Bernardo Carvalho aproxima a violência da guerra da desilusão amorosa
Bernardo Carvalho aproxima a violência da guerra da desilusão amorosa | Foto: Renato Parada/Divulgação



As relações amorosas estão infestadas de jogos de todos os tipos e cores. O dominador e o dominado. O forte e o fraco. O ativo e o passivo. O canalha e o anjo. O sólido e o estéreo. O seco e o aguado.
As implicações do amor podem impressionar até os corações mais pacatos. Em seu novo romance, "Simpatia Pelo Demônio", o escritor carioca Bernardo Carvalho investiga as implicações do amor em uma de suas formas mais complexas: as relações entre amor e violência.
Bernardo Carvalho coloca num mesmo plano narrativo a violência individual e os atentados terroristas, as punhaladas do amor e a guerra entre povos, a paixão privada e o amor humanitário. A violência invisível dentro das relações amorosas se comunica com as guerras étnicas e os atentados terroristas em nome de algum deus, de alguma ideologia, de algum dogma.
"Simpatia Pelo Demônio" traz a história de Rato, um homem de meia-idade funcionário de uma agência humanitária de Nova York. O sujeito vive viajando mundo afora atuando em zonas de conflitos étnicos e religiosos como mediador de paz. Autor de uma aclamada tese sobre os mecanismos da violência humana, defende uma visão de pacificação do mundo.
Passando uma temporada em Berlim, Rato rumina o final de um casamento de décadas. Longe da ex-esposa e da filha, se apaixona por um mexicano apelidado de Chihuahua, um neurocientista que pesquisa as origens da violência na humanidade.
A paixão entre Rato e Chihuahua tem consequências devastadoras. Principalmente para Rato, que se joga numa relação que, com o passar do tempo, se revela uma perigosa armadilha. Aquilo que parecia ser um amor para revitalizar a existência, acender a esperança, se revela um jogo de aniquilamento, uma derrocada em direção ao abismo.
A grande surpresa de "Simpatia Pelo Demônio" está em Bernardo Carvalho não narrar uma história a partir da obviedade presente nas relações entre amor e violência. Seu caminho é mais intrincado. O jogo entre o dominador, o forte, e o dominado, o frágil, sofre uma profunda inversão. O fragilizado assume o papel de dominador e o forte assume o papel de dominado.
Os personagens criam uma atmosfera de onde o amor incondicional e desejo individual entram em campo já sabendo quem será o grande derrotado no jogo. E atrás do amor sempre existe, em maior ou menor grau, uma forma de narcisismo: "Você não me ama, só ama a si mesmo, mas o amor que eu também sinto por mim me faz te querer de qualquer jeito, apesar do seu amor por si mesmo, ou talvez por causa dele."
A narrativa de "Simpatia Pelo Demônio" realiza uma sucessão de voltas em si mesma. Em sua estrutura, passado e presente se intercalam e se relembram e se associam. No passado há o conturbado caso de amor entre Rato e Chihuahua. No presente há a missão de Rato em visitar uma zona de guerra entre radicais facções islâmicas para resgatar um refém sequestrado.
A violência real de guerra encontra eco na violência da paixão. E a tese é direta: a violência coletiva (guerras, massacres, terrorismo) nasce de um desejo individual. No processo de realização de um desejo de amor, o ser humano pode utilizar as ferramentas mais abomináveis e violentas. O mesmo processo poderia ser estendido aos desejos ideológicos, religiosos, econômicos e políticos dos povos e nações.
"Simpatia Pelo Demônio" oferece múltiplas leituras. Há um verdadeiro universo de possibilidades de entendimento entre o amor e a violência. Trata-se do primeiro romance em que Bernardo Carvalho coloca a homossexualidade como componente narrativo. E faz isso de um modo universal onde as paixões homossexuais seguem os mesmos caminhos das paixões heterossexuais. As questões de gênero não ganham nenhuma dimensão na história narrada, apenas a igualdade das questões humanas recebe dimensionamento.
Em síntese, a história de um sujeito que passou a vida promovendo a paz coletiva em nome do amor humanitário e, um belo dia, encontra a guerra dentro de si em função de um amor pessoal, traiçoeiro e manipulador. A questão não está em apenas amar o outro, mas em ser amado pelo outro.

Serviço:
"Simpatia Pelo Demônio"
Autor – Bernardo Carvalho
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 240
Quanto – R$ 44,90 e R$ 30,90 (e-book)

A verdade é que os perversos estão sempre aquém das perversões. Você é adulto, já devia ter entendido. A perversão precisa de um fraco para existir, mas o fraco nem sempre é a vítima. O perverso precisa ser um pouco burro, como o parasita que mata o corpo que o hospeda e do qual ele precisa para sobreviver. Ele precisa supor que a vítima seja mais burra do que ele. Acontece que nem toda vítima é mais burra que o algoz. E, para essa vítima, o efeito do jogo do perverso pode ser uma desilusão, mas não é a morte. Não. Pelo menos, não a sua morte. O efeito da perversão sobre a vítima mais inteligente que o perverso é no máximo uma decepção, é a morte do amor. Mas qual é a graça? Nesse caso, o perverso não passaria de um desmancha-prazeres com uma função educadora. E sua ação seria tão nociva quanto a de uma dedicada professora de escola primária. (Fragmento de "Simpatia Pelo Demônio", de Bernardo Carvalho)
Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - O terror do amor
| Foto: Reprodução
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