Existem centenas de livros que deram origem a filmes. Montanhas de romances que deram origem a adaptações cinematográficas. Mas o inverso é pouco comum. Não é usual encontrar filmes que deram origem a livros. Não estamos falando de trombar com roteiros publicados em forma de livro, mas obras literárias baseadas em determinados filmes.
''Meu Tio'', filme do cineasta francês Jacques Tati (1907 - 1982) é um desses casos pouco comuns. Filmado em 1958, deu origem não apenas a um livro, mas dois: ''Meu Tio'', romance do escritor e roteirista francês Jean-Claude Carrière e ''Na Garupa do Meu Tio'', livro-imagem do ilustrador belga David Merveille. Ambos chegam às livrarias na próxima semana lançados pela editora Cosac Naify. A edição de ''Meu Tio'' de Carrière vem acompanhada de ilustrações de Pierre Étraix, palhaço e humorista que colaborou com vários filmes de Tati.
No filme de Jacques Tati o destaque está na figura cômica do personagem principal, o solteirão e eterno desempregado Sr. Hulot. Dotado de um humor peculiar e desajeitado, trata-se de um sujeito que pode se chamar de figuraça. Distante de qualquer tipo de preocupação, vive andando pelas ruas com sua bicicleta motorizada trombando com as situações mais hilárias. Sem grandes aspirações sociais ou econômicas, gasta seu tempo jogando conversa fora com pessoas simples e comuns. O Sr. Hulot desenhado por Jacques Tati é uma espécie de contraponto irônico ao impiedoso processo de modernização do século 20.
Em ''Meu Tio'', Jean-Claude Carrière apresenta a figura do Sr. Hulot a partir da visão de seu sobrinho de oito anos de idade. O garoto vive entre dois mundos. De um lado sua vida dentro de casa sob os domínios do pai, um rígido empresário, e da mãe, uma dona de casa fissurada por limpeza e novos eletrodomésticos. Uma casa onde tudo está calculado, tudo ocorre de acordo com as normas sociais, onde a rotina segue regras matemáticas.
De outro lado, sua vida passeando ao lado do tio Hulot, perambulando pelas ruas, experimentando toneladas de coisas novas e inesperadas. Nesses passeios, o menino entra em contato com novas pessoas, novos lugares, novos cheiros, novas sensações e novas percepções. Situações completamente opostas daquelas que experimenta ao lado do pai e da mãe, pautadas por convenções e artificialidades. É justamente entre dois mundos que o garoto começa a traçar sua própria compreensão da vida, das relações humanas e do mundo. Uma experiência que possui divertidos toques de humor e, ao mesmo tempo, num plano mais sutil, pequenos seixos de uma tristeza milenar.
A narrativa de Carrière está estruturada a partir de uma simplicidade monstruosa. Não aquele tipo de simplicidade onde a obviedade acende enormes holofotes no escuro, mas aquele tipo de simplicidade que acende pequenas sabedorias. E, ao mesmo tempo, grandes e eternos impasses.
Em ''Na Garupa do Meu Tio'', David Merveille não se baseia em um filme específico de Jacques Tati para criar uma narrativa de imagens, sem uma única palavra. Inspira-se na figura do Sr. Hulot, personagem de praticamente cinco filmes do cineasta, para criar uma aventura repleta de surpresas, detalhes e bom humor. Através de dobraduras das páginas, o leitor percorre imagens sequênciais que simulam a linguagem cinematográfica da sucessão de quadros. Idealizado para crianças, a obra é um belo exemplar do gênero ''livro-imagem'', que começa lentamente a ganhar espaço no mercado editorial brasileiro.

Serviço


- Meu Tio

Autor - Jean-Claude Carrière
Ilustrações - Pierre Étaix
Editora - Cosac Naify
Tradução - Paulo Werneck
Quanto - R$ 37 (176 págs.)

- Na Garupa do Meu Tio

Autor - David Merveille
Editora - Cosac Naify
Quanto - R$ 42 (176 págs.) capa dura

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