As árvores secam, os homens morrem, as nações afundam, as estrelas apagam. O caminho natural das coisas parece tão óbvio quanto lógico. Geralmente a percepção dessa obviedade só ocorre quando a pele enruga, os ossos quebram e as doenças prosperam.
É esse tipo de percepção que abate Jeroni, personagem do novo romance do escritor cearense Sidney Rocha. Após uma vida rica e agitada, percebe que o fim é tão inimaginavelmente besta que o sentido da vida escorre ralo abaixo.
Lançado pela editora Iluminuras, "Fernanflor" narra a trajetória de Jeroni Fernanflor, um pintor que corre o mundo realizando retratos de pessoas ricas, famosas e importantes. Os retratos que pinta são amados pelos clientes pela sua capacidade de conseguir registrar aquilo que as pessoas desejam ser, ou desejam parecer ser.
Na infância, um de seus passatempos prediletos era capturar escorpiões e colocá-los para duelar. Uma batalha cruel e mortal onde nenhum dos oponentes sobrevivia: "Nessa hora de cansaço e humilhação Jeroni se agacha, faz a captura com a pinça e os guarda no pequeno estojo oval de metal. Coloca a urnazinha ao ouvido e passa o dia ouvindo suas lamúrias, a carenagem se debatendo contra o metal do estojo, dois dias, três, depois o silêncio. São prisioneiros de sua própria guerra. Quando a tampa se abre, são uvinhas enrugadas. O hálito amargo escapa lá de dentro e é preciso proteger os olhos dos gases. É o exato momento em que a vida se evapora dentro da caixa."
A figura dos escorpiões presente na infância retorna na velhice. Na verdade quando Jeroni está no caixão à espera de seu sepultamento. O narrador apresenta o bicho passeando pelo corpo do pintor dentro do caixão, entre as roupas e as flores. Há um diálogo entre o falecido e o escorpião, mas não se trata de um acerto de contas, mas no esclarecimento da irônica miserabilidade da existência.
A grande surpresa de "Fernanflor" está na narrativa desenvolvida por Sidney Rocha. Há espaços vazios, silêncios e lacunas que funcionam como pontuação da narrativa. O tempo se manifesta nesses vazios, nessas lacunas que conferem um sentido complementar na apresentação do conteúdo.
Jeroni Fernanflor chega ao final da vida com a percepção de que todos os retratos que pintou se resumem num só, um único rosto. Uma face que contém e abarca todas as formas e conteúdos que retratou ao longo da vida. Algo como o retrato da multidão, onde a individualidade cede lugar à máscara coletiva.
Diante da percepção que só acontece quando a pele enruga, os ossos quebram e as doenças prosperam, Jeroni é abatido pela lógica da ilusão. Onde a existência de um homem e um sapato velho possui o mesmo sentido: "Vivera a ilusão da perfectibilidade e, por outro lado, a certeza de estar sozinho no mundo, construindo seu futuro monstruoso. Ninguém pode manter-se numa jaula o tempo todo, nesse falso autocontrole (isso se aprende sobretudo com a velhice nos empurrando até o banheiro e a toda hora, a ponto de não lembrarmos quantas vezes urinamos durante o dia), nem se pode amar a todos, nem ser amado tão intensamente a vida inteira. Tudo seca. Jeroni resolvera não cair jamais na panaceia dos psicólogos: eles não o fariam rastejar até a infância para saber quem era, de fato. Ele era quem era possível ser."
Pautado pela superficialidade, incluindo sua arte de pintar aparências, o personagem se revela um homem livre de emoções. Ou pelo menos distante das emoções que fazem com que as pessoas se tornem melhores do que um dia pensaram ser. Afinal, "a humildade é a melhor arma da vaidade".
Sidney Rocha nasceu em Juazeiro do Norte, Ceará, em 1065. É autor de três volumes de contos, "Matriuska" (2009), "Guerra de Ninguém" (2015), "Sofia" (2014) e "O Destino das Metáforas" (2011) que recebeu o Prêmio Jabuti 2012 de melhor livro de contos. "Fernanflor" é o primeiro volume da trilogia intitulada "Gerônimo" que deve ser publicada ao longo dos próximos anos.

SERVIÇO
"Fernanflor"
Autor – Sidney Rocha
Editora – Iluminuras
Posfácio – Gonçalo M. Tavares
Páginas – 112
Quanto – R$ 38

Era um círculo de fogo ao lado de um imenso peixe, no antigo mapa-múndi, a ilha sem-fim e sem-começo. Tudo ali estava a ponto de se evaporar sem avisos, sem estrondos, sugando na viagem sem volta para o silêncio. O mar da ilha quebra no paredão e inunda o assoalho do carro. O ‘sidecar’ faz a curva numa roda só em direção ao centro. Segue ao longo do casario, as colunas atravessando os pavimentos, as abobadilhas coroadas por safenas e anjos de quem o branco encardiu e só as asas douradas e os olhos pepitas resistem: trinta e seis até o restaurante. Fachadas tremulam de lençóis e sutiãs nus, presos por nós dóceis que o vento engendra; se parecem a lugares cujos os verdadeiros proprietários desistiram. Duzentos e sete ladrilhos no piso até o copo de leite e pão com presunto onde três moedas sobre o vidro do balcão tintinabulam. Os automóveis com as cores da inveja e do ciúme, circulam, resistentes à ferrugem todavia. São seis colunas até o largo onde o ciclista atravessa a vida sem olhar, e ele ou Jeroni podem ser qualquer um dos que mendigam com dignidade, em ternos três homens pedem, a bunda listrada salta da mulher agachada do batente à porta da igreja ou armazém de estiva & cereais, as putas de azul são zebras também, ocupam toda a faixa do dia junto a operários da imensa fábrica e sua metafísica interior; duas crianças abraçadas choram a morte do cavalo; até chegarem as moscas ou os fiscais elas choram, depois irão embora cresce em outro lugar. A sombra do prédio cuspiu o vira-lata o cheiro de querosene o retrato do herói os rapazes vendendo bugigangas, a ilha falsa presa ao poste falso vidro de perfumes contrabandeados muito arroz para pouco frango nas cantinas clandestinas lembrando Bressol, então Jeroni entra à direita para receber outra cidade, esta iluminada pelos navios mais presunçosos, que escondem do sol a silhueta de uma mundo que já não há, se isso servir para ilustrar um passeio pela ilha. (De "Fernanflor", de Sidney Rocha)
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