O amor não é mais o mesmo.
Ou parece que não é mais o mesmo.
Com as transformações culturais e comportamentais das últimas décadas, muita gente está perdida. Homens e mulheres vivendo o amor moderno e, ao mesmo tempo, acalantando o amor antigo.
Em seu novo romance ''A Trama do Casamento'', o escritor norte-americano Jeffrey Eugenides traz um retrato da geração que se lançou nas corredeiras do amor com um pé em cada canoa. O moderno e o antiquado. Com um pé no otimismo romântico e outro no desencanto cínico. O fato é que, nessas águas, muitos se afogaram.
Lançado pela editora Companhia das Letras, ''A Trama do Casamento'' apresenta a trajetória de Madeleine, Leonard e Mitchell, três jovens no último ano da faculdade da década de 80. O desenho amoroso é o clássico José gosta de Maria que gosta de Antonio que não gosta de ninguém.
Madaleine, aluna do curso de letras, adora romances vitorianos do século 19, histórias sobre quem vai se casar com quem. Acontece que uma nova moda começa a invadir as discussões acadêmicas: a filosofia dos franceses Foucault, Baudrillard, Deleuze, Derrida e Lyotard. Embora se esforce em entender as novidades que pretendem desconstruir os discursos e as linguagens, a moça não engole a novidade. Ele acalenta a eterna construção, não a desconstrução do chão onde coloca os pés.
Mitchel, tímido, sensível e dedicado aos estudos, gosta de filosofia das religiões. Mesmo sem ter uma religião, é um crente e persegue algum fiapo de luz que diga respeito à verdade. Leonard adora biologia. Forte, tosco, lógico e desleixado, arrasta para cama todas as garotas da faculdade entre uma aula e outra.
Madeleine gosta de ambos. Embora se sinta melhor com Mitchel, a química acontece com Leonard. Então ela escolhe o óbvio: Leonard. Como o casamento não é mais um padrão, ambos simplesmente começam a viver sob o mesmo teto.
A trama pode parece boba, típico seriado norte-americano de televisão, mas Jeffrey Eugenides insere abordagens e complexidades nos meandros da história. Os três personagens seguem completamente perdidos rumo à idade adulta. O único que desenvolve algum lastro para permanecer com a cabeça fora da água e não se afogar é Mitchel. Ele é o único que cultivou algum romantismo dentro de si. Essa é a grande reviravolta narrativa proposta pelo autor: o romantismo feminino em processo de extinção.
A grande epifania de Madeleine surge durante a leitura de ''Fragmentos de um Discurso Amoroso'', obra do semiólogo francês Roland Barthes (1915 - 1980). Ela tromba com a seguinte frase: ''O discurso amoroso hoje é de uma extrema solidão''. E passará o resto da vida tentando colocar a sentença à prova sem resultado.
Nascido em 1960, Jeffrey Eugenides - ao lado de Jonathan Franzen - é o atual queridinho da crítica literária norte-americana. Possui uma obra relativa pequena, apenas três romances publicados. O primeiro, ''Virgens Suicidas'' (1993), foi transformado em filme por Sofia Coppola. O segundo, ''Middlesex'' (2002) foi agraciado com o Prêmio Pulitzer. O terceiro, ''A Trama do Casamento'' foi publicado originalmente no ano passado em seu país. Com uma matemática simples é possível constatar que Eugenides publica um romance exatamente a cada nove anos.
Com todo esse tempo para desenvolver um romance, não é sem motivo que os romances do escritor passeiem por várias esferas de entendimento. E não é sem motivo que Leonard, ao juntar os trapos com Madeleine, sofra um surto de psicose maníaco-depressiva e passa a viver de lítio. Também não é sem motivo que Mitchel siga para a Índia em busca de uma experiência mística ao lado de Madre Tereza de Calcutá. Igualmente não é sem motivo que Madeleine volte a se dedicar aos estudos dos romances vitorianos do século 19. Na corredeira das dúvidas, cada um escolhe um caminho para se perder.
Outra reviravolta narrativa proposta por Jeffrey Eugenides está no otimismo do final. Quando tudo parece caminhar para o cinismo evidente, acontece a restauração do imaginário da idealização.
O amor não é mais o mesmo, ou pelo menos parece que não é mais o mesmo, mas sua idealização permanece a mesma: o que confere sentido ao amor é sua idealização. Pode até parecer cinismo, mas é otimismo. Afinal, o mundo se tornou muito veloz para saber o que acontece dentro de cada pessoa.

Serviço:
- ''A Trama do Casamento''
Autor - Jeffrey Eugenides
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Caetano W. Galindo
Páginas - 458
Quanto - R$ 46

Fragmento:
''Fragmento de um Discurso Amoroso'' era a cura perfeita para a saudade. Era um manual de manutenção do coração, que usava apenas o cérebro como ferramenta. Se você usasse a cabeça, se percebesse como o amor era construído socialmente e começasse a ver os sintomas como algo puramente mental, se você reconhecesse que estar ''apaixonado'' era apenas uma ideia, aí você conseguia se libertar dessa tirania. Madeleine sabia tudo isso. A questão era que não estava funcionando. Ela podia ler as desconstruções do amor de Barthes o dia inteiro sem sentir que seu amor por Leonard diminuir num um tiquinho. Quando mais lia ''Fragmentos de um Discurso Amoroso'', mais se sentia apaixonada. Ela se reconhecia em cada página. Ela se identificava com o vago ''eu'' de Barthes. Ela não queria se ver libertada de suas emoções, mas sim ver confirmada a importância delas.

(Fragmento de ''A Trama do Casamento'' de Jeffrey Eugenides)

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