LEITURA - O sabor da vida longe do sal e do açúcar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de setembro de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Fazer algo de grande proporção com o mínimo possível. O grande, no caso, não tem nada a ver com tamanho, mas com a intensidade das sutilizas.
Esse é o caso de "Aos 7 e Aos 40", primeiro romance do escritor paulista João Anzanello Carrascoza que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify. Conhecido autor de vários volumes de contos, em seu novo livro cria uma narrativa não interessada em extensão, mas em revelações.
Nascido em 1962 na cidade de Cravinhos, interior de São Paulo, João Anzanello Carrascoza publicou mais de vinte livros. É autor de dois volumes de contos exemplares, "O Volume do Silêncio" (Cosac Naify, 2006) e "Espinhos e Alfinetes" (Record, 2010).
"Aos 7 e Aos 40" trata-se de um breve e sucinto romance que passeia pela ideia de reconquista do passado como tentativa de vislumbrar a completude perdida nos labirintos interiores do ser humano. Um processo onde as complexidades são substituídas por revelação cotidianas de momentos decisivos. Não se trata de uma expedição em busca da pérola do dia a dia, mas do tropeçar na pérola, cair do chão e entender percepções inimagináveis.
A estrutura narrativa de "Aos 7 e aos 40" trabalha com duas narrativas paralelas construídas por um mesmo narrador. Uma traz a voz de um garoto e suas primeiras experiências infantis de vida. A outra traz a voz de um sujeito de meia idade experimentando a sensação de paternidade com o filho pequeno. A mesma voz em duas etapas distintas da existência.
Como as duas vozes pertencem a um único personagem, distanciados apenas pelo tempo, a memória surge como ponto de ligação entre elas. A obra é formada por pequenos capítulos onde, através de acontecimentos do cotidiano, surgem pequenas revelações. Apesar de pequenas e discretas, essas revelações são capazes de deixar marcas profundas na memória. E um belo dia, elas acabam explodindo no território das lembranças para recriar um novo lugar no mundo.
Na narrativa de João Anzanello Carrascoza a percepção adulta e a percepção infantil caminham lado a lado. Cada uma sorvendo algum elemento da outra. A infantil vislumbrando o universo adulto. A adulta se alimentando das referências infantis. Duas percepções caminhando paralelamente até se encontrarem no finito um lugar situado na meia idade.
Esse personagem duplo traz a seguinte essência: na idade infantil ele é aquilo que será, na idade adulta ele é aquilo que foi. Carrascoza une essas duas pontas através de silêncios, através de pontos distantes, o recheio cabe ao leitor. Tudo isso através da existência de pessoas simples e normais como a maioria das pessoas normais e simples.
De um lado um garoto jogando bola, indo para a escola, assistindo desenho animado, a mãe fazendo almoço, o pai trabalhando, a descoberta da amizade, a sensação de amor, a percepção da dor, etc. De outro lado um homem reproduzindo tudo na idade adulto. Trabalho, amor, casamento, filho, paternidade, aconchego família, cotidiano, dificuldades, dor, complexidades, etc. Tudo isso, cada qual em seu polo, se unem para criar um único homem até então fragmentado.
"Aos 7 e Aos 40" diz aquilo que não está escrito, que não está explícito na narrativa. Tudo com uma simplicidade memorável. Como se toda percepção humana fosse formada por duas ou mais camadas. A primeira seria a imediata, colada ao real e ao cotidiano. A segunda seria mais sutil, o sentido que a primeira camada não é capaz de dizer, mas aponta. A terceira seria mais sutil ainda, estaria na rede de associações entre as duas camadas iniciais para criar uma quarta, aquela que não possui nomeação.
Um território onde a existência aparece como um sabor longe do sal e longe do açúcar. Não sabor nenhum ou alegrias mortas, mas o sutil sabor que as coisas possuem por si próprias.
Serviço:
"Aos 7 e Aos 40"
Autor João Anzanello Carrascoza
Editora Cosac Naify
Páginas 160
Quanto R$ 39,90


