LEITURA - O sexo aos olhos dos cegos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de março de 2012
Marcos Losnak <br> <br> Especial para Folha2 
Ele é conhecido como poeta, autor de 15 livros. Mas é muito mais conhecido como compositor e cantor, autor de 18 discos. Pouco conhecido é seu lado prosador. Leonard Cohen escreveu apenas dois romances. O primeiro deles, ''A Brincadeira Favorita'', publicado originalmente em 1963, está chegando às livrarias brasileiras lançado pela editora Cosac Naify.
Escrito no período em que residiu na Grécia, a obra marca a transição que Leonard Cohen fez da literatura para a música. Foi somente após a publicação de ''A Brincadeira Favorita'', quando tinha 30 anos de idade, que resolveu se dedicar à carreira de compositor.
A obra, com fortes elementos autobiográficos, narra a trajetória, da infância ao início da idade adulta, de um sujeito chamado Lawrence Breavman. Nascido numa família de imigrantes judeus em Montreal, Canadá, vive entre o drama infantil da perda do pai e as eternas chantagens emocionais da mãe.
Na adolescência assiste a ideia de sexo invadir sua mente, construir uma casa de pedra e fixar residência. Como todos sabem, não tem jeito, só há uma maneira de um garoto entender alguma coisa sobre o sexo. Mais do que isso, entender alguma coisa sobre as mulheres. Só através do fracasso.
Na sequência aparece a visão de que o amor não é uma lógica para dar certo. É uma possibilidade. Pode ser tanto um ancoradouro como um abismo. Tanto faz. E sempre será um sapato de um pé só. Uma luva faltando um dos dedos. Um casaco com o bolso furado.
Na trajetória de Lawrence, o sexo aparece como a ponta de um iceberg. A parte que se coloca do lado de fora da água para respirar. Sua busca recai, na verdade, sobre a beleza. A beleza que, por sua própria natureza, não pode ser tocada infinitamente. Próximo dela há a felicidade. Grudado nela há o tormento.
Ao longo da narrativa, Leonard Cohen incrusta no personagem uma eterna busca de liberdade: a liberdade de não saber ao certo o que sente, de não saber ao certo o que fazer. O erro é tratado como elemento normal e recorrente da existência. Não há certezas. Cruzar a cidade num carro em alta velocidade, blasfemar contra a própria religião, utilizar a ironia mais afiada para acariciar a mãe. Só há dúvidas em formação.
''A Brincadeira Favorita'' é uma experiência de alguém em percurso. Não há nenhuma necessidade urgente de resolução porque a resolução não está disponível na próxima esquina, no próximo emprego, no próximo casamento, no próximo sorvete de morango. Simplesmente não há o desejo de que tudo se resolva como se a existência humana estivesse pautada por problemas que não carece de solução. O interesse está na experiência primordial do percurso.
Nascido em Montreal, Canadá, em 1934, Leonard Cohen em vários momentos da vida abandonou a música ou a literatura em retiros cíclicos. Mas sempre acabou retornando aos dois pontos. Na década de 90, durante cinco anos, retirou-se para um mosteiro budista. Após ser ordenado monge, abandonou o mosteiro para voltar à música.
A trajetória do personagem Lawrence segue o impulso de que o sexo é uma ação física. Clara, objetiva e delimitada. A experimentação do corpo como raiz da coisa. Mas não necessariamente a função do corpo. Basta retirar o desejo de um corpo e presenciar que nem por isso ele deixa de existir. Como o sexo aos olhos dos cegos.
Serviço:
- A Brincadeira Favorita
Autor - Leonard Cohen
Editora - Cosac Naify
Tradução - Alexandre Barbosa de Souza
Páginas - 246
Quanto - R$ 39,90
Fragmento:
Algumas mulheres tornam a própria beleza como um carro esporte especialmente adaptado ou um cavalo puro-sangue. Levam-na a cada compromisso e dão entrevistas sentadas na sela. As mais afortunadas sofrem pequenos acidentes e aprendem a andar na rua, porque ninguém que dar ouvidos a uma senhora arrogante. Algumas mulheres ventem musgo sobre a beleza e de vez em quando alguma coisa remove esse musgo - um amante, uma gravidez, ou mesmo a morte -, e um sorriso incrível se revela, olhos profundamente felizes, uma pele perfeita, mas é apenas temporário e o musgo se refaz. Algumas mulheres estudam e falsificam a beleza. Indústrias inteiras se estabelecem para servir a essas mulheres, e os homens são condicionados a preferi-las. Algumas mulheres herdam a beleza como um traço familiar e aprendem a valorizá-la lentamente, como um descendente de uma grande família se torna orgulhoso de um queixo incomum porque diversos homens ilustres apresentavam o mesmo traço. E algumas mulheres, Lawrence pensou, criavam a beleza por onde iam, mudando não tanto seus traços, mas o ar ao redor.
(Fragmento de ''A Brincadeira Favorita'' de Leonard Cohen)


