leitura - Olhos estrangeiros
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de novembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O olhar estrangeiro, aquele que focaliza o estranho com uma camada dupla de pele, pode revelar muito mais sobre aquele que olha do que sobre aquele que é olhado. Como se o ponto de partida determinasse, em detalhes, o ponto de chegada.
Um estrangeiro tem aquilo que o nativo não possui, a distância convertida em matéria da percepção. Eleva à categoria de realidade o véu que encobre o outro sem acalentar a devida atenção para o véu que o reveste. Como se o contato fosse um punhal sem cabo, onde a afiada lâmina é a única coisa passível de toque.
Em seu novo romance, ''Mongólia'', o escritor carioca Bernardo Carvalho revela alguns dos cortes que esse punhal pode provocar. Num primeiro momento, imperceptíveis. Num segundo momento, evidentes como os ferimentos do passado de cada pessoa.
Lançado pela Companhia das Letras, ''Mongólia'' é fruto da viagem que Carvalho realizou no ano passado pelo interior silencioso do país do asiático. Durante dois meses - graças a uma bolsa de criação literária concedida pela Fundação Oriente de Lisboa - percorreu o desértica região com os olhos de um estrangeiro e, acima de tudo, de um coletor de matéria-prima para a literatura.
O resultado é um romance que mescla relato de viagem com ficção, onde as impressões do estrangeiro são pontuados por uma história oculta que se desvela lentamente aos olhos do leitor. ''Mongólia'' é composto de três narrativas distintas, que se mesclam para formar um tecido maior.
O narrador principal é um homem aposentado da carreira diplomática que decide visitar um episódio do passado, vivido quando cônsul brasileiro na China. Em sua função, ele precisou esclarecer o desaparecimento de um jovem fotógrafo brasileiro no interior da Mongólia. Para tal tarefa, escalou um funcionário da embaixada que, contra a vontade, realizou uma conturbada viagem para encontrar o rapaz.
Assim, ''Mongólia'' é formado pelo diário do fotógrafo desaparecido, pelas cartas escritas pelo funcionário da embaixada durante as buscas, e pelo cônsul que revisita o episódio unindo as pontas da história aberta e nebulosa, na tentativa de entendê-la, limpando o passado. Grande parte da narrativa está centrada na descrição da cultura do povo mongol, na qual a religião budista e a aridez geográfica ocupam lugar determinante.
''Mongólia'' possui estrutura muito semelhante ao livro anterior de Bernardo Carvalho, ''Nove Noites'', publicado no ano passado e que é um dos romances finalistas do 1º Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2003 a ser anunciado na próxima terça-feira. As duas obras partem de elementos reais para construir uma trama ficcional e os narradores estão em busca de informações que elucidem alguma questão do passado. Colhem lentamente subsídios para compor a história a partir de pequenos pedaços e um manancial de lacunas. Ao mesmo tempo que revelam a história de terceiros, oferecem a história de suas próprias vidas. Tudo indica tratar-se de um estilo construído pelo escritor fazendo uso de uma linguagem elaborada com esmero.
Em ''Nove Noites'', o narrador é um jornalista que decide elucidar o suicídio de um jovem e promissor antropólogo norte-americano na floresta do Xingu ocorrido décadas atrás, em 1929. A história é baseada na morte de Buell Quain, acadêmico que começou estudar os índios Krahôs e acabou enlouquecendo na mata sem motivos esclarecidos. A narrativa utiliza, além da jornada do próprio narrador, cartas escritas pelo antropólogo e pessoas próximas, além do relato de um engenheiro que acompanhou Buell Quain em suas pesquisas e acabou sendo seu confidente íntimo.
Tanto em ''Nove Noite'' como em ''Mongólia'', realidade e ficção se funde eliminando o dilema da água e do óleo. Esse parece ser o caminho escolhido por Bernardo Carvalho para sedimentar sua literatura. Onde as lacunas do passado ocupam um lugar especial, entre as referências mais próximas e as mais distantes. E deixa claro que falar do outro é revelar as particularidades de si mesmo. Como se apenas o estranho fosse capaz de dar sentido ao estrangeiro. E como se o estrangeiro delineasse o sentido do estranho.
Serviço:
- ''Mongólia'' de Bernardo Carvalho, Editora Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 29,50.
- ''Nove Noites'' de Bernardo Carvalho, Editora Companhia das Letras, 174 páginas, R$ 27,00.


