LEITURA - O sepulcro da inocência
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 2 


"A palavra foi dada ao homem para ele blasfemar contra o seu destino, e a palavra escrita é a verdadeira palavra, como o defunto é o único homem verdadeiro, em sua mudez total."
Essa frase do personagem narrador de "A Lua Vem da Ásia" pode ser considerada uma espécie de síntese da intervenção do escritor mineiro Campos de Carvalho na literatura brasileira. A palavra como instrumento de acerto de contas com a realidade invariavelmente ornamentada em falaciosas vestimentas.
Publicado originalmente 60 anos atrás, em 1956, "A Lua Vem da Ásia", ainda causa espanto. Suas páginas trazem uma maneira diferenciada e particularizada de olhar para a realidade. Defende a tese de que, quanto mais delirante e imaginação se apresenta, mais ela se aproxima da essência da realidade. Os capítulos do romance, por exemplo, não seguem nenhuma ordem organizacional, brincam comicamente com o caos que presente na realidade.
"A Lua Vem da Ásia" acaba de ser relançado pela editora Autêntica. Uma boa oportunidade para um maior número de leitores entrarem em contado com a literatura de um escritor que permaneceu desconhecido por décadas. Sua escrita já foi chamada de absurda, surrealista e exótica. Na verdade trata-se apenas de uma escrita nonsense de profundidade: a morte da inocência.
O romance traz o relato confessional de um sujeito em constante delírio no trabalho de expor sua intimidade mental e psíquica. No início, suas palavras sugerem que ele é hóspede de um hotel, sem seguida sugerem que habita um campo de concentração. No final, admite, na realidade, estar confinado num hospício.
Todo seu relato pode ser encarado como metáfora do mundo real e do cotidiano das pessoas normais. Além do nonsense, o tom cômico também entra em jogo para representar o absurdo da realidade do mundo que a humanidade construiu. Alguns pesquisadores apontam que, ao lado do cômico, há uma seriedade brutal ao retratar a busca de uma identidade num mundo pautado pelo desencontro da vida moderna.
Nesse caminho, logo na primeira página, o protagonista se expressa sem pudores: "Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando legítima defesa e qual defesa seria mais legítima? logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo, quando me chamo."
Uma das características da narrativa está em promover constantes e alucinados deslocamentos geográficos. Num mesmo parágrafo, ele está comendo amendoim em Madagascar, logo em seguida está andando de bicicleta em Moçambique. Depois se afogando no Mar Vermelho, em seguida entrando num bordel de Paris. Depois matando uma pulga na Transilvânia, comercializando diamantes falsos no Congo, criando cavalos no México e fazendo cafuné num calango de pelúcia em Pindamonhangaba.
O AUTOR - Campos de Carvalho nasceu em 1916 na cidade mineira de Uberaba. Formado em Direito, passou pelo Rio de Janeiro e fixou residência em São Paulo onde exerceu o cargo de procurador do Estado de São Paulo até a aposentadoria.
Publicou o primeiro livro, "Banda Forra", em 1941, o segundo, "Tribo", em 1954. Em pouco tempo passou a renegar as duas obras proibindo totalmente suas possíveis reedições. Depois vieram "A Lua Vem da Ásia" (1956), "A Vaca de Nariz Sutil" (1961), "A Chuva Móvel" (1963) e "O Púcaro Búlgaro" (1964), romances e novelas que marcaram com personalidade a literatura brasileira.
Até 1995, a literatura de Campos de Carvalho circulava num pequeno círculo de leitores que passavam de mão em mão seus livros de pequena tiragem. Foi em 1995 que a editora José Olympio publicou "Obra Reunida", livro que reunia num único volume "A Lua Vem da Ásia", "A Vaca de Nariz Sutil", "A Chuva Móvel" e "O Púcaro Búlgaro". Então tudo mudou. Adaptações de sua obra apareceram no teatro e no cinema. Teses acadêmicas pipocaram em diversas universidades brasileiras. Mas o escritor não viu grande parte desse resgate ao falecer em 1998.
Campos de Carvalho faz parte daquele seleto grupo de lendários autores que definitivamente abandonaram a literatura. Após publicar "O Púcaro Búlgaro", em 1964, não escreveu mais nada. Também não pronunciou nenhuma palavra sobre tal decisão. Mais de 30 anos de silêncio. Sua literatura possui a clara missão de rebelar, de contestar, transgredir, combater a hipocrisia social. Em alguns momentos agredir, em outros demolir. Tudo com uma polidez desconcertante.
Em comemoração ao centenário de nascimento de Campos de Carvalho, comemorado em novembro de 2016, a editora Autêntica pretende relançar, entre 2017 e 2018, a obra completa do autor. E também promete, respeitando o desejo de Campos de Carvalho, não publicar seus dois livros renegados.
Serviço:
"A Lua Vem da Ásia"
Autor Campos de Carvalho
Editora Autêntica
Páginas 176 (capa dura)
Quanto R$ 47
Fragmento:
Não há quem não venda a sua própria mãe por três milhões de florins. Digo-o por experiência própria, pois acabo de vender a minha ao estudante Vinícius, que tinha necessidade urgente de uma mãe para poder chorar-lhe sobre os ombros.
De minha parte creio ter feito um bom negócio, pois minha mãe pertencia à espécie dita totalitária, e tenho mesmo razões suficientes para acreditar que ela nunca me pôs no mundo, apesar de suas lágrimas hipócritas e seu ar de Santíssima Virgem; receio apenas que tenha agido mal com o pobre estudante Vinícius, ocultando-lhe o verdadeiro caráter de minha mãe, que ele supõe seja uma mãe igual às outras, talvez por ser órfão desde a infância.
E com isso eu fiquei sendo o único órfão do mundo que ainda tem mãe viva, o que não deixa de ser uma situação trágica e ao mesmo tempo engraçada. Posso, é verdade, comprar também outra mãe, inclusive pelo crediário, mas penso que já não será a mesma coisa, dada a espécie de mães que o mundo de hoje está produzindo. Antigamente, antes de haverem inventado a matéria plástica, tudo era mais simples mas em compensação mais humano, e uma mãe que se prezasse dava leite de verdade, não se mancomunando com os senhores do momento e os eternos inimigos do gênero humano, mesmo em tempos difíceis e de terríveis provações.
(Fragmento de "A Lua Vem da Ásia", de Campos de Carvalho)


