Algo como fechar numa mesma caixa o sentimento de culpa e a vontade de fuga. Parece lógico que, num primeiro momento, cada um se isole num canto, ruminando no escuro. Também parece lógico que, num segundo instante, culpa e fuga se abracem, unidas como se fossem um único corpo em sentimento e vontade.
Essa formação de um corpo único entre a culpa e a fuga é a alma central de ''Ironweed'', romance do escritor norte-americano William Kennedy que chega às livrarias na próxima semana lançado pela editora Cosac Naify. O livro tem uma trajetória curiosa. Recusado por mais de uma dezena de editoras, foi finalmente publicado após a intervenção inconformada do escritor Saul Bellow, ganhador Nobel de Literatura de 1978.
Lançado originalmente em 1983, ''Ironweed'' ganhou vários prêmios, rendeu bolsas para William Kennedy, tronou-se um best-seller e foi transformado em filme por Hector Babenco em 1987. Lançado no Brasil em 1986 pela editora Francisco Alves com o título ''Vernônia'', chegou a ter 13 edições e depois caiu na poeira do limbo dos sebos.
Ninguém esperava que a história de um perdedor chamado Francis Phelan, um típico vagabundo alcoólatra da década de 30 vivendo totalmente à margem do ''sonho americano'', se tornaria um dos grandes romances da história da literatura norte-americana. É evidente que ''Ironweed'' é muito mais que uma história sobre perdedores, é o retrato de como a culpa e o remorso podem atormentar o ser humano. Uma espécie de tormento que impulsiona a eterna busca pela redenção que, por mais necessária e desejada, invariavelmente será alcançada.
William Kennedy narra o retorno de Francis Phelan à sua cidade natal, Albany, após duas décadas vagando pelo país como andarilho. Perambulando bêbado pelas ruas, o personagem segue encontrando os fantasmas do passado, tanto os vivos como os mortos. Conversa com pessoas vivas e mortas tentando acertar as contas com o passado.
Francis Phelan era um talentoso jogador de beisebol que, um belo dia, num momento de descuido, deixa cair do colo seu terceiro filho de poucos dias de vida. Na queda, o bebê quebra o pescoço e Francis abandona tudo, família, trabalho e profissão para se tornar um mendigo. Sua maneira de se relacionar com o sentimento de culpa é todo direcionado para o desejo de fuga.
Assim, vive duas décadas fugindo. Mas essa fuga assume proporções maiores, incorporando várias fugas por uma coleção de remorsos que vão se acumulando ao longo dos anos. Ao seu lado junta-se Helen, uma talentosa pianista e cantora que igualmente, em determinado trauma da vida, abandona tudo para viver na condição de mendiga.
A grande maioria dos romances de William Kennedy, nascido em 1928, está interligada. Seu grande projeto, dentro do chamado ''Ciclo de Albany'', é narrar a história da família Phelan, descendentes de imigrantes irlandeses que se fixaram na cidade de Albany. Em cada romance ele apresenta a história de um membro da família, alguns agregados e outros desagregados.
Na narrativa de ''Ironweed'' (literalmente ''erva de ferro'', nome de uma flor da espécie do girassol que possui um caule muito resistente, chamada de vernônia na América do Sul), mortos e vivos ocupam o mesmo espaço em delírio. Diante do fracasso, as expiações, nem sempre lógicas, excluem toda e qualquer manifestação de amor. Uma pedrada na cabeça. Como uma caixa fechada com a culpa e a fuga dentro. A caixa craniana. A caixa torácica.
Serviço
Editora - Cosac Naify
Tradução - Sergio Flaksman
Quanto - R$ 55 (272 págs. capa dura)

''Àquela altura, Francis só tinha certeza de que jamais conseguiria chegar a qualquer conclusão acerca de si mesmo com base na razão. Mas tampouco se julgava incapaz de pensar. Ainda assim, toda vez que admitia ser uma alma tortuosa, Francis reafirmava sua sabedoria pessoal, bem como o seu objetivo: fugia das pessoas porque era uma criatura profana demais para viver no meio delas; humilhava-se sistematicamente ao longo dos anos para compensar um orgulho terrível por sua capacidade de forjar a glória da qual a graça haveria de decorrer. O que ele era, justamente, um guerreiro, empenhado na proteção de uma fé que homem nenhum conseguia articular, muito menos ele próprio; mas de algum modo sua crença implicava proteger os santos dos pecadores, proteger os vivos dos mortos. E um guerreiro, ele tinha certeza, nunca seria uma vítima. Nunca uma vítima.
No ponto mais profundo de si mesmo capaz de chegar a uma conclusão inexprimível, ele se disse: Minha culpa é tudo que me resta. Se ela desaparecer, é que eu nunca signifiquei nada, nunca fiz nada, nunca fui nada''.
(Fragmento de Ironweed de William Kennedy)



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