Não ouvimos nenhum grito de dor. Também não vemos sangue. Apenas compramos nos supermercados pacotes higienicamente embalados com cortes de carne. Bifes prontos para serem colocados na frigideira do almoço.
Geralmente esquecemos que antes de serem bifes, esses cortes higienicamente embalados eram animais. Esquecemos que milhões de animais são abatidos diariamente, mortos longe dos nossos olhos, em distantes frigoríficos de altos muros e assepsia legal.
Os apreciadores de um suculento filé malpassado podem achar um exagero, mas existe muita gente considerando toda essa matança um crime. Um banho de sangue semelhante às guerras, aos holocaustos e outras atrocidades humanas. Entre essas pessoas está o escritor sul-africano J. M. Coetzeer, ganhador do Nobel de Literatura de 2003.
Em seu livro ''A Vida dos Animais'', Coetzee discute, de maneira contundente, como os animais são sumariamente desrespeitados pelos homens que se consideram donos do mundo. Sugere que a violência com que a humanidade trata os animais é semelhante à violência com que os homens tratam uns aos outros ao longo dos tempos. Uma violência que se estende de um campo para outro através de justificativas obsoletas.
Publicado originalmente em 2001, ''A Vida dos Animais'' acaba de ganhar uma nova edição pela editora Companhia das Letras. Traz duas conferências proferidas por Coetzee na Universidade de Princeton, Canadá, em 1998. Diferente de palestras usuais, o escritor optou por narrar a história fictícia de Elizabeth Costello, uma romancista que profere palestras numa universidade sobre a dificuldade da filosofia, bem como dos professores universitários, em encarar a matança de animais. Misturando ficção e realidade, Coetzee coloca uma conferência ficcional dentro de uma palestra real criando um processo metalinguístico.
Personagem ficcional, Elizabeth Costello, uma espécie de alter ego de Coetzee, dedica-se a causa dos animais utilizando os instrumentos do conhecimento acadêmico teórico. Faz uso das ferramentas do discurso dominante. Em suas conferências ''Os Filósofos e os Animais'' e ''Os Poetas e os Animais'', deixa claro que todas as pessoas estão comprometidas, direta ou indiretamente, com uma crueldade que se tornou socialmente e culturalmente aceita. E que o princípio do pensamento humano, em especial a razão cartesiana, foi construído apoiado na ideia de superioridade da humanidade em detrimento a outros habitantes do planeta.
Em sua exposição, Elizabeth recebe crítica de várias direções, de acadêmicos e de familiares. Aquilo que seria uma simples palestra torna-se um acalorado painel sobre o assunto a partir de diversos pontos de vista. Os argumentos brutos, aos poucos, cedem lugar aos argumentos sutis.
Para Elizabeth, longe de qualquer ramo do conhecimento, o coração de uma pessoa que se recusa a causar sofrimento a um animal de outra espécie, mesmo por uma causa culturalmente justa como a alimentação, se recusará naturalmente a causar sofrimento a um animal da mesma espécie, a um outro homem. Entre os vegetarianos passionais e os carnívoros desesperados, a personagem resume seus argumentos na seguinte frase: ''Se nós, humanos, somos capazes de pensar na dor de nossa própria morte, por que seria difícil pensar na morte dos animais?''
Organizado por Amy Gutmann, ''Vida dos Animais'' também traz vários comentários sobre as palestras de Coetzee protagonizadas pela figura de Elizabeth Costelo. São textos do filósofo Peter Singer, da primatologista Barbara Smuts, da historiadora da religião Wendy Doniger e da teórica da literatura Marjorie Garber. Todos tocando num assunto constrangedor: a máscara da crueldade desenhada no discurso humano em relação ao uso dos animais em nome da ciência e da alimentação diária.
A figura de Elizabeth Costello aparece em outro livro de John Maxwell Coetzee que leva o próprio nome da personagem, ''Elizabeth Costello'' (Companhia das Letras, 2004). A obra reúne oito palestras ficcionais proferidas pela personagem, inclusive ''Os Filósofos e os Animais'' e ''Os Poetas e os Animais'', que justamente formam ''A Vida dos Animais''.

SERVIÇO
- A Vida dos Animais
Autor - J. M. Coetzee
Editora - Companhia das Letras
Introdução e organização - Amy Gutmann
Posfácio - Marjorie Garber, Peter Singer, Wendy Doniger e Barbara Smuts
Tradução - José Rubens Siqueira
Quanto - R$ 39 (114 págs.)

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