Nos últimos tempos, o escritor carioca Rubem Fonseca adotou uma prática semelhante à utilizada pelo cantor Roberto Carlos épocas atrás. Assim como Roberto Carlos lançava um disco todo final de ano, Rubem Fonseca passou a publicar um novo livro a cada final de ano.
O lado bom da coisa é que essa é a única semelhança possível entre Rubem e Roberto. Não há mais nenhuma. O novo livro de 2006 de Rubem Fonseca, lançado pela Editora Companhia das Letras, recebeu no nome de ''Elas e Outras Mulheres''. Reúne 27 contos breves onde a presença de figuras femininas é constante. Mais constante ainda a capacidade das mulheres em delinearem o destino dos homens.
Um dos elementos presentes nos contos sugere que toda vez que um homem encontra uma mulher, o destino desse homem é alterado. Não está em jogo o julgamento se essa alteração é benéfica ou maléfica, mas apenas revelar ironicamente as mudanças que ocorrem no destino através das mãos e pernas de uma mulher.
Rubem Fonseca não criou um livro sobre mulheres, ou com histórias de mulheres. ''Ela e Outras Mulheres'' é uma reunião de obsessões íntimas e discretas reveladas de maneira crua e direta, sem nove horas ou firulas. Uma ampla gama de figuras femininas aparece em cantos diversos, hora como protagonistas, hora como discretas personagens secundárias.
Além de reforçar a linguagem característica de sua literatura, marcada por uma instigante concisão próxima da anorexia, o escritor coloca em evidência situações extremas. Não as situações extremas que abrem bandeiras, mas aquelas que repousam no escuro porão onde cada ser humano recolhe suas perversões mais particulares.
Entre seu primeiro livro publicado, ''Os Prisioneiros'' de 1963, e ''Ela e Outras Mulheres'', Rubem Fonseca lentamente foi diluindo a temática da violência urbana e levantando elementos de cunho sexual. Nesse processo, a voz da carne tornou-se tão imperativa quanto a voz da mente. Numa narrativa pautada por ações, o ímpeto sexual assumiu a forma de uma engrenagem alheia a qualquer romantismo amoroso.
''Alice'', conto que abre o volume, narra a história de um garoto gago de 14 anos que anda recheado de zeros na escola. Tudo muda de figura quando ele começa a ter aulas particulares com uma professora quarentona. Rapidamente começa a gostar de ler, seu rendimento escolar melhora e sua gagueira simplesmente deixa de existir.
Tudo parece resolvido até o dia em que o garoto é convocado a depor na polícia. O delegado comanda uma investigação que acusa a professora pelo crime de abuso sexual de menores. Com um belo carregamento de ironia, a narrativa lambe a diferença entre um homem mais velho agarrar uma garota de 14 anos e uma mulher mais velha agarrar um garoto de 14. Perante a lei, ambos os casos são considerados crimes. Mas, no caso, perante a perspectiva masculina, o garoto foi o grande beneficiado. O mal é substituído pelo bem.
A partir desse conto de abertura, pode parecer que a livro de Rubem Fonseca caminha na direção de uma discussão sobre o labirinto moral. Ledo engano. As histórias que aparecem no decorrer das páginas se desviam do caminho aparente para transformar idéias e obsessões, que atravessam a cabeça das personagens, em fato, em ação, em acontecimento. Em algumas situações lembram as provocações do dramaturgo Nelson Rodrigues, em outras dialogam com os microcontos de Dalton Trevisan.

Serviço:
- Livro ''Ela e Outras Mulheres'', de Rubem Fonseca. Editora Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 34,00.

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