LEITURA - O rosto da multidão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de março de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
As árvores secam, os homens morrem, as nações afundam, as estrelas apagam. O caminho natural das coisas parece tão óbvio quanto lógico. Geralmente a percepção dessa obviedade só ocorre quando a pele enruga, os ossos quebram e as doenças prosperam.
É esse tipo de percepção que abate Jeroni, personagem do novo romance do escritor cearense Sidney Rocha. Após uma vida rica e agitada, percebe que o fim é tão inimaginavelmente besta que o sentido da vida escorre ralo abaixo.
Lançado pela editora Iluminuras, "Fernanflor" narra a trajetória de Jeroni Fernanflor, um pintor que corre o mundo realizando retratos de pessoas ricas, famosas e importantes. Os retratos que pinta são amados pelos clientes pela sua capacidade de conseguir registrar aquilo que as pessoas desejam ser, ou desejam parecer ser.
Na infância, um de seus passatempos prediletos era capturar escorpiões e colocá-los para duelar. Uma batalha cruel e mortal onde nenhum dos oponentes sobrevivia: "Nessa hora de cansaço e humilhação Jeroni se agacha, faz a captura com a pinça e os guarda no pequeno estojo oval de metal. Coloca a urnazinha ao ouvido e passa o dia ouvindo suas lamúrias, a carenagem se debatendo contra o metal do estojo, dois dias, três, depois o silêncio. São prisioneiros de sua própria guerra. Quando a tampa se abre, são uvinhas enrugadas. O hálito amargo escapa lá de dentro e é preciso proteger os olhos dos gases. É o exato momento em que a vida se evapora dentro da caixa."
A figura dos escorpiões presente na infância retorna na velhice. Na verdade quando Jeroni está no caixão à espera de seu sepultamento. O narrador apresenta o bicho passeando pelo corpo do pintor dentro do caixão, entre as roupas e as flores. Há um diálogo entre o falecido e o escorpião, mas não se trata de um acerto de contas, mas no esclarecimento da irônica miserabilidade da existência.
A grande surpresa de "Fernanflor" está na narrativa desenvolvida por Sidney Rocha. Há espaços vazios, silêncios e lacunas que funcionam como pontuação da narrativa. O tempo se manifesta nesses vazios, nessas lacunas que conferem um sentido complementar na apresentação do conteúdo.
Jeroni Fernanflor chega ao final da vida com a percepção de que todos os retratos que pintou se resumem num só, um único rosto. Uma face que contém e abarca todas as formas e conteúdos que retratou ao longo da vida. Algo como o retrato da multidão, onde a individualidade cede lugar à máscara coletiva.
Diante da percepção que só acontece quando a pele enruga, os ossos quebram e as doenças prosperam, Jeroni é abatido pela lógica da ilusão. Onde a existência de um homem e um sapato velho possui o mesmo sentido: "Vivera a ilusão da perfectibilidade e, por outro lado, a certeza de estar sozinho no mundo, construindo seu futuro monstruoso. Ninguém pode manter-se numa jaula o tempo todo, nesse falso autocontrole (isso se aprende sobretudo com a velhice nos empurrando até o banheiro e a toda hora, a ponto de não lembrarmos quantas vezes urinamos durante o dia), nem se pode amar a todos, nem ser amado tão intensamente a vida inteira. Tudo seca. Jeroni resolvera não cair jamais na panaceia dos psicólogos: eles não o fariam rastejar até a infância para saber quem era, de fato. Ele era quem era possível ser."
Pautado pela superficialidade, incluindo sua arte de pintar aparências, o personagem se revela um homem livre de emoções. Ou pelo menos distante das emoções que fazem com que as pessoas se tornem melhores do que um dia pensaram ser. Afinal, "a humildade é a melhor arma da vaidade".
Sidney Rocha nasceu em Juazeiro do Norte, Ceará, em 1065. É autor de três volumes de contos, "Matriuska" (2009), "Guerra de Ninguém" (2015), "Sofia" (2014) e "O Destino das Metáforas" (2011) que recebeu o Prêmio Jabuti 2012 de melhor livro de contos. "Fernanflor" é o primeiro volume da trilogia intitulada "Gerônimo" que deve ser publicada ao longo dos próximos anos.
SERVIÇO
"Fernanflor"
Autor Sidney Rocha
Editora Iluminuras
Posfácio Gonçalo M. Tavares
Páginas 112
Quanto R$ 38


