Ao publicar, em 2012, o volume de contos "Vida Querida", a escritora canadense Alice Munro afirmou que este seria seu último livro. Estava com 81 anos de idade e decidida em retirar-se da literatura.
Tudo apontava tratar-se de mais um caso de escritores que, ao chegarem a determinada idade, assumem a opção de pendurar as chuteiras. Com Alice Munro a situação foi inusitada. Logo após declarar sua aposentadoria foi agraciada com o prêmio Nobel de Literatura de 2013.
"Vida Querida", lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, é uma síntese de seu trabalho literário. Reúne 13 contos que trazem todas as características de sua narrativa. A de colocar maior valor naquilo que permanece oculto do que naquilo que é revelado pelas palavras. A capacidade de revelar o todo a partir de pequenas partes. A determinação de colocar em evidência personagens femininas vivendo em pequenas cidades e vilarejos rurais, mulheres reféns do casamento e da maternidade.
Nos contos de "Vida Querida", a lembrança da realidade sempre se apresenta maior do que a própria realidade. Ou seja, a dimensão que a memória oferece da realidade é maior e mais simbólica que a própria realidade. Algo como viver apenas para poder lembrar-se dos acontecimentos. Nesse processo as lembranças adquirem muito mais sentido do que os fatos. Ou, com mais crueldade, a memória dos acontecimentos teria muito mais vida do que os próprios acontecimentos.
Entre os contos presente em "Vida Querida", alguns merecem destaque, entre eles "Corrie" e "Trem". Apresentando fatos e acontecimentos do cotidiano, Alice Munro deixa transparecer aquilo que parecia humanamente oculto. As surpresas da monotonia não são tratadas apenas como surpresas, mas como situações que exigem força ou indiferença. E o interessante é que a indiferença, que poderia ser encarada como algo indesejável, assume a forma de naturalidade construtiva.
Nos contos de Alice Munro existem coisas que não poder ser refeitas e coisas que pode ser relembradas sob novas perspectivas. Entre uma e outra opção, a existência das personagens encara desafios do cotidiano com se lutassem contra moinhos de ventos invisíveis. Moinhos gigantes. E é essa parte oculta, discreta e incontável, que merece atenção. Justamente a parte que não deve ser narrada explicitamente.
Alice Munro nasceu em 1931, em Wingham, Canadá. Com dezenas de prêmios literários nas mãos, é considerada a autora de maior destaque da literatura canadense de língua inglesa da atualidade. Possui, além de "Vida Querida", outros quatro volumes de contos publicados no Brasil: "Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento" (Globo, 2003), "Fugitiva" (Companhia das Letras, 2006), "Felicidade Demais" (Companhia das Letras, 2010) e "O Amor de Uma Boa Mulher" (Companhia das Letras, 2012).
No final de "Vida Querida", Alice Munro insere quatro textos que não classifica como contos, mas como narrativas autobiográficas: "Não são exatamente contos. Eles formam uma unidade à parte, que é autobiográfica em espírito, apesar de não o ser inteiramente, às vezes, de fato. Acredito que eles sejam as primeiras e as últimas – e mais íntimas – coisas que eu tenho a dizer sobre minha vida."
São textos que apresentam episódios marcantes que, de um modo ou de outro, são capazes de dar origem a cicatrizes mentais ou psíquicas. Episódios resolvidos que, com o passar das décadas, se concluem com as seguintes palavras: "Nós dizemos de certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos perdoar. Mas perdoamos – perdoamos o tempo todo."
Até hoje Alice Munro não rompeu sua posição de aposentar-se da literatura. Aos 82 anos de idade, permanece fiel em não escrever mais nada. Mesmo com o Nobel nas mãos.

SERVIÇO
"Vida Querida"
Autor – Alice Munro
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Caetano W. Galindo
Páginas – 320
Quanto – R$ 37 e R$ 26 (e-book)

Ela vai para a cama, a carta para ele ainda por terminar. Ela acorda cedo, quando o céu está ficando claro, apesar de o sol ainda não ter nascido. Sempre tem uma manhã em que você percebe que os pássaros foram todos embora. Ela sabe de alguma coisa. Descobriu enquanto dormia. Não existe notícia alguma para dar a ele. Não existe porque nunca existiu. Não há notícia alguma sobre Lillian, porque Lillian não faz diferença e nunca fez. Não há caixa postal alguma, porque o dinheiro vai direto para uma conta ou talvez para a uma carteira. Despesas gerais. Ou um modesto pé-de-meia. Nem se pode chamar de bônus inesperado. Não há por que explicar. Ela levanta e se veste rapidamente e anda por todos os cômodos da casa, apresentando a nova ideia às paredes e à mobília. Há uma cavidade em todo lugar, especialmente em seu peito. Ela faz café e não bebe. Acaba no quarto novo, e descobre que as apresentações à realidade atual precisam ser fitas novamente. (Fragmento de "Vida Querida", de Alice Munro)
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