LEITURA - O terceiro lado da moeda
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Quando um escritor não sabe muito bem o que escrever, decide escrever um livro narrando a história de um escritor tentando escrever um livro. Existem pilhas de obras assim. Principalmente de autores jovens tentando resolver suas crises diante do papel em branco.
Essa eterna e surrada narrativa de um escritor tentando escrever um livro marca o enredo do novo romance de Lourenço Mutarelli, "O Grifo de Abdera". Vale lembrar que seu romance anterior, "Nada Me Faltará", foi publicado cinco anos atrás, em 2010. Antes havia lançado "Miguel e os Demônios", em 2009, e "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa", em 2008. Ou seja, após uma fase profícua, três livros lançados em três anos, o autor deu um tempo e voltou com um livro sobre um escritor tentando escrever um livro.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "O Grifo de Abdera" possui todas as esquisitices típicas da escrita de Mutarelli, mas falta literatura. A aposta do escritor paulista é de que a vida trivial e a rotina corriqueira de uma pessoa comum é mais interessante que a literatura. Uma aposta provocadora, mas que também pode culminar em tédio.
A figura o duplo é a espinha dorsal da obra. O romance é narrado por um escritor chamado Mauro Tule Cornelli que, por sua vez, possui um duplo chamado Oliver Mulato. Mauro e Oliver levam suas vidas de maneira independente, mas estão ligados através da consciência.
Para complicar um pouco, Mauro assina seus livros e histórias em quadrinhos sob o pseudônimo de Lourenço Mutarelli. E para assumir a fachada pública de Lourenço (para aparecer em fotos, lançamentos, feiras de livros, festivais literários, etc), Mauro escolhe Raimundo Maria da Silva. Mais conhecido como Mundinho, Raimundo é um malandro cachaceiro que passa o dia todo num boteco de esquina. E aceita o papel em troca de uma dose de cachaça.
O grande interesse de Mauro é escrever a história de seu duplo, Oliver, mas apenas a conexão de consciência não é suficiente, é necessário um contato de carne e osso. Para desenvolver uma proximidade, Mauro propõe a Oliver uma parceria na criação de uma história em quadrinho.
Oliver é um ex-atleta que após um acidente passa a atuar como professor de educação física. No período em que se recupera do acidente, descobre que é portador de Síndrome de Tourette e começa a desenhar uma história em quadrinhos maluca. Essa história em quadrinhos integra "O Grifo de Abdera" e é literalmente uma viagem. Formada por livres associações, na verdade é uma experimentação gráfica com uma montanha de personagem que habitam um tempo onírico. Procurar sentido em suas páginas é como procurar uma agulha num palheiro.
Esse elemento experimental também se expande para o próprio texto da narrativa. Lourenço Mutarelli coloca em prática o que chama de "exercício literário". Em outros romances de sua autoria esse exercício funciona de maneira instigante, mas em "O Grifo de Abdera" se aproxima do tédio.
O título do romance vem de uma moeda antiga que aparece nas mãos de Mauro. Em uma de suas duas faces está gravada a imagem de um grifo que lembra a figura do diabo. O objeto entra e sai da narrativa apenas como uma curiosidade. O terceiro lado da moeda, que é sugerido, não se revela.
Nascido em 1964, Lourenço Mutarelli antes de se tornar escritor era um dos mais renomados autores de quadrinhos do País. Álbuns como "Transubstanciação" (1991) e "Diomedes" (1999) tornaram-se referência obrigatória do quadrinho brasileiro. Ficou mais conhecido quando seus livros começaram a ser adaptados para o cinema, entre eles, "O Cheiro do Ralo" (2007) e "Natimorto" (2011).
Serviço:
"O Grifo de Abdera"
Autor Lourenço Mutarelli
Editora Companhia das Letras
Páginas 272
Quanto R$ 49,90


