Que a internet provocou significativas mudanças sociais e culturais no homem do século 21 parece óbvio. Que a distinção entre mundo virtual e mundo real está cada vez mais confusa parece igualmente óbvio. Numa época em que uma imagem do céu é mais interessante que o próprio céu, os sentimentos humanos parecem seguir caminho semelhante. A sexualidade também.
O escritor norte-americano Chad Kultgen realiza um retrato provocador dessa época no romance "Homens, Mulheres & Filhos". Lançada semana passada no Brasil pela editora Record, simultaneamente com o filme homônimo de Jason Reitman (diretor de "Juno" e "Amor Sem Escalas") baseado no livro, a obra focaliza as relações entre a sexualidade e a internet em duas gerações recentes, a de pais e a de filhos. O filme está em cartaz em Londrina no shopping Royal Plaza.
Acompanhando um conjunto de famílias que habita o mesmo bairro, e que possuem filhos entre 13 e 14 anos que estudam na mesma escola, a narrativa revela como a internet (juntamente com os dispositivos de telefonia móveis), é capaz de influenciar, ou mesmo determinar, a vida sexual de jovens e adultos, pais e filhos.
A galeria de personagens de "Homens, Mulheres & Filhos" é vasta. A garota A, por exemplo, diante da constante vigilância da mãe em seu computador, cria um perfil falso numa rede social de sexo explícito. O garoto B, ao saber que a mãe vai casar novamente via Facebook, escolhe revelar o fato não ao pai, mas aos amigos anônimos de um game on-line.
A mãe de C descobre novas experiências num blog de infidelidade onde é possível marcar encontros sexuais com desconhecidos. O pai de D salva seu casamento ao encontrar um site de prostituição onde encontra profissionais que fazem aquilo que sua mulher não faz mais.
A jovem E encontra todas as informações necessárias para desenvolver a anorexia e a bulimia num grupo virtual de garotas que trocam experiências sobre como perder peso (tudo porque o garoto por quem se apaixona afirma que não faria sexo com uma "gorda baleia"). A mãe de G, diante do desejo da filha em se tornar famosa, uma grande celebridade, cria um site onde a menina aparece em fotos sensuais (aos assinantes do site é possível escolher lingeries para fotos exclusivas).
"Homens, Mulheres & Filhos" expõe um leque de situações onde a internet e suas ferramentas determinam a vida de duas gerações: a geração daqueles que já nasceram imersos em seu domínio e a geração antecessora que aprende novas ferramentas. Um dos pontos expostos por Chad Kultgen é de que toda educação sexual das novas gerações está sendo feita virtualmente pela indústria pornográfica através vídeos, sites, grupos de afinidade, etc. Principalmente entre os meninos. As meninas aparecem exclusivamente interessadas em se livrarem da virgindade a qualquer custo, de qualquer forma, em qualquer situação para mostrarem às outras garotas que chegaram primeiro (se possível fazer um selfie de uma felação num desconhecido para comprovar a realidade do fato). Algo como o sexo perdido dos anjos.
Outro ponto exposto na narrativa de "Homens, Mulheres & Filhos" é como a internet favoreceu criação de máscaras virtuais onde uma segunda identidade (ou uma terceira, ou uma quarta, quem sabe) pode ser criada e recriada de maneira anônima e sem limites. Um elemento que pode acentuar a confusão entre mundo real e virtual.
Há uma dose velada de ironia e humor na obra de Chad Kultgen ao transformar elementos da realidade contemporânea em ficção. Nesse quadro, os adultos conseguem se resolver melhor; já aos meninos e meninas cabe a maior queda, a maior pedrada na cabeça. Despreparados para a vida real, os ferimentos podem ser inevitáveis.
Chad Kultgen, nascido em 1976 em Los Angeles, é um autor polêmico e controverso. Autor de sete roteiros de filmes e quatro romances, é acusado em seu país de misoginia e de ver o mundo atual apenas pela lente da sexualidade. Em "Homens, Mulheres & Filhos", por exemplo, não existe a ideia de amor, há a ideia de sexo. O recorte realizado é no sentido de que para os pais e mães (os adultos) o amor já não existe mais, e para os filhos (os adolescentes) o amor ainda não chegou. Essa é a pedrada. E ela não é virtual.

Serviço:
"Homens, Mulheres & Filhos"
Autor – Chad Kultgen
Editora – Record
Tradução – Fabiana Colasanti
Páginas – 352
Quanto – R$ 35

No computador do filho Don descobriu um site que continha páginas e mais páginas de pequenas imagens que representavam vídeos que podiam ser acessados simplesmente clicando-se nos ícones. Os vídeos variavam de tamanho, de alguns minutos até bem mais de meia hora, e eram todos pornográficos. Era gratuito e parecia oferecer uma maior variedade de conteúdo explícito que o site que era secretamente assinante. Don lembrou-se imediatamente do dia em que achou a coleção secreta de pornografia do pai. Ele estava mais ou menos com a mesma idade de seu filho agora: 13 anos. Tinha ido à garagem para cumprir uma tarefa inocente: pegar uma chave de boca na caixa de ferramentas do pai para ajustar a corrente da bicicleta. Depois de alguns minutos procurando a ferramenta em vários lugares, Don achou uma caixa de papelão rotulada "Tralhas da Casa Velha" e a abriu. Lá encontrou mais ou menos umas dez revistas Penthouse e Playboy e um rolo de filme Surper 8, que se tornou a obsessão da sua adolescência. A descoberta da "coleção" de pornografia do filho o levou de volta ao instante em que descobrira a do próprio pai. O que foi estranho. Num primeiro momento, Don lamentou o fato de a tecnologia ter progredido a ponto de a primeira experiência de um garoto adolescente com pornografia nunca mais incluir a descoberta da coleção do pai. Percebeu que as crianças que chegassem à adolescência nunca mais precisariam que os pais fossem os fornecedores de seus primeiros vislumbres da sexualidade humana, intencionalmente ou não. ("Homens, Mulheres & Filhos", de Chad Kultgen)
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