marinheiro'', segunda novela de ''Triângulo das Águas'', remete à atmosfera dos contos dos primeiros livros de Caio como ''Ovo Apunhalado'' e ''Pedras de Calcutá'' da década de 70. Utilizando elementos do realismo fantástico, o escritor realiza uma alegoria sobre o isolamento humano diante da jornada de reconstrução de si mesmo.
''Pela Noite'', que encerra o volume, é o único texto que segue o padrão usual das formas narrativas. Apresenta o jogo, entre encontros e desencontros, de dois rapazes pela noite gay paulistana. Trata-se de um dos textos mais emblemáticos de temática homossexual dentro da literatura de Caio Fernando Abreu - ao lado de ''Sargento Garcia'', conto que integra ''Morangos Mofados''. Vale lembrar que no início da década de 80, quando as duas histórias foram publicadas, a temática ainda vivia sob as tempestades do preconceito e do conservadorismo moral.
''Pela Noite'', de maneira sutil, desenha um mapa das carências afetivas que permanecem escondidas embaixo do tapete ou devidamente escondidos no fundo das gavetas. O lendário conflito entre sexo e amor é encarado de maneira nua com uma dose de desespero existencial. Se em grande parte de sua literatura Caio deixa a esperança do lado de fora das páginas, nessa história realiza caminho inverso. Insere uma pequena dose de esperança nas últimas linhas. Fatalmente entre acertos e enganos.
Em julho chegou às livrarias a primeira biografia do autor ''Caio Fernando Abreu - O Inventário de um Escritor Irremediável'', lançado pela editora Seoman, foi escrito pela jornalista Jeanne Callegari, uma determinada amante da figura do escritor.

SERVIÇO
- Triângulo das Águas
Autor - Caio Fernando Abreu
Editora - L&PM
Páginas - 230
Quanto - R$ 15,50

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