Transformar a loucura em razão. Converter metafísica em crime. Essa é a tarefa idealizada por Ernesto Sabato no romance ''O Túnel'' que acaba de ser reeditado pela editora Companhia das Letras. Trata-se do mais febril e cultuado texto ficcional do escritor argentino. Narra a história de Castel, um atormentado pintor que narra os acontecimentos e sentimentos que o levaram a matar a mulher que amava.
''O Túnel'' pode ser encarado como uma espécie de ''O Estrangeiro'', romance do escritor Albert Camus (1913 - 1960), ao contrário. Se em ''O Estrangeiro'' o sentido do ato de tirar a vida de alguém aparece somente após a realização do ato, em ''O Túnel'' o sentido do ato se constrói antes da realização do assassinato.
Apaixonado por uma mulher desconhecida, Castel vê seu amor se transformar em tormento doentio. Não correspondido da maneira que idealiza, começa a entrar em parafuso dentro do próprio funcionamento de sua razão. Sua relação com a mulher que ama é esmiuçada pela ''lógica do eu''. Todo e qualquer ato da amada passa a ser considerado um inimigo a ser abatido.
A narrativa, através da voz de Castel, transforma a loucura em razão. A desrazão da força dos sentimentos é convertida em argumentos racionais impelidos a construírem uma realidade individual. O próprio Sabato afirma que escreveu ''O Túnel'' numa espécie de desvario: ''Enquanto escrevia, arrastado por sentimentos confusos e impulsos inconscientes, muitas vezes me detinha, perplexo, para avaliar o que estava saindo, tão diferente do que havia previsto. E, sobretudo, me intrigava a importância crescente que iam assumindo o ciúme e o problema da posse física.''
''O Túnel'' é uma obra visceral em que o leitor não fica impune ao processo destrutivo que perfura Castel. Perturbador porque converte sentimentos elevados em ações violentas. Nas palavras de Sabato, ''as ideias metafísicas se transformam em problemas psicológicos, a solidão metafísica passa a ser o isolamento de um homem concreto numa cidade concreta, o desespero metafísico se transformam em ciúme, e a história que parecia destinada a ilustrar um problema metafísico se transforma em romance de paixão e crime''.
A história de vida de Ernesto Sabato é pouco comum para um escritor. Alguém que se agarrou à literatura como um náufrago se agarra a uma pequena ilha em alto-mar. Sabato nasceu na Argentina em 1911. Doutor em física, era considerado um grande especialista em termodinâmica. Trabalhando no Laboratório Curie, em Paris, tinha um futuro promissor como cientista. Mas, aos trinta anos de idade, no auge da carreira científica, largou tudo. Sentia-se corroído por um inexplicável vazio.
Voltou ao seu país, arrumou uma casa no meio do mato, uma espécie de solitária cabana sem energia elétrica ou qualquer tipo de conforto, e passou a viver isolado da civilização. Nesse período, começou a se dedicar à literatura. ''O Túnel'', seu primeiro romance, foi publicado em 1948. Escrito de uma forma vigorosa e inundada por um pessimismo filosófico, o livro rapidamente ganhou edições em todo o mundo. Depois escreveu apenas outros dois romances ''Sobre Heróis e Tumbas'' (1961), ''Abadon, o Exterminador'' (1974). Sua produção ensaística foi mais extensa, entre os vários títulos estão ''Homens e Engrenagens'' (1951), ''Nós e o Universo'' (1945) e ''O Escritor e Seus Fantasmas'' (1963).
Quando passou a ser considerado um dos grandes escritores argentinos do século 20, Ernesto Sabato simplesmente abandonou a literatura para se dedicar à pintura. No final da década de 70, trocou o lápis pelo pincel. Hoje, com problemas de saúde, reside em Buenos Aires próximo de completar 98 anos de idade.
Apesar de se esforçar em ver alguma esperança para o homem, em seu livro de memórias ''Antes do Fim'' (1948), Sabato apresenta sua descrença em relação a um futuro do mundo. Em seu pensamento, o homem contemporâneo ao perder suas utopias, perdeu o sentido de sua própria vida: ''Só quem for capaz de encarnar a utopia está qualificado para o combate decisivo, o de recuperar o quanto de humanidade já perdemos.''

SERVIÇO
- O Túnel
Autor - Ernesto Sabato
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Sérgio Molina
Quanto - R$ 36 (152 pág.)

''- Não, não é que fosse mais superficial - acrescentei, como se falasse a mim mesmo. - Não sei, tudo isso tem algo a ver com a humanidade em geral, entende? Lembro que dias antes de pintá-la eu tinha lido que num campo de concentração alguém pediu comida e obrigaram essa pessoa a comer uma ratazana viva. Às vezes acho que nada tem sentido. Em um planeta minúsculo, que há milhões de anos corre em direção ao nada, nascemos em meio a dores, crescemos, lutamos, adoecemos, sofremos, fazemos sofrer, gritamos, morremos, morrem e outros estão nascendo para voltar começar a comédia inútil.
Será isso realmente. Fiquei refletindo sobre essa ideia de falta de sentido. Toda a nossa vida seria uma série de gritos anônimos em um deserto de astros indiferentes?''
(Fragmento de 'O Túnel' de Ernesto Sabato)

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