LEITURA - Os dentes do penhasco
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de setembro de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
John Marcher e May Bartram são dois jovens acesos pela vida. Numa tarde de outono encontram-se de maneira inesperada. Numa breve conversa, percebem a paixão se aproximando, esticando a mão para efetuar os primeiros toques na porta.
Na verdade, os dois já haviam se encontrado anos antes, numa ocasião reveladora. John não se lembra, mas May se recorda de cada detalhe. Nesse primeiro encontro, John havia confessado algo extremamente íntimo: acreditava que, em algum momento de sua vida, seria vítima de algum tipo de desastre. Um acontecimento que colocaria sua existência de ponta-cabeça, ao avesso. Um acontecimento próximo dos dentes da catástrofe.
A relação entre John e May se estende ao longo dos anos. Uma relação onde a paixão nunca se realiza, sempre adiada por incertezas. Uma união que se converte em amizade na falta de outra solução. Isso até o dia em que May morre e John finalmente percebe o que perdeu.
Descrito dessa forma, o enredo de ''A Fera da Selva'' pode parecer uma história comum desprovida de qualquer impacto. Mas, nas mãos do escritor norte-americano Henry James (1843 - 1916), atinge a categoria de pequena obra-prima literária. A condução narrativa espalha pelo caminho várias possibilidades de entendimento, camadas de sentidos, tudo com a melhor elegância de discrição.
Lançado pela Cosac Naify, ''A Fera da Selva'' inaugura as comemorações dos dez anos de existência da editora. A edição aposta na idéia do livro como objeto estético, onde o projeto gráfico dialoga em grau de igualdade com o conteúdo literário. Da capa de alta capacidade tátil e manipulável, passando pelas alterações de tonalidade de cor das páginas, tudo aponta para o tratamento do livro como algo além de mero suporte de palavras impressas.
Publicado em duas edições, uma em português e outra em inglês, ''A Fera da Selva'' é uma novela sobre a impossibilidade do encontro. Uma história que revela o penhasco, o abismo, o vazio intransponível que separa e ao mesmo tempo une dois amantes. O desenho do penhasco que não poder ser descrito objetivamente, o vazio incomensurável que pode existir entre duas pessoas extremamente próximas.
Henry James faz da sombra da tragédia que paira sobre John o centro da relação entre ele e May. Ao longo dos anos, o amor assume a forma de entidade fantasmagórica. Velada e ao mesmo tempo evidente. A narrativa do autor pode ser comparada a uma escalada pela inclinação de uma montanha, galgando pedras e espaços íngremes. Quando o pico é atingido, os olhos encontram apenas o precipício exigindo do corpo um salto.
Henry James coloca o personagem John caminhando numa floresta. Um lugar habitado por uma fera implacável. O sujeito sabe que a fera está próxima, mas não sabe quando nem como ela efetuará o ataque. Essa espera torna-se o sentido de sua existência. Enquanto espera, atravessa a vida como uma folha em branco onde nada é registrado, seja garranchos ou requintadas caligrafias.
''A Fera na Selva'' retrata um homem que olha, mas não enxerga. Ao mesmo tempo, retrata de uma mulher que enxerga, mas não olha. E quando finalmente a fera pula sobre o sujeito, ele compreende que a tal fera não é externa. Pelo contrário, a besta está completamente do lado de dentro: a incapacidade de sentir.
Henry James fez o caminho inverso dos escritores de língua inglesa de sua época. Enquanto a maioria trocava a Inglaterra pelos Estados Unidos, ele trocou os Estados Unidos pela Inglaterra, naturalizando-se cidadão inglês. Irmão caçula do filósofo William James, Henry levou para a prosa as estruturas formais presentes apenas na poesia. Alguns de seus romances e contos podem ser considerados verdadeiras aulas de literatura onde forma e conteúdo jogam no mesmo time. Autor de duas dezenas de romances e centenas de contos e novelas, o escritor é um dos grandes nomes da literatura universal produzida em língua inglesa.
Serviço:
- A Fera na Selva, de Henry James. Editora Cosac Naify, tradução de José Geraldo Couto, posfácio de Modesto Carone, projeto gráfico de Luciana Facchini, 96 páginas, R$ 32,00.


