LEITURA - O silêncio das águas
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de dezembro de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Nos últimos meses uma verdadeira batalha vem sendo travada em nome das águas. De um lado, aqueles que pregam a necessidade de construções de novas barragens hidrelétricas em vários rios paranaenses. De outro, aqueles que afirmam que a construção das barragens provocará desastres ambientais e a sensível perda da qualidade da água consumida pela população.
Entre os vários pontos de vista, alguns permanecem submersos, ocupam lugares discretos e diminutos. Entre eles, está o elemento ''paisagem''. Toda e qualquer barragem fatalmente altera a paisagem existente. As quedas d'água, por exemplo, simplesmente deixam de existir. Ocorre a extinção de cachoeiras e corredeiras. Elas permanecem apenas guardadas na memória das pessoas e registradas em fotografia.
Em seu novo livro, ''O Caminho das Águas'', o fotógrafo Valdir Cruz realiza um passeio estético pelas quedas d'água do Paraná. Lançado pela Editora Cosac Naify, suas páginas revelam a silenciosa beleza de lugares povoados por sons gerados pela água em movimento. A fúria do real é transcendida para dar lugar ao sublime.
Ao longo dos últimos dez anos, Valdir Cruz fotografou 120 quedas d'água do Paraná. Todas as imagens foram registradas com baixa velocidade em dois horários específicos, no momento do amanhecer e no instante do entardecer. Tudo para evitar a incidência direta da luz do sol. Tudo para conseguir uma atmosfera coroada de elementos mágicos.
''Caminho das Águas'' reúne uma seleção de 47 fotografias em preto-e-branco das regiões de Foz de Iguaçu, Guarapuava, Jaguariaíva, União da Vitória, Prudentópolis, Porto Vitória e Palmital do Meio. Diferentemente das fotografias clichês de cachoeiras difundidas pelos calendários populares, a imagens realizadas por Valdir Cruz não percorrem o caminho puramente descritivO enquanto simples registro de paisagem. Elas vão além. Em várias situações, se transformam em imagens abstratas que podem ser apreciadas em qualquer posição (seja de ponta-cabeça, em pé ou deitado), multiplicando a sensibilidade do leitor.
Valdir Cruz nasceu em Guarapuava, em 1954, onde passou a infância e adolescência. Residindo em Nova York há duas décadas, ganhou projeção mundial a partir de seu trabalho realizado com os índios Yanomamis, habitantes da região amazônica entre o Brasil e Venezuela. As imagens, que apresentam tanto a beleza como o processo de extinção da tribo, foram publicados no livro ''Faces da Floresta'' (Cosac Naify, 2004).
A fúria do som das quedas d'águas em estado puro não fazem parte de ''O Caminho das Águas''. Ela é substituída pela contradição da permanência estática de algo em constante e ininterrupto movimento. A fúria é convertida numa calma estética. O paradoxo não silencia as águas com barragens, instaura o silêncio pela arte.
Serviço:
- ''O Caminho das Águas'', de Valdir Cruz. Editora Cosac Naify, apresentação de Emanoel Araújo, prefácio de James Enyeart, 47 imagens, 108 páginas, capa dura, R$ 99,00.


