Um fantasma assustador. Uma peste que deixava as mães de olhos inchados e vermelhos. A poliomielite, algumas décadas atrás, era um fantasma apavorante. Ao contrair o vírus, as crianças só tinham duas opções pela frente: morte ou sequelas. Não havia o que fazer. Só nuvens negras.
Essa atmosfera sombria permeia ''Nêmesis'', o novo romance do escritor norte-americano Philip Roth lançado pela editora Companhia das Letras. A proximidade da fatalidade, bem como as perturbações que ela é capaz de provocar na mente humana, derruba tudo que encontra pela frente. Certezas, felicidades e aspirações.
''Nêmesis'' é o último volume da tetralogia idealiza pelo escritor ao lado dos romances ''Homem Comum'', ''Indignação'' e ''A Humilhação'', todos lançados pela Companhia das Letras. Os quatro livros retratam, cada um a seu modo, a impotência humana diante da força da imprevisibilidade da vida.
''Nêmesis'' narra a história de Bucky, um jovem atleta de 23 anos, professor infantil de educação física, que precisa lidar com uma epidemia de poliomielite em 1944 nos Estados Unidos. De um dia para outro, ele vê seus alunos desaparecerem das aulas vítimas da doença.
Em pouco tempo começa a se sentir culpado pela situação. A essa culpa, se junta outra: o fato de não ter sido aceito pelo exército para lutar na Segunda Guerra Mundial devido a sua elevada miopia. Entre a morte de seus amigos que partiram para a guerra e a morte de seus alunos, percorre uma série de questionamentos atormentados. Começa a achar que Deus não é tão bom como parecia ser.
Tentando fugir da situação, abandona as aulas e parte para uma colônia de férias nas montanhas onde sua namorada trabalha. Sua esperança é deixar as desgraças para trás, mas elas o seguem. Junto com sua chegada, o vírus também surge na colônia. As notícias das mortes de seus alunos e amigos na guerra também o alcançam sem dó nem pena.
Bucky não consegue entender por que, de um momento para outro, a tragédia tocou seu ombro. Justamente ele que sempre foi uma pessoa correta, justa, amável e saudável. Sente tormento por uma pesada culpa que parece não ser sua. Sua revolta recai sobre Deus, que decidiu aplicar-lhe um castigo injustificável. Vale lembrar que o título do romance remete a deusa Nêmesis, que na mitologia grega personifica a vingança divina.
A obra toca no ponto onde a ordem e as certezas escorrem pelo ralo. O imprevisto, a incerteza e as circunstâncias seriam maiores que os homens. O destino estaria sempre atrás da porta para aplicar algum tipo de susto. Sempre pronto para desamarrar os sapatos, abrir um buraco no chão, desabar um prédio ou fazer o céu despencar.
Uma das surpresas do romance está em sua estrutura narrativa. O narrador, em primeira pessoa, possui uma íntima proximidade do personagem principal e, ao mesmo tempo, um distanciamento lúcido e profundo. No final, ele se revela como um dos alunos de Bucky vitimado pelo vírus da poliomielite.
São duas vítimas que atravessaram a tempestade e saíram transformados. Um conseguiu superar o trauma e não fazer da existência um pesado fardo. Outro permaneceu imóvel na amargura e no peso do fardo. O destino pode ser tratado como uma entidade cruel e, ao mesmo tempo, uma doce entidade. E ninguém entenderá direito como as coisas funcionam.
Philp Roth, nascido na cidade de Newark em 1933 numa família de origem judaica, é considerado um dos grandes criadores da literatura norte-americana da segunda metade do século 20. Autor de dezenas de romances, ganhou montanhas de prêmios literários ao longo das décadas. Prestes a completar 79 anos de idade, continua defendendo a ideia da vida como um impasse longe de qualquer tipo de solução.

Serviço:
- Nêmesis
Autor - Philip Roth
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Jorio Dauster
Páginas - 202
Quanto - R$ 36

Ele precisava converter a tragédia em culpa. Precisava encontrar uma necessidade para o que ocorria. Há uma epidemia e Bucky necessita de uma razão para ela. Tem que perguntar por quê? Por quê? O fato de que ela não tem sentido, que é acidental, ilógica e trágica não o satisfaz. Ao contrário, ele busca desesperadamente uma causa mais profunda, esse mártir, esse maníaco à procura de uma razão, e descobre o porquê em Deus ou nele próprio, ou misticamente, misteriosamente, na terrível ligação dos dois num só exterminador. Devo dizer que, embora me condoesse o acúmulo de infelicidade que arruinaram a vida dele, sua concepção não passava de uma arrogância idiota, não a soberba da vontade ou do desejo, mas a soberba de uma interpretação religiosa e infantil. Já ouvimos tudo isso antes e já ouvimos mais do que o suficiente, até mesmo de alguém tão profundamente decente quanto Bucky.
(Fragmento de ''Nêmesis'' de Philip Roth)

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