LEITURA - O valor que não pode ser tocado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de maio de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Ao publicar, em 2012, o volume de contos "Vida Querida", a escritora canadense Alice Munro afirmou que este seria seu último livro. Estava com 81 anos de idade e decidida em retirar-se da literatura.
Tudo apontava tratar-se de mais um caso de escritores que, ao chegarem a determinada idade, assumem a opção de pendurar as chuteiras. Com Alice Munro a situação foi inusitada. Logo após declarar sua aposentadoria foi agraciada com o prêmio Nobel de Literatura de 2013.
"Vida Querida", lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, é uma síntese de seu trabalho literário. Reúne 13 contos que trazem todas as características de sua narrativa. A de colocar maior valor naquilo que permanece oculto do que naquilo que é revelado pelas palavras. A capacidade de revelar o todo a partir de pequenas partes. A determinação de colocar em evidência personagens femininas vivendo em pequenas cidades e vilarejos rurais, mulheres reféns do casamento e da maternidade.
Nos contos de "Vida Querida", a lembrança da realidade sempre se apresenta maior do que a própria realidade. Ou seja, a dimensão que a memória oferece da realidade é maior e mais simbólica que a própria realidade. Algo como viver apenas para poder lembrar-se dos acontecimentos. Nesse processo as lembranças adquirem muito mais sentido do que os fatos. Ou, com mais crueldade, a memória dos acontecimentos teria muito mais vida do que os próprios acontecimentos.
Entre os contos presente em "Vida Querida", alguns merecem destaque, entre eles "Corrie" e "Trem". Apresentando fatos e acontecimentos do cotidiano, Alice Munro deixa transparecer aquilo que parecia humanamente oculto. As surpresas da monotonia não são tratadas apenas como surpresas, mas como situações que exigem força ou indiferença. E o interessante é que a indiferença, que poderia ser encarada como algo indesejável, assume a forma de naturalidade construtiva.
Nos contos de Alice Munro existem coisas que não poder ser refeitas e coisas que pode ser relembradas sob novas perspectivas. Entre uma e outra opção, a existência das personagens encara desafios do cotidiano com se lutassem contra moinhos de ventos invisíveis. Moinhos gigantes. E é essa parte oculta, discreta e incontável, que merece atenção. Justamente a parte que não deve ser narrada explicitamente.
Alice Munro nasceu em 1931, em Wingham, Canadá. Com dezenas de prêmios literários nas mãos, é considerada a autora de maior destaque da literatura canadense de língua inglesa da atualidade. Possui, além de "Vida Querida", outros quatro volumes de contos publicados no Brasil: "Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento" (Globo, 2003), "Fugitiva" (Companhia das Letras, 2006), "Felicidade Demais" (Companhia das Letras, 2010) e "O Amor de Uma Boa Mulher" (Companhia das Letras, 2012).
No final de "Vida Querida", Alice Munro insere quatro textos que não classifica como contos, mas como narrativas autobiográficas: "Não são exatamente contos. Eles formam uma unidade à parte, que é autobiográfica em espírito, apesar de não o ser inteiramente, às vezes, de fato. Acredito que eles sejam as primeiras e as últimas e mais íntimas coisas que eu tenho a dizer sobre minha vida."
São textos que apresentam episódios marcantes que, de um modo ou de outro, são capazes de dar origem a cicatrizes mentais ou psíquicas. Episódios resolvidos que, com o passar das décadas, se concluem com as seguintes palavras: "Nós dizemos de certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos perdoar. Mas perdoamos perdoamos o tempo todo."
Até hoje Alice Munro não rompeu sua posição de aposentar-se da literatura. Aos 82 anos de idade, permanece fiel em não escrever mais nada. Mesmo com o Nobel nas mãos.
SERVIÇO
"Vida Querida"
Autor Alice Munro
Editora Companhia das Letras
Tradução Caetano W. Galindo
Páginas 320
Quanto R$ 37 e R$ 26 (e-book)


