LEITURA - O vôo da maçã
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Existe um ditado de origem bíblica que diz que o fruto sempre cai perto da árvore. As maçãs sempre caem perto da macieira. O sentido geralmente é aplicado em "tal pai tal filho" - os filhos são fiéis cópias dos pais.
Mas nem sempre isso acontece. Algumas maçãs caem longe da macieira. Acontece algo inexplicável e os filhos não nascem como cópias de seus pais. Alguns nascem surdos, outros com Síndrome de Down. Alguns com deficiência física, outros deficiências mentais. Alguns nascem anãos, outros autistas.
A pergunta que surge é: como os pais se relacionam com o fato de gerarem filhos diferentes?
O escritor norte-americano Andrew Solomon resolveu pesquisar esse universo em "Longe da Árvore", livro lançado pela editora Companhia das Letras. Trata-se de um catatau onde autor esmiúça o que acontece dentro da intimidade das famílias que vivem essa realidade entre o amor e o sofrimento.
Sua constatação é de que "as famílias infelizes que rejeitam seus filhos diferentes têm muito em comum, ao passo que as felizes que se esforçam para aceitá-los são felizes de uma infinidade de maneiras". E entre os filhos diferentes também estão os pequenos criminosos e os prodígios da inteligência.
Solomon trabalha como o conceito de identidade vertical e identidade horizontal. A primeira envolve as características claramente hereditárias e genéticas. A segunda envolve as características não hereditárias, preferência e valores que os filhos não compartilham com seus progenitores.
"Longe da Árvore" se concentra em dez tipos de diferenças: surdos, anões, Síndrome de Down, autismo, esquizofrenia, deficiência, prodígios, filhos de estupro, criminosos e transgêneros. Além da pesquisa científica, o autor apresenta centenas de histórias familiares, colhidas em depoimentos sobre o processo de recusa ou aceitação dos filhos pelos pais. Filhos à margem dos padrões biológico e sociais. Bem longe das expectativas dos pais.
O livro nasceu de uma necessidade pessoal de Solomon. Diagnosticado com dislexia na infância, teve todo apoio, aceitação e dedicação dos pais. Recebeu todo afeto possível, tratamento adequado, atenção terapêutica para ter uma vida normal. Mas, quando sua homossexualidade despertou na adolescência, a reação dos pais foi oposta. Não houve tolerância, nem carinho, nem compreensão.
Essa contradição é o ponto de partida de "Longe da Árvore". E parece estar presente em grande parte dos depoimentos. A tendência dos pais é inicialmente recusar o filho que não é espelho. Num segundo momento há a aceitação carregada de afeto e sentimentos até então desconhecidos. E a experiência de cuidar de um filho diferente não se iguala à cuidar de um filho igual. Essa é uma constatação realizada por dezenas de pais que viveram as situações mais complicadas e difíceis de imaginar.
O tema mais duro abordado por Solomon é relação das mães de filhos gerados por estupro. Vivendo entre o amor e o ódio, as mães precisam aprender a amar aquilo que odeiam, uma tarefa praticamente impossível. Um universo praticamente invisível para o mundo, mesmo sendo o aborto a opção mais acolhida.
Autor de outro livro instigante, "O Demônio do Meio-Dia" (sobre a depressão), Solomon aplica sua própria vivência na estrutura do livro. Primeiro como filho, depois como pai. Não chega a uma conclusão categórica que pode ser utilizada como autoajuda. Apenas deixa transparecer que há algo sutil. O amor pode ter formas das mais variadas formas e contradições, mas sempre pousa sobre um único ponto das maçãs. Aquele ponto que não conhece palavras.
Serviço:
"Longe da Árvore Pais, Filhos e a Busca da Identidade"
Autor Andrew Solomon
Editora Companhia das Letras
Tradução Donaldson M. Garschagen, Luiz A. de Araújo e Pedro Maia Soares
Páginas 1056
Quanto R$ 79,50 e R$ 39,90 (e-book)
Fragmento:
Relatos de crianças abandonadas em lixeiras e as sobrecarregadas redes de adoção apontam para a capacidade de desapego dos seres humanos. Estranhamente, isso parece ter tanto a ver com a aparência da criança quanto com sua saúde ou caráter. Os pais costumam levar para casa uma criança com um defeito fatal interno, mas não uma criança com um pequeno defeito visível; numa fase posterior, alguns rejeitarão até mesmo filhos com graves cicatrizes de queimadura. As deficiências manifestam afrontam o orgulho dos pais e sua necessidade de privacidade; todos podem ver que aquela criança não é o que queriam, e eles deverão aceitar a piedade do mundo, ou insistir em seu próprio orgulho.
(Fragmento de "Longe da Árvore" de Andrew Solomon)


