LEITURA - Os dilemas da amizade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Mais de 20 anos após sua morte, o húngaro Sándor Márai continua um dos escritores mais populares do leste europeu. Seu suicídio, ocorrido em 1989, não impediu que sua obra continuasse sendo apreciada por novos leitores mundo afora.
A editora Companhia das Letras, no próximo mês, estará relançando três de seus romances: ''De Verdade'', ''Divórcio em Buda'' e ''As Brasas''. Com uma conduta baseada numa ética particular, que incluía o isolamento como uma condição de honra, Sádor Márai elegeu a escrita como uma espécie de arma contra o mundo atroz.
Dos três, ''As Brasas'' traz a abordagem mais perturbadora. Discute a honra em três estágios: na amizade, na paixão e na vingança. Fala de sentimentos que grudam de maneira estranha na pele de um homem. E por mais que ele se lave e se escove, não consegue se livrar deles. Sua última saída seria arrancar a própria pele. Mas nem assim seria possível ficar livre de tais sentimentos pois, com o tempo, eles já estariam impregnados em sua mente, em seu espírito.
O romance narra o encontro de dois amigos, Henrik e Konrad, que permanecem mais de 40 anos sem se falarem. Nesse encontro, a história de ambos é revisitada, tanto na origem da amizade como no motivo de sua ruptura.
Os dois se conhecem ainda na infância, nos corredores da escola militar. Uma intensa relação se desenvolve, atravessa a juventude e segue em frente. Tudo vai bem até que um belo dia, durante uma caçada, Henrik tem a impressão de que o amigo aponta a arma em sua direção e está próximo de matá-lo. No dia seguinte, misteriosamente, Konrad desaparece, abandonando tudo.
Tentando entender o acontecido, Henrik descobre fatos ocultos. Por exemplo, que o amigo era amante de sua esposa. Traumatizado, passa a levar uma vida solitária remoendo os acontecimentos em busca de uma definição de honra e de um verdadeiro conceito de amizade. Começa a encarar o destino trágico como uma espécie de obra individual, como se existissem dois tipos de homens: aqueles que abraçam o destino e aqueles que o renegam.
Décadas depois, os dois se encontram. Já estão velhinhos, com mais de 80 anos, e antes de morreram desejam esclarecer o passado. O que seria um duelo de argumentos, onde a verdade seria a coisa mais valiosa, se transforma numa espécie de monólogo onde Henrik expõe tudo que refletiu ao longo dos anos em seu isolamento. Realiza uma radiografia das três pessoas envolvidas no drama - ele, seu amigo e sua esposa. Sua opção não está em permanecer na superfície dos sentimentos, está em percorrer com profundidade os acontecimentos em nome de uma reflexão sobre a honra das paixões, da ética e da amizade.
Sándor Márai apresenta a ideia de que toda verdadeira paixão seria sempre uma paixão sem esperança, caso contrário, não seria paixão. Seria um simples pacto, um acordo sensato, uma troca de interesses banais. Nesse sentido, a amizade deixa de ser uma simples relação humana para se tornar algo maior, algo como um ato heróico.
Serviço
- As Brasas
Autor - Sándor Márai
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Rosa Freire d'Aguiar
Imagina-se que a amizade é um serviço que se presta. Mas o amigo, assim como o apaixonado, não deve esperar uma recompensa para seus sentimentos. Não tem que exigir contrapartidas por seus serviços, não deve considerar que a pessoa eleita é uma pessoa fantástica, deve conhecer seus defeitos e aceitá-la como é, com todas as consequências. Isso seria o ideal. E de fato: será que vale a pena viver, ser homem, sem um ideal desses? E se um amigo nos decepciona porque não é um amigo de verdade, será que podemos acusá-lo, jogar-lhe na cara o seu caráter, a sua fraqueza? Quanto vale uma amizade que ambiciona ser premiada? Será que não temos o dever a aceitar o amigo infiel exatamente como o amigo fiel e cheio de abnegação? Será que não é esse talvez o conteúdo mais autêntico de toda relação humana, esse altruísmo que do outro nada exige e nada espera, absolutamente nada?
(Fragmento de ''As Brasas'' de Sádor Márai)


