A riqueza pode ser comparada ao sal. Os homens pessoas não precisam encher a boca de sal para sentir seu sabor. Não é necessário quilos ou montanhas de sal, basta apenas uma pitada. A riqueza é como sal: é tempero.
Para o escritor moçambicano Mia Couto, o sal, assim como a riqueza, pode ser comparado às histórias. As narrativas podem ser consideradas uma espécie de tempero para a vida cotidiana dos homens. As histórias podem possuir uma natureza semelhante a dos condimentos, entre sabores e prazeres.
No romance ''Terra Sonâmbula'' Mia Couto sugere a idéia de que narrar histórias é uma maneira de fazer as pessoas sonharem. Quando contamos nossos sonhos noturnos a alguém, o sonho se transforma em história. Da mesma maneira, quando narramos uma história a alguém, a história se transforma em sonho. Tudo acontece como numa via de mão dupla. O sonho parte do particular para se tornar coletivo. A história parte do coletivo para se tornar particular.
Considerado um dos mais representativos romances do escritor moçambicano, ''Terra Sonâmbula'' foi publicado originalmente em 1994 e eleito como uma dos doze melhores livros africanos do século 20. Publicado pela primeira vez no Brasil em 1997 pela Nova Fronteira, a obra acaba de receber uma nova edição pelas mãos da Editora Companhia das Letras.
Inundado por uma atmosfera fabular, o romance narra duas histórias paralelas que a princípio não possuem nenhuma relação vinculada. Apenas nas últimas linhas as duas se encontram numa espécie de revelação. A primeira delas conta a trajetória de Muidinga, um garoto sem passado que vaga pelas estradas de Moçambique devastado pela guerra civil. Muidinga perambula ao lado de Tuahir, um velho que abriga o garoto sob seus cuidados. As solidões do garoto e do velho se unem numa sobrevivência básica sem direito a qualquer tipo de sossego.
Em suas andanças, Muidinga encontra, na carcaça de um ônibus incendiado, um caderno manuscrito onde está registrada a história de Kindzu, um jovem que vaga pelo país desolado em busca de seu destino. Quando começa a ler o manuscrito, Muidinga se vê seduzido pela narrativa, sedução que se estende até o velho Tuahir. Ambos passam a viver entre a dura ''realidade'' do cotidiano e o encantamento da ''ficção'' gravada no caderno.
Em ''Terra Sonâmbula'', a história de Muidinga e a história de Kundzu caminham em terrenos similares. Em cada uma delas cabem outras centenas de histórias narradas por personagens que atravessam o caminho e um, e de outro. Mia Couto coloca tanto o real dentro do fantástico como o real dentro do fantástico. Fazendo uso de lendas e mitologias do imaginário tribal africano, abre um leque de imagens típicas das fábulas de caráter simbólico.
Uma das características da literatura de Mia Couto é o peculiar tratamento que confere à linguagem. Em suas narrativas novas palavras são criadas a partir da junção de dois vocábulos, sentenças são intencionalmente invertidas, substantivos são transformados em verbos, verbos são transformados em substantivos e outras coisas mais. Sua intenção não é meramente subverter os padrões normativos da língua portuguesa, mas, levar para a escrita a riqueza e os infinitos recursos do uso oral da língua e ampliar o teor simbólico das culturas tribais.
Mia Couto realiza, na língua portuguesa praticada em Moçambique, algo semelhante ao que autores brasileiros como Guimarães Rosa, na prosa, e Manoel de Barros, na poesia, realizaram na língua portuguesa utilizada no Brasil. A criação de uma linguagem que tira a poeira e as teias de aranha da língua lusitana para instaurar uma renovação da palavra.
Filho de imigrantes portugueses, Mia Couto nasceu em Beira, Moçambique, em 1955. Além de biólogo, atuou como jornalista por quase duas décadas. Estreou na literatura em 1983, com o livro de poemas ''Raiz de Orvalho''. Depois vieram os volumes de contos ''Vozes Anoitecidas'' (1986), ''Cada Homem é Uma Raça'' (1990), ''Estórias Abensonhadas'' (1994) e ''Contos do Nascer da Terra'' (1997). Em seguida passou a se dedicar a narrativas de maior fôlego, romances onde se destacam ''A Varanda do Frangipani'' (1996), ''O Último Flamingo'' (2000), ''Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra'' (2003) e ''O Outro Pé da Sereia'' (2006).
''Terra Sonâmbula'' é um passeio entre o dia e a noite. Durante a noite, os sonhos saem das cabeças dos homens e transportam o mundo fantástico para fora. Durante o dia, as histórias entram nas cabeças dos homens e transportam o mundo real para dentro. A literatura de Mia Couto une estes dois movimentos num único fluxo, com o real contaminando o fantástico e o fantástico contaminando o real. Com dia contaminando a noite e a noite contaminado o dia. Sem aurora. Sem crepúsculo.

Fragmento
Fiquei na sombra, remoendo um desejo: já não era a luta, os naparamas que me davam alma. Eu queria simplesmente adoecer, ansiava uma doença que me apagasse toda a paisagem por dentro. Queria receber essa doçura que a doença sempre tem. Me encostei a um toco, a casca me almofadando o rosto, na espera de ouvir a seiva da terra. Mas a árvore onde eu me refrescava era uma terrível e ossuda planta: a árvore do demônio. Era uma dessas plantas que chora como serpente, um lamentochão que atrai gentes e bichos.
(Fragmento de ''Terra Sonâmbula'' de Mia Couto)



SERVIÇO:
- ''Terra Sonâmbula'' de Mia Couto, Editora Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 36,00.

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