LEITURA - O sol sobre os telhados
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de março de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O escritor italiano Cesare Pavese tinha 41 anos, em 1950, quando se instalou em um apartamento na cidade de Turim. Realizou os últimos acertos do manuscrito de seu livro ''Diálogos com Leucó'' e engoliu um caminhão de barbitúricos. Deixou um bilhete sobre a mesa com as seguintes palavras: ''A todos perdoo e a todos peço perdão''.
Com esse gesto, o nome de Cesare Pavese passou a ser associado àquela típica figura solitária que, de uma hora para outra, decide colocar um ponto final na vida. Sua imagem passou a frequentar todo tipo de artigo ou estudo sobre o suicídio. Sua literatura ficou, equivocadamente, vinculada à ideia de um homem caminhando em direção ao abismo, em direção à morte voluntária. Uma das frases de sua autoria mais citada é justamente aquela que focaliza a dificuldade de se colocar em prática o suicídio: ''É um ato de ambição que só pode ser realizado depois de superada toda a espécie de ambição''.
''Trabalhar Cansa'', livro de poemas de Pavese que acaba de ser lançado pela Cosac Naify/7 Letras em edição bilíngue, oferece uma visão mais abrangente do escritor. Trata-se do primeiro livro publicado por Pavese e o único de poesia. Toda sua produção subsequente foi exclusivamente em prosa, envolvendo novelas e romances. Editado originalmente em 1943, foi escrito ao longo de uma década.
Segundo a lenda, o título original do livro escolhido pelo autor era ''Morrer Cansa''. O tipógrafo responsável pela composição das páginas, cansado pelas longas horas de trabalho, teria alterado o título, por ironia ou descuido, para ''Trabalhar Cansa''. Pavese percebeu o erro somente depois que os exemplares estavam nas livrarias e aceitou a alteração sem dramas.
Cesare não considerava ''Trabalhar Cansa'' uma coletânea de poesia, mas um livro com um conceito unitário. Seu interesse era partir do exemplo de obras como ''As Folhas da Relva'' de Walt Whitman e ''As Flores do Mal'' de Charles Baudelaire para criar uma espécie de cancioneiro. Numa época que as novas formas poéticas estavam explodindo as normas tradicionais, Pavese optou por utilizar métricas clássicas no interior dos versos.
Uma das principais características da escrita de Cesare Pavese em ''Trabalhar Cansa'' está em inserir nos poemas um latente procedimento narrativo. Além de utilizar os elementos naturais como forte referência, breves histórias habitam os poemas onde os protagonistas são camponeses na labuta do cotidiano, jovens vagando por descobertas, mulheres levantando as saias, bêbados conferindo sentido ao sol sobre os telhados, operários voltando para casa, etc. Figuras simples que ganham uma nova dimensão através do olhar de um narrador de olhos livres conhecendo a humanidade utilizando a percepção poética.
Nascido em 1808, Cesare atuou por muito tempo como tradutor de escritores de língua inglesa na Itália. Converteu para a língua natal obras de Herman Melville, Gertrude Stein, James Joyce, William Faukner, Walt Whitman e muitos outros. Integrou, ao lado de Ítalo Calvino, Elio Vittorini, Leone Ginzburg, Natalia Ginzburg e Guilio Einaudi a geração de literatos italianos que floresceu durante a Segunda Guerra Mundial.
No Brasil sua literatura frequentou as livrarias apenas durante a década de 80: ''O Belo Verão'' (Brasiliense, 1987), ''A Lua e as Fogueiras'' (Guanabara, 1986), ''Ofício de Viver'' (Bertrand Brasil, 1988) e ''Mulheres Sós'' (Brasiliense, 1988). Hoje, obras encontradas apenas em sebos. A Cosac Naify resgatou Cesare em 2001, publicando ''Diálogos de Leucó'', derradeiro livro do autor onde deuses mitológicos conversam sobre os ingredientes básicos e essenciais da vida.
Na temática latente dos escritos de Pavese está a eterna luta do ser humano em entender a solidão. A velha batalha entre a fatalidade do isolamento e o desejo de proximidade, algo que ele chamava de o grande problema da vida: ''Como romper a própria solidão, como comunicar-se com os outros''.
SERVIÇO
- Trabalhar Cansa
Autor - Pavere Cesare
Editora - Cosac Naify / 7 Letras
Tradução e introdução - Mauricio Santana Dias
Páginas - 400 (capa dura)
Quanto - R$ 59
(...)
Meus sentidos isolam as coisas que tocam
e as aceitam impassíveis: rumor de silêncio.
Sou capaz de entender cada coisa no escuro,
como sei que o meu sangue percorre estas veias.
A planície é um grande regato entre a relva,
um repasto de todas as coisas. Imóveis as plantas
e os minérios existem. Escuto o alimento nutrir
minhas veias de tudo o que vive no vale.
Não importa essa noite. O quadrante do céu
me sussurra uma cópia de sons, e uma estrela miúda
se debate no vácuo, distante dos pastos
e das casas, discorde. Não basta a si mesma
e precisa de muitas parceiras. No escuro, sozinho,
o meu corpo está calmo e se sente suspenso.
(Fragmento do poema 'Mania de Solidão' que integra 'Trabalhar Cansa' de Pavere Cesare)


