No mais recente romance da escritora norte-americana Siri Hustvedt as mulheres ocupam todo o sentido narrativo. Os homens não têm espaço. Quando encontram alguma fresta para colocarem o dedo, é apenas para provocar dor e criar problemas nas mulheres.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "O Verão Sem Homens" é um romance de mulheres e sobre mulheres. Os homens ficam confinados na casinha do cachorro, latindo e rosnando – e, sempre que possível, se engraçando com qualquer rabo que balance na rua.
Siri Hustvedt narra uma história comum. O fim de um casamento do ponto de vista feminino. A crise de um casamento de mais de 30 anos de existência entre Mia e Boris. Ela poeta e professora, ele cientista. Um belo dia Boris pede uma pausa, um tempo, na relação. A "pausa", no caso, tem peitos generosos e 20 anos a menos que Mia e trabalha no mesmo laboratório que Boris.
Mia entra literalmente em parafuso. Completamente arrasada, tem um colapso nervoso e precisa passar alguns dias internada numa clínica psiquiátrica. Quando recebe alta, resolve passar um tempo na pequena cidade onde nasceu.
Aluga uma casa na zona rural e passa os dias tentando colocar a cabeça e o coração em ordem para superar o fim de seu casamento. Sua relação com o mundo externo se restringe apenas às mulheres. Visita diariamente o condomínio de idosas onde vive sua mãe e dúzias de outras velhinhas viúvas. Ministra um curso de poesia para um grupo de meninas pré-adolescentes. Conversa regularmente com a jovem vizinha que possui dois filhos pequenos e um marido ausente e violento.
Imersa na crise, a personagem passa a viver cercada de mulheres de variados tipos, idades, problemas e aspirações. Entre a diversidade, três vertentes básicas. Idosas no final da vida convivendo com a solidão e a degeneração física, vivendo das lembranças do passado. Meninas competindo entre si para ver quem aparece mais e atrai a mais atenção dos garotos. Esposas tentando se afirmar enquanto mulher sem precisar do marido como provedor e protetor.
Com essa configuração, Siri Hustvedt desenha um universo feminino onde aparentemente todos os problemas possuem origem no mundo masculino. Aparentemente porque no desenrolar dos acontecimentos uma revelação começa a tomar forma. Os problemas das mulheres não são os homens. Os problemas das mulheres são as próprias mulheres. A solução dos problemas das mulheres não está nos homens. A solução dos problemas das mulheres está nas próprias mulheres.
"O Verão Sem Homens" pode ser encarado como uma lição de como uma mulher pode sobreviver depois do marido, inesperadamente, dar um pé na bunda após três décadas de união.
Apesar de repleta de sentimentalidades, a narrativa se destaca pela auto-ironia da personagem principal, Mia. Sua capacidade de unir emotividade e auto-ironia oferece novos contornos ao ressentimento e ao amargor do final de um matrimônio. É possível encontrar frases como essa: "Os viúvos casam de novo porque o casamento facilita a vida deles. As viúvas nunca se casam, porque isso dificulta a vida delas".
Nascida em 1955, Siri Hustdet é mais conhecida como ficcionista, mas possui uma vasta produção ensaística. Esposa do escritor Paul Auster, possui outros três romances publicados no Brasil, "O Que eu Amava" (2004), "O Encantamento de Lily Dahl" (2008) e "Desilusões de um Americano" (2010), todos pela Companhia das Letras.

Serviço:
"O Verão Sem Homens"
Autor – Siri Hustvedt
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Alexandre Barbosa de Souza
Páginas – 198
Quanto – R$ 39,50 e R$ 28 (e-book)


A banalidade da história – o fato de que isso se repete todos os dias ‘ad nauseam’ por homens que descobrem súbita ou gradualmente que o que É não PRECISA SER e então se livram das mulheres envelhecidas que cuidaram deles e dos filhos durante anos – não cala a angústia, o ciúme nem a humilhação que recai sobre quem foi deixada para trás. Mulheres desprezadas. Chorei, gritei, bati com meus punhos na parede. Ele ficou assustado. Queria paz, queria ser deixado em paz para seguir seu caminho com alguém com quem não tinha nenhum passado, nenhuma dor compartilhada, nenhuma tristeza, nenhum conflito. E no entanto ele disse uma "pausa", não um "ponto final", para manter a narrativa em andamento, caso mudasse de ideia. Uma fresta de esperança cruel. (Fragmento de "O Verão Sem Homens" de Siri Hustvedt)
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