Assim como o tempo não pode ser tocado com as mãos, o espaço não é algo puramente material ao alcance dos dedos. Subjetivo, o espaço também é sentimento. Um sentimento que cria uma lógica existencial para o corpo em constante deslocamento.
Na literatura norte-americana esse conceito é secular, uma característica nascida do deslocamento através de extensões territoriais. Sam Shepard é um dos escritores que vem trabalhando com esse conceito como caminho natural.
Sam Shepard (Samuel Shepard Rogers), nascido em 1943, não é apenas um escritor de representação espacial pontuada por dramas familiares e amorosos. Além de dramaturgo, autor de quase 50 peças, também trabalha como ator e roteirista de cinema. Seu roteiro mais conhecido é ''Paris, Texas'' (1984), filme dirigido por Wim Wenders.
Ao longo de sete anos, entre 1988 e 1995, Shepard escreveu uma série de contos curtos, sempre durante viagens de trabalho. Eles foram reunidos no volume ''Cruzando o Paraíso'', publicado no Brasil pela Editora Mandarim. Trata-se de um livro que passou batido, mas que traz uma espécie de síntese da literatura do autor e, mais que isso, revela sua capacidade em narrar histórias que sugerem abrangência a partir de fragmentos de acontecimentos.
''Cruzando o Paraíso'' reúne 40 histórias onde, invariavelmente, os personagens estão se deslocando no espaço para sinalizar o tempo. Seja na sela de um cavalo, numa camionete, num trailer, passando de motel em motel, cruzando estradas e desertos. Pessoas que vivem entre o universo rural e o urbano. O foco territorial está na região entre Estados Unidos e o México.
Nos contos de Shepard, os pais sempre abandonaram suas famílias para levam vidas errantes, geralmente entupidos de álcool. Os filhos, depois de adultos, tendem a seguir o mesmo caminho do pai, vagar por lugares extremamente abertos e hostis como desertos e planícies na tentativa de ser aquilo que não sabem ao certo.
As histórias narradas estão repletas de dramas íntimos, impasses familiares, acerto de contas, conflitos amorosos, casos de amor insolúveis, enfim cada personagem procurando ser compreendido em seus respectivos problemas. A característica básica está na abordagem sempre realizada a partir de uma perspectiva masculina. Homens brutos e áridos que guardam a sensibilidade apenas para as últimas emergências da alma.
Na trajetória dos personagens, não existe espaço próprio. Tudo acontece em lugares não fixos, estadias em lugares alheios ou em motéis de beira de estrada. Por mais que as figuras façam do espaço nativo uma referência, suas vidas sempre estão em trânsito, nunca estacionam, vagam como a natureza dos carros e animais selvagens. Locomoção é torna-se uma espécie de regra para a existência. E quando param num único lugar, estão certos que estão próximos do fim, da morte.
O princípio utilizado por Sam Shepard não utiliza o conceito ou a idéia de nomadismo. Na verdade, os personagens são escravos de seu território, não conseguem se livrar deles, vagam dentro do próprio território. Nas histórias narradas não há estabilidade. Pelo contrário, o bom senso é totalmente queimado na fogueira das possibilidades. Em outras palavras, deixa claro que no âmbito da vida não há estabilidade.
Em sua literatura, Shepard defende o argumento de que ''solidão é um fato da natureza''. Em seus contos, roteiros e peças, apresenta a idéia de que a solidão pode se constituir como instrumento de entendimento das relações amorosas e familiares. Do mesmo modo como a solidão pode ser uma válvula de escape para o desajuste social. Como igualmente pode ser um paraíso onde a única pessoa que paga a conta, aparentemente, é aquele que realiza tal opção. Algo intimamente ligado à tradição norte-americana do ''self-made man''
Textos teatrais de Shepard como ''Oeste Verdadeiro'' (1980), ''Louco Para Amar'' (1983) e ''Mente Mentira'' (1985) conferem maior subsídio para entender como o conteúdo narrativo do escritor passa por sutilizes cabíveis apenas em espaços temporais. O trabalho em apresentar pedaços de uma história, leva ao leitor o entendimento de uma história maior. Frisando que o ''abandono não é piquenique'' e alertando que é aconselhável dobrar os joelhos sob um coração partido.
Em ''Cruzando o Paraíso'', Sam Shepard apanha fragmentos da vida para fazer literatura. Depois, inverte a ordem e faz da vida fragmentos de literaturas. Tudo sem grandes pretensões, mas no espaço mais aberto possível.

Perfecto podia ver a própria morte à sua frente. Apareceu no chão sob a forma de uma serpente sem cabeça. Uma sombra, crescendo e depois desaparecendo na luz. A cabeça juntou-se ao corpo e separou-se outra vez, enterrando-se profundamente na terra. Ele tinha medo de se mover. Medo de que suas esporas tilintassem, despertando alguma nova idéia na mente da jovem. O frio da noite chegou e ele começou a tremer. A menina percebeu e foi até o mustangue para apanhar seu poncho. Voltou e cobriu os ombros de Perfecto. Viu as marcas das lágrimas e passou a língua áspera no rosto dele. Perfecto lembrou de um bezerro órfão que lambia seus dedos quando ele o levou para mamar em outra vaca. Perfecto não ergueu os olhos do chão. Estavam pregados em sua morte, bem ali à sua frente. A menina recuou e sentou-se delicadamente. Estava nua mas não parecia sentir frio. Olhava fixamente para ele, mas Perfecto não a deixava ver seus olhos. Passaram a noite inteira assim, ela sentada à frente dele. Perfecto rígido, imóvel.
Quando o chefe o encontrou naquela mesma posição, aos primeiros raios de sol, compreendeu que aquele era um homem com poder real, não um simples garoto. Concordou em permitir que Perfecto atravessasse suas terras livremente. Quando o ‘‘vaquero’’ montou seu mustangue esquelético, a menina correu para ele, agarrando seus ‘‘tapaderos’’ e esporas, tentando tirar as botas dele do estribo. Atirou-se ao chão na frente do cavalo e começou a arranhar os próprios seios. Soltou um grito animalesco que fez correr um fio de gelo pela espinha de Perfecto, mas ele não olhou para ela. Virou o cavalo para as ‘‘sierras’’ com os olhos no horizonte azul. A menina o acompanhou por quilômetros, gritando como um cão selvagem e arrancando os cabelos. Perfecto nem uma vez olhou para trás nem mudou o passo do cavalo.
(Fragmento do conto ‘‘Nuevo Mundo’’ que integra o livro ‘‘Cruzando o Paraíso’’ de Sam Shepard)

Serviço:
Cruzando o Paraíso de Sam Shepard, Editora Mandarim, tradução de Aulyde Soares Rodrigues, 206 páginas, R$ 34,00.

mockup