LEITURA - O sonho dos labirintos
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de julho de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A obra de Jorge Luis Borges (1899 - 1986) é extensa, aproximadamente 50 títulos dos mais variados gêneros - conto, poesia, artigo, ensaio, conferência, etc. Sobre sua literatura há uma quantidade astronômica de ensaios e estudos. Há uma espécie de unanimidade sobre sua figura como um dos grandes nomes da literatura do século 20.
Borges defendia que todo escritor deveria escrever para a alegria do leitor. Afirmava que um livro não deveria exigir esforço de leitura por parte do leitor, pois a felicidade não deveria exigir nenhum tipo de esforço. Para o escritor argentino, a leitura deveria ser uma experiência de felicidade, nunca de tortura.
Apesar da tese defendida por Borges, seria um equívoco considerar que todos seus 50 livros são fábricas de felicidade nos olhos do leitor. O próprio escritor organizou e revisou suas obras completas pouco antes de morrer, em 1985. Reuniu seus textos em três volumes, acompanhando a ordem cronológica em foram escritos e publicados, entre 1923 e 1985. Seguindo princípios íntimos, recusou alguns escritos que considerava fracos e desnecessários, parte deles fruto da inexperiência juvenil.
Após sua morte ocorrida em 1986, Maria Kodama, viúva detentora de seus direitos autorais, preparou um novo volume com textos que Borges optou por deixar de fora de suas obras completas e alguns textos esquecidos. O fato causou polêmica. Kodama alegava que os textos recusados pelo escritor poderiam oferecer uma maior compreensão de sua obra.
Esses quatro volumes das obras completas foram publicados no Brasil em 1999 pela Editora Globo. Até então, os livros de Jorge Luis Borges publicados no país giravam apenas em torno de uma dezena de títulos. No final de 2007 a Editora Companhia das Letras comprou os direitos da obra do escritor e passou a colocar nas livrarias uma nova edição de suas obras completas, cada livro separadamente. Inicialmente foram lançados quatro títulos, ''Ficções'', ''Outras Inquisições'', ''Primeira Poesia'' e ''O Livro dos Seres Imaginários''. No mês passado mais três títulos foram lançados: ''O Aleph'', ''O Fazedor'' e ''Discussão''.
Para atingir a felicidade na literatura Jorge Luis Borges, o leitor não precisa ler suas obras completas. Basta apenas alguns títulos. Dos sete relançados pela Companhia das Letras, ''O Aleph'' e ''Ficções'' ocupam lugar de destaque. Neles está gravada a literatura borgiana em seu mais alto estado onírico. São dois volumes de contos onde a idéia de tempo e de infinito colocam os pés no território do extraordinário, transformando a realidade em algo totalmente manipulável.
Borges considerava os sonhos como a atividade estética mais antiga do mundo. Os homens cegos, aqueles privados do sentido da visão, estariam mais próximos do mundo dos sonhos. O passado, para ele, era uma série de sonhos. E não conseguia ver diferença entre recordar o passado e recordar os sonhos. Desde a juventude sabia que um dia poderia ficar cego devido a uma doença hereditária. Homem dos livros e das letras, perdeu lentamente a visão. A cegueira total o alcançou em 1956, aos 57 anos de idade. Borges via os sonhos como labirintos, um de seus temas mais obsessivos, já que todos os indivíduos podem apenas falar da memória que tem dos sonhos, nunca dos sonhos em si. Nesse terreno ergueu sua literatura.
O singular estilo de sua obra (poesia, contos e ensaios) deu origem ao termo ''borgiano'', assim como a obra de Franz Kafka (1883 - 1934) deu origem ao termo ''kafkiano''. Borges construiu sua obra utilizando a literatura como protagonista, como o grande tema. O combustível que alimentava seus escritos não era prioritariamente a vida, mas a literatura universal.
Jorge Luis Borges atribuía igual valor em ler ou escrever um livro. De certo modo, conferia maior importância ao ato de ler por sua capacidade de oferecer ''felicidade''. Partindo da idéia de Ralph Emerson (1803 - 1882), de que um livro fechado ''é uma coisa entre coisas'', declarava que ''cada leitor é um criador, um colaborador, do texto''. Considerava que os textos literários possuem uma característica diferenciada: ''não pelo modo como são escritos, mas pelo modo como são lidos''.
Após perder a visão, afirmava que sua identidade pessoal era a memória: ''Tendo a esquecer minhas circunstâncias. Desde logo, ignoro minhas datas e me recordo, em compensação, de versos e parágrafos que li. Minhas lembranças mais vividas não são de coisas que me aconteceram, mas de textos que li. É uma memória singular, uma espécie de antologia''.
SERVIÇO
- Aleph
Autor - Jorge Luis Borges
Editora - Companhia das Letras
Tradução - David Arrigucci Jr.
Páginas - 172
Quanto - R$ 33
- O Fazedor
Autor - Jorge Luis Borges
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Josely Vianna Baptista
Páginas - 120
Quanto - R$ 29
- Discussão
Autor - Jorge Luis Borges
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Josely Vianna Baptista
Páginas - 192
Quanto - R$ 36


