Há uma diferença entre o discurso de moralidade e a prática da moralidade. Uma diferença enorme, mas que invariavelmente é mascarada pela canalhice.
O escritor japonês Natsume Soseki (1867 – 1916) joga luz sobre essa diferença em "Botchan", obra que acaba de ser lançada pela editora Estação Liberdade. Trata-se de um dos romances mais lidos no Japão ao longo do século 20.
Publicado originalmente em 1906, coloca o conflito entre o discurso de moralidade e a prática dela dentro de uma escola ginasial. Os professores, que deveriam cultivar a moralidade entre os alunos, são os primeiros a agir como canalhas.
O protagonista do romance, Botchan, é um jovem de Tóquio recém-formado que parte para o interior do país para ser professor de Matemática. Trata-se de seu primeiro emprego. Após torrar a herança deixada pela família, precisa levar uma vida normal de rapaz trabalhador.
Botchan segue para dar aulas num pequeno vilarejo da ilha de Shikoku. O primeiro choque que leva está nas diferenças entre a vida na capital e a vida no meio do mato. O conflito entre metrópole e sertão é evidenciado pela narrativa de Natsume Soseki para retratar a transição do Japão imperial para o Japão moderno.
O autor constrói um protagonista que não consegue se relacionar de maneira harmoniosa com o social. Botchan é sarcástico, mal-humorado, ríspido, desbocado, impaciente e impetuoso. Logo em sua primeira aula vira motivo de chacota dos estudantes. Onde esperava encontrar um bando de caipiras bocós, encontra um bando de espertalhões.
Apesar de não se dedicar às responsabilidades do ensino, cultiva uma idealização do papel do professor como exemplo de moralidade. Em pouco tempo descobre que professores e diretores da escola são tão inescrupulosos quando qualquer bandido. Há o professor que provoca a transferência de outro professor para ficar com a namorada dele. Há o professor que faz com que outro seja expulso de seu quarto de pensão para pegar o quarto para si. Há o professor que inventa uma matéria em jornal para difamar outro professor e obrigá-lo a pedir demissão. E assim por diante.
No meio de todo tipo de tramoia, Botchan resolve clamar por justiça. Para isso recorre ao que considera correto perante as leis e o bom senso. E cai do cavalo. Até mesmo numa instituição de ensino os jogos de poder são selvagens e inescrupulosos. Como última opção, Botchan, ao lado de outro professor injustiçado, resolve ajustar as coisas no braço. Na porrada mesmo, num típico pastelão circense.
Natsume Soseki nasceu em 1867 dentro de uma família de samurais. Após a morte da mãe, foi abandonado pelo pai. Garoto solitário, entrou de cabeça nos estudos de literatura chinesa e entrou na Universidade Imperial (atual Universidade de Tóquio). Atuou por anos como professor em escolas secundárias até conseguir uma bolsa de estudos na Inglaterra. Sem conseguir se adaptar à cultura ocidental, entrou em profunda depressão e acabou retornando ao Japão em 1903. Faleceu em 1916.
A editora Estação Liberdade vem publicando a obra de Natsume Soseki no Brasil com traduções diretamente da língua japonesa. Até o momento são quatro títulos além de "Borchan": "Eu Sou Um Gato" (2008), "E Depois" (2011), "Sanshiro" (2013) e "O Portal" (2014). Outro título disponível no Brasil é "Coração", publicado pela editora Globo em 2008.
Talvez seja difícil para o leitor brasileiro entender porque "Botchan" se tornou um dos romances mais populares no Japão do século 20. As provocações humoradas e iconoclastas de Natsume Soseki são claras, mas fatalmente há elementos na narrativa que só os japoneses são capazes de perceber.

SERVIÇO
"Botchan"
Autor – Natsume Soseki
Editora – Estação Liberdade
Tradução – Jefferson José Teixeira
Páginas – 184
Quanto – R$ 38

À primeira vista, era uma vila de pescadores do tamanho do distrito de Omori. Alguém devia estar zombando de mim. Quem, afinal, suportaria viver num lugar como aquele? Porém, eu nada podia fazer. Fui o primeiro a entrar no bote. Em seguida, mais cinco ou seis passageiros subiram. Depois de quatro caixas enormes também serem embarcadas, o homem de tanga vermelha voltou remando para a margem. Fui o primeiro a desembarcar ao chegarmos em terra firme, e logo me aproximei de um menino de pé na doca, com o nariz escorrendo, e lhe perguntei onde ficava a escola ginasial. O menino me olhou meio aéreo e respondeu que não sabia. Que caipira imprestável. Ignorar a localização da escola em uma cidade com a extensão da testa de um gato? Nesse momento um homem vestindo um estranho quimono de mangas curtas e justas apareceu me pedindo para acompanhá-lo. Segui-o até chegar a um albergue chamado Minatoya ou algo parecido. Algumas mulheres, de vozes desagradáveis, me convidaram em coro a entrar, o que me deixou ainda mais sem coragem de fazê-lo. Ainda de pé no portão de entrada, pedi-lhes que me informassem onde se situava a escola, e quando soube que estava ainda a uns oito quilômetros de trem dali, fiquei ainda mais desanimado a entrar. Comecei a andar lentamente em direção ao homem de quimono para pegar de volta as minhas malas. O pessoal do albergue me olhou de cara feia. (De "Botchan", de Natsume Soseki)
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