A figura da gueixa ocupa lugar cativo no imaginário ocidental. A imagem da mulher japonesa delicada, artista das sutilezas, bonequinha submissa repleta de significados, está presente tanto na poesia quanto na música. Há montanhas de românticos "olhos de gueixa" espalhados pelo mundo.

O escritor japonês Nagai Kafu (1879 – 1959), no romance "Guerra das Gueixas", deixa de lado esse romantismo imaginário para oferecer o desenho dos bastidores do mundo das gueixas. Lançado pela editora Estação Liberdade, a obra oferece um visão realista de mulheres criadas desde a infância para servir os homens.

Publicado originalmente como folhetim no jornal literário "Bunmei" em 1916, ganhou a forma de livro já em 1917. O começo do século 20 retratado por Nagai Kafu coincide com a transição da tradição da cultura japonesa para a modernidade. A milenar tradição das gueixas iniciadas em artes, música e dança começa a perder força para simples prostituição.

Para os tradicionalistas, vincular a figura da gueixa com a figura da prostituta como o ocidente vinculou, é um verdadeiro crime. Mas Nagai Kafu, em "Guerra das Gueixas", faz praticamente isso, rompe com o tradicionalismo. Algumas partes do livro chegaram a ser censuradas e suprimidas das primeiras edições por conter cenas eróticas nas quais jovens gueixas fazem sexo com os clientes. A própria protagonista do romance, Komayo, em algumas noites longas, precisa ir para a cama com três clientes sucessivamente.

Komayo é uma moça que desde o início da adolescência foi educada para ser gueixa. Após trabalhar por anos em Shinbashi (bairro de Tóquio tradicional reduto boêmio e das casas de luzes vermelhas), casa-se com um de seus clientes e deixa a vida libertina para trás. Muda-se para o interior do Japão, mas algo trágico ocorre: seu esposo adoece e falece. Com a inesperada morte do marido, a jovem viúva retorna ao ofício de gueixa em Tóquio.

Logo em seu retorno reencontra um antigo cliente chamado Yoshioka, do qual foi amante. A paixão entre os dois renasce e Yoshioka resolve tirar a moça daquele lugar para casar-se com ela. O problema é que Komayo conhece um lindo ator onnagata (ator que interpreta papéis femininos no tradicional teatro japonês). E claro, ela se apaixona pelo bonitão e começa a enrolar o casamento com Yoshioka, considerado um homem sério cunhado com o seguinte lema: "Há três preocupações centrais na vida de um homem moderno: a glória, a fortuna e a mulher".

Fica evidente que esse enredo poderia cair como luva numa novela de televisão brasileira. Ou mexicana. Mas tem mais. Quando Yoshioka percebe que a amada está perdidamente apaixonada por outro e disposta a abandoná-lo na rua da amargura, jura vingança.

Como vingança, o homem sério decide tirar daquele lugar outra moça, a principal rival de Komayo. Tudo para ver a amada se morder de raiva e ciúmes. Nesse período, o ator bonitão, que está prestes a se casar com Komayo, conhece outra gueixa e se apaixona perdidamente pela garota que é linda e podre de rica. E assim a trama segue com fofocas, barracos, conchavos, traições, maledicências, asco, paixões, ressentimentos, interesses escusos, loucuras, golpes baixos e línguas pretas de quinhentos metros.

Em "Guerra das Gueixas", Nagai Kafu derruba por terra a visão romântica das gueixas. Elas são apresentadas como mulheres de carne e osso, capaz de viverem os mais variados sentimentos, do amor ao ódio, da submissão à prepotência. Tudo com uma cobertura de açúcar derretido que invariavelmente caminha para o trágico.

Nagai Kafu nasceu em Tóquio, em 1879. Começou a se interessar por literatura na adolescência, escrevendo contos que começaram a ser publicados em 1900. Na primeira década do século 20 viveu nos Estados Unidos e na França como funcionário de um banco japonês. Dessa experiência acabou sofrendo influência da literatura ocidental, principalmente da escola realista.

A editora Estação Liberdade publicou no Brasil outros dois romances de sua autoria, "Crônicas da Estação das Chuvas" (2008) e "Histórias da Outra Margem" (2013). Faleceu com 80 anos de idade, em 1959.

Serviço:
"Guerra de Gueixas"
Autor – Nagai Kafu
Editora – Estação Liberdade
Tradução – Andrei Cunha
Páginas – 248
Quanto – R$ 39

Desde a primeira vez em que vira Komayo despojada da parafernália de gueixa, crescera nele o desejo de mantê-la assim, um desejo que se tornava cada vez mais difícil de controlar cada vez que a via, cada vez que os dois compartilhavam o travesseiro. – Ai, está pesando! – disse ele, tentando se livrar dela, mas quanto mais a empurrava, mais ela enfiava o rosto em seu peito. Com uma voz dengosa, ela respondeu: – Ah, me deixa ficar aqui. Estou com sono! Não consegui dormir nem um pouquinho de noite... Komayo virou a cabeça e ficou olhando para ele, que reclamou: –A culpa é sua, oras. – Seu bobo – e, fazendo cara de emburrada, enfiou a mão no quimono de Yoshioka e deu-lhe um beliscão no peito. Esse tipo de brincadeira infantil era uma astúcia da profissão, quase uma arte, pode-se dizer, que as mulheres da vida usavam a seu favor. Não apenas Komayo, como todas as mulheres do tipo, tinham um estratagema fixo – aprendido sabe-se lá com quem – que usavam quando um homem lhes fazia uma pergunta difícil de responder. O truque consistia em surpreender o homem para confundi-lo e desviar a sua atenção da questão inicial. Yoshioka sabia muito bem do que se tratava. Ele era um habitué do bairro das gueixas, e já presenciara cenas semelhantes muitas vezes. Algumas se punham a soluçar antes de cederem; outras se mostravam distantes e na última hora se jogavam aos pés do homem. Havia também as que se faziam de bobas, agindo infantilmente. Seja qual fosse o truque, a estratégia consistia em atiçar uma emoção em si mesma, a ponto de ficar como que embriagada; nesse momento, o mais experiente dos homens acabava por se deixar iludir. (Fragmento de "Guerra de Gueixas", de Nagai Kafu)
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