LEITURA - Oratória de um céu líquido
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de fevereiro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Algo como estar sozinho em alto mar. Completamente perdido, agarrado num tronco de árvore. Água e mais água por todos os lados. Tempestades e calmarias afogando os olhos. Nada a fazer a não ser esperar por algum sinal de areia, pedra ou terra. Nada a fazer a não ser saber que só água após água se apresenta. Nenhuma poeira de terra real na retina. Colocar os pés em algum pedaço de chão firme, nada mais do que um desejo distante perdido na imensidão, um sonho irrealizável.
Essa pode ser uma das inúmeras sensações que o leitor de "Graça Infinita" pode experimentar ao longo de suas páginas. Algo como estar num mar de narrativo sem regras ou limites definidos. Algo com uma aventura através de um céu líquido das construções mentais. Ou uma metralhadora lexical onde o alvo não é aquilo que parece ser.
"Graça Infinita" ("Infinite Jest"), obra-prima do escritor norte-americano David Foster Wallace, é um dos livros mais pirados da literatura contemporânea norte-americana. Uma obra que, desde sua primeira edição (1996), criou toda uma mitologia em torno de si. A Companhia das Letras lançou recentemente a primeira edição brasileira, um catatau com mais de mil páginas e experimentações linguísticas, desordem cronológica, centenas de personagens bizarros, overdose de vocabulário, criação e junção de palavras, profusão de expressões idiomática, reprodução de sotaques da oralidade, centenas de notas e acrônimos, uma mar de ironias, humor e delírios racionalizados. O complexo trabalho de tradução ficou a cargo do curitibano Caetano W. Galindo com um resultado de se tirar o chapéu.
O enredo de "Graça Infinita" é uma teia de irônicos processos mentais que possui um peso secundário diante da linguagem narrativa. São vários fragmentos de histórias sem ordem cronológica que retratam o entretenimento como uma religião que precisa de devotos, crentes e servos.
Entre os personagens principais, está a família Incandenza. O pai, um cientista que se tornou cineasta, é autor de uma série de filmes undergrounds malucos. Sua obra mais cultuada, intitulada justamente "Graça Infinita", possui uma peculiaridade inusitada: o filme provoca a morte de toda a pessoa que o assiste.
A mãe dirige uma escola de tênis formadora de campeões. Um dos filhos, Hal, atleta genial do esporte e aluno da escola, vive chapado de todo tipo de substâncias legais e ilegais. Outro filho, Orion, é fissurado em sexo radical e bizarro. Mário, o último filho, possui uma coleção de anomalias físicas e psíquicas que o transformam no sujeito mais lúcido da família.
Os Estados Unidos, o Canadá e o México deixaram de existir para dar lugar a uma poderosa organização chamada ONAN (Organização das Nações da América do Norte). Algumas facções terroristas procuram minar o sistema usando como arma o filme criado pelo falecido cineasta Incandenza.
Pode até parecer alguma coisa lunática de ficção científica, mas não há nenhuma intenção de David Foster Wallace nesse sentido na narrativa de "Graça Infinita". Sua grande ferramenta, além da linguagem, é a ironia (a ironia como único instrumento capaz de dar conta do mundo atual). A obra possui uma estrutura complexa, repleta de segredos a serem decodificados. A experiência da leitura torna-se um dos grandes elementos que a obra é capaz de oferecer.
Uma tentativa inglória tentar descrever o sentido da construção narrativa proposto por David Wallace. Algo como lavar um gatinho fofinho lindinho e colocá-lo para secar no micro-ondas. Escolher a opção descongelar e apertar o botão. As consequências (uma explosão de tons vermelhos e derivados) será justamente aquilo que se espalha pelas páginas de "Graça Infinita".
Os leitores da literatura tradicional podem considerar "Graça Infinita" uma obra enfadonha, verborragia do desconexo, oratória do excesso, léxico do delírio, experimento alucinado e outro punhado de coisas. Mas justamente é no sentido da saturação (em todas as escalas da vida e do mundo contemporâneo, em especial no universo da cultura americana) que reside o eixo da construção narrativa de David F. Wallace, repleta de um humor irônico próximo da capacidade máxima da oralidade. Uma da obra alucinada escrita com total racionalidade a saturação pela ironia. Se fosse possível uma comparação, basta cruzar a literatura de Thomas Pynchon com a de José Agrippino de Paula seguindo o caminho traçado por James Joyce.
David Foster Wallace nasceu em 1962 e foi um aplicado atleta do tênis até tornar-se professor. Apesar de ser considerado um dos grandes autores da literatura norte-americana contemporânea, possui poucos livros publicados, apenas dois romances e três volumes de contos - dois deles publicados no Brasil pela Companhia das Letras: "Breves Entrevistas com Homens Hediondos (2005) e "Ficando Longe dos Fatos de Já Estar Meio Que Longe de Tudo" (2012). Deixou ainda um romance inacabado, publicado postumamente. No universo da internet é conhecido pelo discurso intitulado "A Liberdade de Ver os Outros", proferido quando foi paraninfo dos formandos da Kenyon College em 2005.
Grande parte da vida de Wallace foi ocupada pela batalha particular contra a depressão, testando os mais variados tipos de medicamentos e tratamentos. Em setembro de 2008, com 46 anos de idade, numa nova tentativa de tratamento, cometeu suicídio na garagem de sua residência.
"Graça Infinita" é sua grande piada sobre o sentido da vida, sobre um país psicótico, sobre um mundo cruel que veste fantasias de pelúcia. E a linguagem como unguento.
Serviço:
"Graça Infinita"
Autor David Foster Wallace
Editora Companhia das Letras
Tradução Caetano W. Galindo
Páginas 1.142
Quanto R$ 111,90 e R$ 39,90 (e-book)


