A proposta de Rahimi em seu livro está em apontar que a caligrafia também pode ser exercício de liberdade em todo e qualquer tipo de exílio
A proposta de Rahimi em seu livro está em apontar que a caligrafia também pode ser exercício de liberdade em todo e qualquer tipo de exílio | Foto: Divulgação


Victor Hugo achava que o exílio era uma espécie de longa insônia. Ovídio acreditava que o exílio era deixar o corpo para trás. Para Rahimi, exílio é um destino que oferece as palavras como chão.

Em seu novo livro, "A Balada do Cálamo", que acaba ser lançado pela editora Estação Liberdade, o escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi investiga, a partir de sua própria experiência, as grutas que o exílio escava no corpo e na alma dos homens desterrados.

Rahimi nasceu em Cabul, Afeganistão, em 1962. Com 11 anos de idade, exilou-se com a família na Índia. Na juventude voltou ao país natal, mas em 1984 precisou realizar um novo exílio, desta vez para o Paquistão. Posteriormente conseguiu asilo na França, país em que reside até hoje. Nunca se considerou um exilado político, mas um exilado cultural.

"A Balada do Cálamo" é um livro difícil de ser classificado em um gênero literário específico. Mistura ensaio, memória, história, mitologia, narrativa, poesia e outros gêneros mais. Atiq Rahimi simplesmente senta diante de uma página em branco para refletir sobre suas décadas de exílio. E reflete sobre a própria dificuldade em escrever sobre o tema por questões afetivas.

Em seu relato, chega até ao primeiro exílio experimentado por todo ser humano: o parto. A necessidade de abandonar o ventre da mãe (o primeiro território de qualquer pessoa) pode ser considerado o primeiro desterro do ser humano.

Mas há um exílio que antecede mitologicamente até mesmo esse primeiro desterro. A expulsão de Adão e Eva do paraíso poderia ser considerado o exílio primordial numa mitologia cultuada tanto por cristãos quanto por judeus e muçulmanos.

Por viver entre várias culturas em constante exílio, Atiq Rahimi instaura a grande dúvida: a que civilização realmente pertence? E a resposta envolve a linguagem: "A todas, mas sobretudo àquela que me empresta suas letras. Pois o que quer que eu faça, onde quer que eu vá, no que quer que eu me torne, eu sou o que escrevo, o que eu leio, o que eu vejo."

O sentimento de despertencimento pode ser recorrente em qualquer degradado. Rahimi elege como elemento de religação nada de religião ou ideologia, nada de terra ou nação. Elege a palavra. Em especial a caligrafia persa que aprendeu na infância e que resume o universo que antecede as ventanias do desterro.

A partir da caligrafia persa e árabe, Rahimi cria aquilo que nomeia de "calimorfia" (callimorphies). A origem da caligrafia persa de influência islâmica sempre esteve vinculada ao divino. O desenho das letras era, necessariamente, uma devoção a Deus. E seu uso estava totalmente regido por regras, normas e conceitos ancestrais que não poderiam ser alterados nem repensados.

O que "A Balada do Cálamo" apresenta, é que todo esse conhecimento ancestral da caligrafia, seja de qualquer cultura, não precisa servir apenas cegamente à religião. Claro que a caligrafia é uma disciplina, tem regras, é uma língua, uma ideia, um conceito, um texto. Mas a proposta de Rahimi está em apontar que a caligrafia também pode servir à arte. Pode servir à expressão íntima. E também pode ser exercício de liberdade em todo e qualquer tipo de exílio, de desterro, de degredo: "A calimorfia é selvagem, sem lei; sua língua é corporal, o movimento é sua gramática; não há ideia alguma, mas sensações."

Em "A Balado do Cálamo" o escritor não inventa a roda. Apenas retorna ao lugar onde outros artistas sempre retornaram para entender a origem da palavra, a aurora do verbo. E depois exercer a liberdade de oferecer uma nova contextualização ao sentido da palavra. Não mais dentro de uma tradição social, dogmática ou religiosa, mas a partir de uma experiência individual que remete aos vales de uma epifania pictográfica.

Serviço:
"A Balada do Cálamo"
Autor – Atiq Rahimi
Editora – Estação Liberdade
Páginas – 200
Quanto – R$ 42

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Os degredados filhos de Eva
| Foto: Divulgação



Fragmento:

Todo ser, toda cultura, toda realidade, para poderem existir na História, precisam ser contados. Ser contados por palavras. Mesmo Deus, que é o Verbo, foi ele próprio criado por palavras.

E as palavras? Eu tenho sempre a impressão de que são concebidas, como os seres, durante as noites. Por medo ou por desejo. Elas nascem para dar presença aos seres e às coisas desaparecidas no volume negro das grutas. Ou para tornar tangível sua ausência.

E é na solidão que cada palavra se torna signo, a marca do ausente, o nome do corpo desejado, a expressão de um estado invisível.

Digo isso mesmo sabendo que as origens de uma palavra são tão misteriosas quanto a invenção dos deuses, quanto a presença da humanidade sobre esta terra, quanto o meu nascimento.

Apenas as palavras sabem dizer como nasceram, por que elas ali estão.

Cada palavra nasceu inelutavelmente em alguma parte, em certo tempo, de um ser vivo. Ela carrega em si a narrativa, a memória, o sopro, a carne, o sangue... de um ser, de uma civilização e da humanidade.

(Fragmento de "A Balada do Cálamo", de Atiq Rahimi)

mockup