LEITURA - O sarcasmo da justiça
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de março de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Há uma diferença entre o discurso de moralidade e a prática da moralidade. Uma diferença enorme, mas que invariavelmente é mascarada pela canalhice.
O escritor japonês Natsume Soseki (1867 1916) joga luz sobre essa diferença em "Botchan", obra que acaba de ser lançada pela editora Estação Liberdade. Trata-se de um dos romances mais lidos no Japão ao longo do século 20.
Publicado originalmente em 1906, coloca o conflito entre o discurso de moralidade e a prática dela dentro de uma escola ginasial. Os professores, que deveriam cultivar a moralidade entre os alunos, são os primeiros a agir como canalhas.
O protagonista do romance, Botchan, é um jovem de Tóquio recém-formado que parte para o interior do país para ser professor de Matemática. Trata-se de seu primeiro emprego. Após torrar a herança deixada pela família, precisa levar uma vida normal de rapaz trabalhador.
Botchan segue para dar aulas num pequeno vilarejo da ilha de Shikoku. O primeiro choque que leva está nas diferenças entre a vida na capital e a vida no meio do mato. O conflito entre metrópole e sertão é evidenciado pela narrativa de Natsume Soseki para retratar a transição do Japão imperial para o Japão moderno.
O autor constrói um protagonista que não consegue se relacionar de maneira harmoniosa com o social. Botchan é sarcástico, mal-humorado, ríspido, desbocado, impaciente e impetuoso. Logo em sua primeira aula vira motivo de chacota dos estudantes. Onde esperava encontrar um bando de caipiras bocós, encontra um bando de espertalhões.
Apesar de não se dedicar às responsabilidades do ensino, cultiva uma idealização do papel do professor como exemplo de moralidade. Em pouco tempo descobre que professores e diretores da escola são tão inescrupulosos quando qualquer bandido. Há o professor que provoca a transferência de outro professor para ficar com a namorada dele. Há o professor que faz com que outro seja expulso de seu quarto de pensão para pegar o quarto para si. Há o professor que inventa uma matéria em jornal para difamar outro professor e obrigá-lo a pedir demissão. E assim por diante.
No meio de todo tipo de tramoia, Botchan resolve clamar por justiça. Para isso recorre ao que considera correto perante as leis e o bom senso. E cai do cavalo. Até mesmo numa instituição de ensino os jogos de poder são selvagens e inescrupulosos. Como última opção, Botchan, ao lado de outro professor injustiçado, resolve ajustar as coisas no braço. Na porrada mesmo, num típico pastelão circense.
Natsume Soseki nasceu em 1867 dentro de uma família de samurais. Após a morte da mãe, foi abandonado pelo pai. Garoto solitário, entrou de cabeça nos estudos de literatura chinesa e entrou na Universidade Imperial (atual Universidade de Tóquio). Atuou por anos como professor em escolas secundárias até conseguir uma bolsa de estudos na Inglaterra. Sem conseguir se adaptar à cultura ocidental, entrou em profunda depressão e acabou retornando ao Japão em 1903. Faleceu em 1916.
A editora Estação Liberdade vem publicando a obra de Natsume Soseki no Brasil com traduções diretamente da língua japonesa. Até o momento são quatro títulos além de "Borchan": "Eu Sou Um Gato" (2008), "E Depois" (2011), "Sanshiro" (2013) e "O Portal" (2014). Outro título disponível no Brasil é "Coração", publicado pela editora Globo em 2008.
Talvez seja difícil para o leitor brasileiro entender porque "Botchan" se tornou um dos romances mais populares no Japão do século 20. As provocações humoradas e iconoclastas de Natsume Soseki são claras, mas fatalmente há elementos na narrativa que só os japoneses são capazes de perceber.
SERVIÇO
"Botchan"
Autor Natsume Soseki
Editora Estação Liberdade
Tradução Jefferson José Teixeira
Páginas 184
Quanto R$ 38


